Manga – De Sucesso Cultural Japonês a Fenómeno Global

Se muitos dos países ocidentais primam pela aceitação e acolhimento de hábitos de outras culturas, o Japão destaca-se por fazer exactamente o oposto: há uma tendência em manter a sua identidade e cultura muito próprias. No entanto, muitos aspectos da cultura japonesa são de tal forma um sucesso que o Manga conquistou inúmeros fãs em países como Estados Unidos, França, Itália ou, até mesmo, Portugal.

Várias mangas de maior sucesso são posteriormente adaptadas para uma versão em anime, de maneira a captar outro público. Ambas as versões acabam por se beneficiar mutuamente, uma vez que o sucesso inicial do lançamento do anime depende diretamente do quão popular era a manga correspondente, e o anime ajuda a reviver e a estender a popularidade da série, atraindo o público mais curioso que acaba por adquirir a manga para estar mais adiantado no conteúdo. É um fenómeno cultural bastante inspirado em traços característicos da história japonesa.

 

Manga – De Sucesso Cultural Japonês a Fenómeno Global

Os actuais criadores de manga (mangaka), crianças que viram de tudo no seu país natal – desde os bombardeamentos americanos à queda do império – escolheram expressar-se através da arte, dando-nos pérolas como: Dragon Ball, Naruto, One Piece, Death Note, Full Metal Alchemist, Attack on Titan, One Punch Man, entre outros… Actualmente, o manga e os anime já não são vistos exclusivamente como cultura japonesa, mas sim como parte adjacente da nova cultura pop. Abaixo vamos aprofundar o tema com mais detalhe.

 

Anime

A primeira coisa que é importante esclarecer para alguém que não conhece a área é a diferença entre os termos manga e anime, e o que difere entre estas formas de arte e a banda desenhada ocidental.

Primeiramente, manga é o estilo próprio de banda desenhada e romances gráficos japoneses, que se difere das formas de arte ocidentais principalmente no estilo e traço de desenho e no facto das suas histórias serem fortemente inspiradas e influenciadas pela história, cultura e valores japoneses. O manga é escrito e lido da direita para a esquerda, como é normal na literatura japonesa. Já anime, é simplesmente a adaptação desses desenhos para animações com o mesmo estilo e traço.

Os anime melhor classificados pela critica atingiram milhões de visualizações e têm a particularidade de conseguir atingir um público composto tanto de adolescentes como adultos. Em 2020, o mercado de anime esteve um pouco acima dos 24 mil milhões de dólares e é estimado que ultrapasse os 43 mil milhões até 2027.

 

Trabalhos inspirados em manga (outras formas de média)

Essencialmente, o manga pode ser descrito como um estilo muito próprio de arte e desenho, e, como tal, devido à sua popularidade, começou a ser visto e usado em todo o lado no que diz respeito a animações e arte moderna. Sites como o DeviantArt apresentam um infinito número de trabalhos de arte digital inspirada em manga.

O estilo, pela sua dimensão, é explorado por cada artista de forma particular, existindo diversas variações e subgéneros de manga. O mais popular será certamente o “Hentai”, termo que serve para designar o manga de teor erótico. No Japão, formas de arte erótica vêm de há muitos séculos atrás, chegando a preceder até a própria arte manga, pertencendo a outra veia artística chamada “Shunga”. Esta classe artística é tão antiga que é considerada arte clássica em comparação ao “Hentai” moderno, e é muito menos exploratório tanto em forma como conteúdo.

Nós últimos anos os termos “webtoons” e “Web Manga” tornaram-se mais conhecidos, novas formas de divulgação de média, onde smartphones e computadores são uma ferramenta essencial para ler e aceder à arte. Em certa medida é possível afirmar que a popularidade do manga teve a sua dose de influência disruptora na forma como as histórias e a arte são criadas e entregues ao público.

 

Jogos relacionados com manga

Existem vários jogos relacionados com a área dos manga, tanto no estilo artístico como na sua jogabilidade – nomeadamente aqueles que são inspirados ou derivados de grandes séries ou anime. Ou até mesmo o caso inverso, como acontece com o Pokémon, em que o jogo inspirou o anime. Desde os vários títulos da Nintendo às slot machines de casinos online inspiradas em anime, o tema é transversal no mundo dos jogos.

Nos jogos inspirados em grandes anime, a jogabilidade muitas vezes adopta a ficção científica e poderes sobrenaturais característicos dos mesmos. Por exemplo, jogos com grandes gráficos baseados no traço característico dos anime, como o Code Vein, Dragon Quest XI, Tales of Berseria, entre outros, foram títulos que atingiram grande popularidade tanto para jogadores de PC como de consolas.

A imersão no mundo dos anime pode ser uma forma de atrair jogadores para jogos que possam vir a gostar. Por essa razão, os casinos online usam temas de manga e anime nas suas slot machines como uma forma de despertar o interesse dos fãs.

 

Cosplayers de mangá

“Kosupure” no Japão, mundialmente conhecidos como “cosplayers”, correspondem aos indivíduos que adoptaram o cosplay como um hobby e o tornaram popular globalmente. Ao contrário do que muitos pensam, tudo começou no ocidente, na primeira convenção mundial de ficção científica em Nova Iorque no ano de 1939, com os fatos futurísticos de Morojo (Myrtle R. Douglas). Desde então, o cosplay se tornou numa das formas de expressão artísticas, principalmente dentro do mundo do manga e dos anime.

