Inari Kon Kon | Análise

De apenas 10 episódios, “Inari, Konkon, Koi Iroha.”, “Inari Kon Kon” ou apenas “InaKon“, é uma curta adaptação do manga escrito e ilustrado por Morohe Yoshida. Sem grandes referências por trás, esta produção poderia facilmente passar despercebida comparativamente aos colossos da temporada de inverno. A Production IMS está francamente de parabéns, afinal Inari Kon Kon trata-se da sua primeira adaptação. Sem qualquer experiência à frente das produções televisivas, a empresa conseguiu não só criar um excelente anime como colocá-lo no Top 10 dos melhores animes da temporada.

 

Inari Kon Kon | A História

O foco de toda a história é Fushimi Inari, uma menina simpática, tímida e desajeitada, completamente apaixonada pelo colega de turma Koji Tanbabashi. O seu azar e atrapalhação acabam por suscitar situações embaraçosas, que culminam na humilhação pública do seu amado.

Devastada pela redução significativa das suas hipóteses de conquista e associada à presença contínua da bela e perfeita Sumizome, Inari toma medidas desesperadas. Sem se aperceber muito bem como, a jovem acaba por invocar a deusa raposa Ukanomitama-no-kami, ou simplesmente ”Uka”.

Uka, ao presenciar o desespero da pequena Inari, decide ajudá-la e concede-lhe um desejo. Incapaz de agir por si, de tomar iniciativa por algo, a morena simplesmente deseja ser a doce, brilhante e capaz Sumizome. E assim é: Inari agora apresenta o aspeto de Sumizome.

 

 

Inari Kon Kon | Ambiente e Enredo

O traçado leve, o desenho agradável e adorável, a luminosidade das cenas e as aparentes personagens-tipo, tudo nos remonta a pensar que se trata de mais um doce shoujo: menina tímida e doce é apaixonada pelo rapaz mais popular da escola. Inari Kon Kon trata-se disso e muito mais. A primeira impressão é completamente posta de parte no decorrer dos eventos. Um anime leve em que tudo surge naturalmente e sem que nada seja forçado, torna o aparente cliché num acréscimo ao tema em vez de enredo principal.

Contrariamente ao que o espetador possa pensar, Inari Kon Kon está classificado como seinen. As abordagens de problemáticas de teor adulto, de forma forte e objetiva, bem como o recurso a tópicos atuais são a verdadeira base deste guia de crescimento pessoal. Com destaque ao amor e às relações afetivas, esta produção leva-nos a pensar desde o cerne do amor às diferentes formas de aceitação do mesmo. Podem não existir finais felizes, o amor pode não ser correspondido. O problema é desenvolvido de forma gradual, quase tão gradual como a forma em que este surge. Inari começa por ser a típica menina tímida incapaz de se confessar ao amado, que vive na sombra das amigas. Incapaz de fazer algo ou de se afirmar aos outros. É tímida, é normal. O pensamento é então contrariado e posto à prova desde a raiz da questão, como se várias etapas se cruzassem no caminho da protagonista obrigando-a a agir e, por fim, absorver e consciencializar o que dali depreendeu.

 

 

Livre de qualquer monotonia, esta série prova como um encadeamento e liberdade de interação (entre as personagens!) associado a um humor natural e propositado é algo possível de acontecer com uma premissa como esta.

As problemáticas que envolvem o restante grupo são tão ou mais importantes quanto a protagonista, ou seja, não é a protagonista que faz a história, mas a história que faz a protagonista. Algo bem simples mas que infelizmente pouco se vê nas recentes adaptações televisivas. A inveja, ciúme e insegurança de Maru para com Sumizome causam desconforto e incompreensão em Inari que, incapaz de compreender a situação, tenta resolver mais uma vez com o recurso aos seus poderes. A situação complica-se e muito devido às ações da pequena morena. A confusão instala-se, no entanto, com todo o descalabro facilmente compreende que todos os medos e anseios que ela sente, as outras também sentem, é hora de os encarar de frente e ver o que se pode fazer com eles. Este exemplo, bem como tantos outros estão na base do crescimento e moldagem de todas as personagens.

