Shirobako – Análise

Definitivamente, ou ando maluco, ou ainda mais generoso nas pontuações do que sempre fui (efeitos da pandemia?!). Após as grandes avaliações que dei às obras visadas nas minhas últimas análises, escrevo agora sobre Shirobako, também para elevar a obra a um patamar de topo.

Como disse no meu artigo de primeiras impressões, há muito redigido, e no qual podem ficar a saber mais sobre a premissa inicial da história, esta produção original da P.A. Works apresenta ao espectador o processo de desenvolvimento pelo qual tem de passar uma produção anime. Isto é, as várias etapas que o projecto tem pela frente, antes de cada episódio chegar ao ecrã.

Pois bem, ainda que um fã de anime não tenha necessariamente que ter curiosidade ou interesse em conhecer este processo – comum à maioria das obras de animação japonesa que consome – o leitor deste artigo pode desde já ficar avisado que Shirobako tem uma riqueza de conteúdo que ultrapassa esta sua especificidade.

Ainda que o centro dos acontecimentos seja um estúdio de anime (denominado “Musashino Animation”), tudo o que despoleta a partir dali – seja dentro, ou já fora daquele local de trabalho – pode ser facilmente adaptado e identificado com o nosso dia a dia ou, no caso daqueles que ainda têm uma vida curta, gravado na memória para desafios futuros.

 

 

O processo de produção de um Anime

Porém, antes de enveredar pelo caminho que conduz à verdadeira riqueza de Shirobako enquanto obra, e que é apelativa a qualquer tipo de espectador, começo por dedicar umas palavras ao tema que dá forma ao seu enredo.

Desde início, o espectador, à boleia da grande protagonista, Aoi Miyamori, “aterra” no interior da Musashino Animation, a fim de acompanhar todo o processo de construção da série anime intitulada “Exodus”.

Ora, mesmo o leitor que nunca dedicou grande atenção ao processo de desenvolvimento de um anime (como é o meu caso!), deve ter a ideia que é necessário uma grande equipa de trabalho para se dar forma a uma produção deste género. Em caso negativo, isso também não é um problema, pois a apresentação de Shirobako torna logo evidente essa necessidade.

Uma necessidade que, infelizmente, chega a colocar em causa o interesse do espectador nesta história. Como referi no meu artigo de primeiras impressões, isso acontece através de uma introdução a um vasto número de personagens, nos minutos iniciais da trama. Este “bombardeamento” de personagens, que torna impossível fixar qualquer nome que seja (isso leva tempo!), pode levar o espectador a abdicar rapidamente da trama.

Especialmente devido a esse risco, comecei a minha análise a falar neste assunto. Este é, de facto, o ponto mais confuso e enganador da qualidade de Shirobako. Todavia, quero frisar que vale bem a pena resistir a esta dificuldade. Lentamente, ela vai desaparecendo. Não quero com isto dizer que se torna possível fixar todos os nomes, o que também não é uma obrigatoriedade. O espectador pode jogar com o efeito visual das caras para se sentir mais integrado na série. Na verdade, essa será uma solução muito agradável, tendo em conta a qualidade visual soberba desta obra original. Mas sobre aspectos técnicos, falarei mais à frente.

 

 

Um início complicado, mas necessário

Como estava a dizer, a parte inicial torna-se um pouco assustadora devido ao número muito largo de personagens que trabalha, dentro e fora de portas (subcontratados), na Musashino Animation. Ou seja, já nem estou a incluir aqui as protagonistas (que são 5!) da série.

Contudo, confesso que quando me ponho do lado dos criadores da série, também não encontro grandes soluções para este problema. Depois de conhecer melhor o processo de trabalho de um episódio anime (através desta série), tornam-se claras todas as dependências interdepartamentais dentro do estúdio. Por este motivo, focar um departamento da Musashino Animation por episódio, ou de forma mais espaçada, colocaria em causa o entendimento do espectador no que diz respeito à criação de um episódio anime.