Os cosplayers tentam a todo o custo recriar de forma fiel os seus heróis fictícios na vida real e colocam todo o seu empenho nas suas criações. Hoje em dia, milhares de contas de Instagram são usadas para promover cosplayers e os seus melhores fatos e trabalhos de maquilhagem e caraterização.

Fiéis à forma como surgiu primeiramente esta subcultura, os cosplayers continuam a encontrar-se em convenções maioritariamente centradas em temas relacionados com anime, mang ou jogos – pelo menos antes da grande pandemia provocada pelo Covid-19, que impossibilita há mais de um ano a realização deste tipo de eventos. Em Portugal, o evento mais popular é o “Comic Con Portugal”.

 

 

Mangas ocidentais

O aumento da popularidade e a aceitação da cultura mangá no ocidente juntamente com a cultura pop e outros aspectos da cultura japonesa foi enorme. Alguns dos melhores animes são enormes sucessos na América e na Europa. De tal forma, que alguns criadores ocidentais começaram a adoptar o estilo artístico. Por exemplo, “Avatar – The Last Airbender”, apesar de ser uma animação com uma história com traços característicos da cultura asiática, foi escrito no ocidente.

Tornaram-se cada vez mais comuns histórias e argumentos escritos no ocidente serem adaptados e animados de forma artística em países asiáticos ou, pelo menos, utilizar o estilo artístico característico do manga. Por outro lado, Attack on Titan, anime criado por um artista japonês tem uma história inspirada em características do folclore irlandês.

À medida que o manga se tornou um fenómeno global, várias subclasses com características próprias começaram a ser distinguidas e categorizadas, como o “Manga Francês” ou o “Manga Americano”. Todas as variantes ganharam os seus ‘traços característicos’, mas mantiverem o toque artístico japonês do manga, de maneira a adaptá-lo para o público ocidental com conteúdo e histórias com significado “local”.

 

Outras adaptações de mangas (live-action)

Já houve quem tentasse aproveitar-se da popularidade do manga e dos anime para ir um passo mais além, tentando adaptar os títulos mais famosos a filmes de ação (live-action). Porém, nem sempre foram bem recebidos.

Uma adaptação do popular anime Death Note, que chegou a ser distribuída na Netflix, foi muito criticada pelos fãs mais conhecedores das versões originais que não perdoaram as imperfeições da produção do filme. No entanto, já foi anunciado este ano que existem avanços no “Death Note 2” e que a sequência continuará a basear-se no famoso manga que originou um dos mais populares anime da história.

Por outro lado, o filme de orçamento médio “Alita Battle Angel”, baseado na mangá dos anos 90 de Yukito Kishiro, “Battle Angel Alita”, foi muito bem recebido pelo público.

Rapidamente, o manga tomará conta do mercado, com diversas adaptações ainda por vir. Demon Slayer, é um bom exemplo disso, o manga lançado em 2016 por Koyoharu Gotouge e adaptado para anime em 2019 tornou-se um enorme sucesso devido à sua fantástica narrativa e bonita animação. O mais incrível neste caso é que antes do lançamento do anime a manga tinha um público bastante reduzido. É quase certo que surgirá uma adaptação aos cinemas, em formato live-action, muito em breve.

 

 

Activismo através de manga

O manga não possui qualquer restrição acerca do que pode ser ou não desenhado/representado. É uma forma de arte que permite incluir qualquer tipo de grupo social ou sentimento. Por tudo isso, e por ser uma forma dos artistas japoneses expressarem-se livremente, foi muitas vezes utilizado no mundo do activismo como uma forma de expressar descontentamento e protestar situações e posições políticas.

Existem outros exemplos de activismo através da criação de arte inspirada em manga, como é o caso do apresentador do programa americano “Last Week Tonight”, John Oliver, que usou a arte manga para criar mascotes que ajudassem a chamar atenção para temas sensíveis e boas causas. Outro exemplo, foi a criação de arte manga que representava a situação das crianças e refugiados na Síria, tendo os criadores o objectivo de captar a atenção do público para esse problema.

 

Do Japão para o Mundo

Mesmo que os criadores ocidentais façam as suas histórias adaptadas ao seu público na forma única usada pelos artistas de manga, vão sempre valorizar o aconselhamento e do talento de artistas japoneses. E é por isso que o Japão é sempre considerado a capital mundial do manga.

O manga é considerado um bem de alta qualidade, apesar de ser produzido em massa e a baixo custo. Este tipo de arte satisfaz os consumidores através de emoções e narrativas únicas.

O sucesso do manga advém da sua forma de arte/entretenimento menos rígida em termos do que pode ser ilustrado comparativamente à arte habitualmente produzida pelas culturas ocidentais. É, portanto, para alguns, um género de escape da sociedade. É menos inibido em horror, superstição, sexo, monstros e outros tópicos sensíveis.

 

 

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2 comentários

stephano bahia 3 Junho, 2021 - 17:40

1 trunfo das editoras japonesas. Ninguém pode continuar mangá de autor falecido ou aposentado, salvo raríssimas exceções. Isso é bom, porque o mercado sempre se renovará. Por isso que o Japão tá na vanguarda dessa arte a nível global.

Titi 8 Junho, 2021 - 17:00

Excelente artigo Daniel! 👏
Completo e informativo, abordaste os pontos principais no que toca a essa arte predominantemente japonesa
Como mantiveste um tom praticamente imparcial ao longo do artigo, estou curioso sobre a tua opinião pessoal a respeito de manga
Quanto vale e quanto impacto teve/tem em ti?

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