O amor incondicional, o amor de irmã, o amor de diferentes sexos, casamento forçado, amor proibido, amor entre amigas, todos são referidos e explorados com mais ou menos extensão. Para tristeza dos espetadores casais, Uka e Toka, foram pouco explorados, o desenvolvimento da relação de Inari e Koji foi deixado em aberto, e toda a complexidade envolvendo Keiko e Sumizome foi completamente deixada de lado, comprovando que com uns meros dez episódios fica impossível explorar toda a extensão de InaKon.

Em termos técnicos e visuais a série é bastante agradável e luminosa. A transmissão de paz e serenidade está bem patente nas protagonistas, como se uma aura de luz as rodeasse. A transição entre os diferentes cenários é sem dúvida um ponto forte, com ambientes coloridos e cores vibrantes no santuário, a contrastar com o ambiente escolar tipicamente claro e luminoso.

 

 

O design das personagens não deixou ninguém indiferente, podendo considerar-se o marco desta animação. Contrariamente ao aspeto estereotipado das jovens japonesas: magras, baixas, de cabelo liso com mais ou menos maquilhagem, nesta produção vemos desde altas e atléticas, a meninas mais robustas, menos atrativas mas nem por isso menos bonitas. Dificilmente as personagens são confundidas, os traços da face e corpo são francamente demarcados e não só pelo tamanho do peito, mas sobretudo por todas as outras caraterísticas, marcando mais uma vez, a diferença.

A banda sonora surge nos momentos exatos e na intensidade certa. Completamente adequada às cenas amplia o suspense, medo e desejo que a personagem está a sentir, com especial destaque para o último episódio.

A música de abertura é completamente de acordo com o anime em si, sendo uma agradável antevisão para qualquer espetador.

 

 

Inari Kon Kon | As Personagens

A organização desta produção prima pela diferença, uma das mais significativas é a organização das personagens. Todo o enredo de Inari Kon Kon parece, inicialmente, girar em torno de uma protagonista. No entanto, a existência de mais uma protagonista surge de forma progressiva e quase que despercebida. Temos então Uka como elemento ativo na ação.

Inari Fushimi estudante do 2º ciclo, vê a sua vida a mudar drasticamente após salvar um pequeno cachorro do rio. O pequeno cão é nada mais nada menos que um espírito-raposa. Extremamente tímida, é incapaz de denotar a forte presença e paz que transmite aos que lhe rodeiam. Amiga de infância de Keiko, adora as suas amigas e é incapaz de fazer mal a alguém, na maioria das vezes coloca-se em segundo lugar em detrimento da felicidade dos outros. Infantil e cobarde no início, é incapaz de lutar pelo que anseia acabando por culpar o ambiente à sua volta. A forma como vê os acontecimentos à sua volta e a sua incapacidade de os alterar é mudada ao longo da narrativa, culminando numa Inari completamente diferente no final da história.

O seu encontro com Uka foi sem dúvida o que mais a marcou. O carinho e amizade quase que instantâneos tornam-na completamente dependente das mesmas, ainda que de formas diferentes ao longo do seu crescimento.

 

 

Uka-no-Mitama-no-Kami ou simplesmente Uka trata-se de uma Deusa de ranking elevado, detentora do templo perto da casa de Inari. Apesar de ser uma Deusa adora tudo o que é relacionado com humanos, especialmente jogos de amor, animes, mangas e tudo o que diga respeito aos otakus. Tal caraterística fê-la aproximar-se irremediavelmente de Toka, passando tardes a jogar com ele no quarto.

As caraterísticas de jovem adolescente contrastam com o de figura maternal, facilmente encontrada quando está na presença de Inari. As duas não vivem uma sem a outra, parecendo verdadeiras irmãs. O amor de Uka por Inari quase a matou, no entanto, esta vê-se incapaz de se afastar dos dois irmãos, desejando ardentemente ser humana.

 

 

Koji Tanbabashi colega de turma de Inari é o dito rapaz perfeito: capitão na equipa de basquetebol da escola, bom aluno, bonito, simpático, conhece toda a gente e é extremamente popular, em especial pelas raparigas. É muito ligado à família, cuida muitas vezes do irmão e ajuda a mãe como pode. As ações do mesmo são pouco explicadas no início da série, inicialmente incompreendido, as suas ações levavam a crer que gostava de Sumizome e mais tarde que não gostava de ninguém. Por fim, apercebe-mo-nos que ele é muito mais do que aparenta ser, inclusive no que respeita a relações.