Em suma, esta confusão inicial é bem justificada e, diria mesmo, necessária. Para alegria de todos, mais cedo ou mais tarde, ela acaba por ser ultrapassada, e até compensada. Não com o constante aparecimento do nome das personagens em legenda, mas com as explicações ao detalhe, protagonizadas por parte dos vários trabalhadores, de forma a que este processo complexo seja melhor entendido pelo espectador.

 

 

Uma profissão que coloca o dinheiro em segundo lugar?!

Por último, e não podia deixar de o referir, a observação de todo o processo deixou no ar a ideia deste ser um emprego, na maioria dos casos, cujos profissionais o desempenham pela paixão, e não propriamente porque o dinheiro compensa o seu esforço. Para lá das notícias que por vezes saem e que colocam em causa as condições de trabalho dos profissionais desta área, a dificuldade de uma remuneração justa poderá residir na grande dificuldade de ter uma equipa tão basta e complexa a funcionar em sintonia. E mesmo isso poderá ser insuficiente, pois há vários intervenientes exteriores. Como Shirobako deixa perceber, o número de dependências é extremamente elevado. Um simples atrasado numa tarefa de um departamento, ou uma correcção ou reconstrução de um quadrado de uma storyboard, de um desenho, ou de frame, é o suficiente para deixar muitos outros trabalhadores em standby e com todo o seu trabalho atrasado, o que se pode reflectir em muitas horas extra. A imprevisibilidade é uma constante e as reformulações podem chegar de todos os lados, até mesmo do criador do manga no qual o anime é baseado.

 

 

O significado da palavra Shirobako

A título de curiosidade, de mencionar que o título escolhido para este anime original não é de todo inocente. Segundo consta, a palavra “shirobako” significa “white box” (“caixa branca”), que advém dos tempos em que cada episódio anime, quanto terminado pelo seu estúdio responsável, era gravado numa VHS que depois era embalada na chamada “caixa branca” e enviada aos membros do staff de produção, antes do episódio ir para o ar.

Hoje em dia, com a evolução da tecnologia, os episódios já não são entregues num formato VHS, mas o termo “shirobako” continua a ser utilizado como referência ao “trabalho final” que segue para os responsáveis da produção.

 

 

Definir e alcançar objectivos em equipa!

A necessidade das várias equipas de produção de um anime terem de funcionar em sintonia, a fim de que os prazos de entrega sejam cumpridos, é uma missão altamente complexa que, como já referi, muitas vezes sofre atrasos, gera pânico nos seus participantes, ou compromete as suas vidas para lá do trabalho.

Porém, os responsáveis de Shirobako – intencionalmente, quer-me parecer – aproveitarem este mecanismo para expor o que de melhor ele tem para oferecer. Pelo menos, na minha perspectiva, foi do outro lado desta azáfama profissional que encontrei uma lição muito rica para a minha vida, útil a qualquer indivíduo, e que extravasa completamente o mundo do trabalho. Isto é: a importância daqueles que nos rodeiam, e o seu impacto, na descoberta e na atribuição de um sentido para a nossa vida!

Passo a explicar. Quando começamos a amadurecer, eu diria que deambulamos numa de duas situações:

Na primeira, sabemos claramente aquilo que queremos (temos um objectivo bem definido, ou até mais). Contudo, em determinadas alturas dessa jornada, ficamos desnorteados no caminho e não sabemos muito bem como proceder;

Na segunda, vivemos numa azáfama total que advém da nossa vida profissional e/ou familiar, e não temos se quer tempo para pensar naquilo que queremos para a nossa vida. Por outras palavras, deixamo-nos “ir na onda” de uma rotina que mal nos deixa respirar. Aqui, o problema surge quando temos finalmente tempo para reflectir um pouco e olhar à nossa volta. Começamos a fazer perguntas a nós próprios sobre o sentido da vida e, talvez sem surpresa, percebemos que não sabemos qual o ponteiro da bússola que devemos seguir.