 

 

Toka Fushimi é o irmão mais velho de Inari. Com os seus 17 anos prepara-se para entrar na faculdade. É bom aluno, responsável e muito pouco social. Desde pequeno que foge do templo. O motivo, descredibilizado pela maioria, era a visão de raposas flutuantes e de uma jovem de cabelo claro em cima dos arcos. Não foi explicado o porquê nem como ele adquiriu a capacidade de ver entidades sagradas, no entanto é demonstrado que desde pequeno que a possui. No início da história não gostava de Uka e tentava afasta-la da pequena irmã. Os sentimentos em relação à jovem deusa fazem não só o mesmo crescer como duvidar de todo o seu ego e independência emocional.

 

 

Akemi Sumizome é extremamente bonita, responsável e ultrapassa a linha do ódio para a de adoração em poucos episódios. Inicialmente encarada como uma rival no amor por Koji, acaba por se tornar uma das melhores amigas de Inari. Tudo nela parece perfeito, desde a aparência, as notas, a maneira de ser doce e carinhosa, contudo a adorável Sumizome é muito mais que isso, extremamente sozinha é incapaz de comunicar normalmente com as pessoas. Tímida e pouco habituada a socializar, lentamente e com a ajuda de Inari consegue ser amiga com as restantes amigas da protagonista. Apaixonada por Keiko, representa uma das histórias de amor mais bonitas e significativas da série.

 

 

Keiko Sanjo, amiga de infância de Inari, cuida dela com Marutamachi em seu encalço. Forte e protetora, Keiko é confundida com um rapaz quer pelas suas preferências como pela maneira de ser. Apesar de extremamente observadora não enxerga o amor de Sumizome. Todo o seu ser gira em torno das amigas e para as amigas, presando a amizade acima de tudo.

 

 

Inari Kon Kon | Juízo Final

Em suma, Inari Kon Kon é uma agradável adaptação que prende o espetador nas pequenas coisas, peculiares interações e pela progressiva construção de todo o enredo e personagens, culminando da dedução da premissa.

A apresentação inicial do enredo e protagonistas a tudo se iguala aos restantes animes do género, a forma de agir e mesmo as situações apresentadas a tudo são semelhantes aos típicos shoujo, seguem um rumo divergente na já traçada linha do romance adolescente. Ao longo de apensas 10 episódios é nos mostrado o quão errado o “normal” é, o que falha no pensamento dos jovens adolescentes, o porquê de tantas vezes surgirem confusões e “tudo dar errado”.

Como verdadeiro seinen, a mensagem transmitida é forte e muito bem camuflada, talvez até demais, uma vez que toda a comédia e doçura envolvida poderão distrair até os mais atentos. Um choro, uma piada, uma constatação, a teia imposta pela obra conjuga-se num objetivo final, como por exemplo: é a incapacidade de te veres e identificares que impede a constatação da tua inatividade face a ti mesma. Conclusões fortes, e nunca referidas de forma direta ou sob a forma de constatação final, a inferência partirá sempre de quem a vê.

O protagonismo de determinada personagem é insignificante no panorama geral. A força e peso de determinada adolescente é equilibrado e crescente, mesmo que na sua maioria não explicadas na curta série. Denota-se uma a carga emocional que transmite, remontando para uma das principais críticas à obra: a não explicação ou término de grande partes dos elementos que a compõem. Personagens-tipo, monótonas e lineares são apenas uma miragem inicial, algo que somente irá cativar o telespectador no momento em que decide seguir a obra.

Concluindo, aconselho a todos esta obra de nome “Inari Kon Kon”, independentemente do sexo ou idade vale a pena. É extremamente agradável, relativamente leve e todo o encadeamento do enredo acaba por prender o espetador. Apesar da história ficar em aberto devido ao número reduzido de episódios, o desenrolar natural e progressivo fazem valer os 25 minutos de pura aprendizagem e amor.

 

 

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