No meu entender, Shirobako é uma espécie de “desbloqueador” de ambas as situações e, por este motivo, fiquei encantado com a série. Afinal de contas, esta história, aos poucos e poucos, transforma-se numa possível solução para definir ou descobrir um sentido para a vida.

Mas não é tudo! Atrevo-me ainda a dizer que, nas duas situações que aponto em cima, os objectivos e os sentidos da vida encontrados pela maioria das pessoas são de carácter individual e não colectivo. E é normal que assim seja, pois não podemos (nem queremos?!) comandar a vida dos outros. Só a nossa, para ser realmente aproveitada e vivida ao máximo, já exige toda a atenção possível.

 

 

No entanto, em qualquer um destes casos, não deixa de ser irónico, e até divertido, constar que é num ambiente social e de grupo que temos maior probabilidade de encontrar as respostas que podem reorientar a nossa vida. Não num ambiente qualquer – e daí também a importância das relações que cultivamos com os outros – mas num ambiente honesto e transparente, onde as pessoas são frontais e sinceras umas com as outras. É nesta partilha de pensamentos entre amigos e familiares que reconsideramos as nossas vontades, que nos interrogamos sobre elas (caso da Aoi Miyamori), e que descobrimos os próximos passos a dar.

Por outras palavras, só a partilha de várias linhas de pensamento nos fazem questionar tudo o que é importante, a fim de que os nossos objectivos sejam isso mesmo, nossos! Daí ser igualmente importante medir se as conclusões a que chegamos vêm de dentro, ou se nos estamos a deixar afectar em demasia por aquilo que apaixona os outros. Não somos todos iguais, e as influências devem ter uma rédea limitada. A partir de certa altura da reflexão, será mesmo só connosco. Mas, voltando atrás, a integração num grupo de trabalho, de amigos ou até familiar, pode ser considerado o elemento catalisador que levanta o véu da aventura que queremos sinceramente abraçar. De tudo o que Shirobako tem para oferecer, esta é a componente fundamental para eu recomendar a série a qualquer indivíduo.

Antes de avançar para o próximo tópico, acrescento que esta derivação do colectivo para o individual não tem apenas resultados no sentido da vida de cada elemento daquela equipa de trabalho, mais tarde reflectida no espectador. Um outro aspecto que beneficia disso é a produtividade e a motivação no trabalho. Porque são estas questões com que os trabalhadores da Musashino Animation se “confrontam” uns aos outros (no exemplo em questão) que geram energia para o trabalho através da descoberta do sentido para o trabalho. Por último, não esquecer aqueles momentos em que ainda pairam algumas dúvidas, mas que o trabalho em desenvolvimento “embala” por via do espírito de equipa que sai fortalecido com este tipo de diálogos entre colegas de profissão.

 

 

Aspectos Visuais

A visualização da obra completa confirmou aquilo que já suspeitava e partilhei no meu artigo de primeiras impressões a Shirobako. Os estúdios da P.A. Works, pressionados ou não por esta ser uma série que aborda a construção de um anime, esmeraram-se e de que maneira nos diferentes aspectos visuais deste projecto. O desenho das personagens e dos ambientes é rigoroso, e a coloração bastante agradável para a retina do espectador. Por seu lado, a animação não fica nada atrás, quer nas cenas mais tranquilas, quer nas mais velozes e que exigem mais deste processo.

De realçar também que, em Shirobako, podemos desfrutar da qualidade magnífica deste trabalho em dois momentos distintos. O primeiro é o partilhado por qualquer série anime, responsável por lhe dar forma e alma. Contudo, aqui temos uma realidade alternativa, respeitante ao processo propriamente dito de produção de um anime. Durante a trama, com as personagens a passarem em revista os vários processos de desenvolvimento, são apresentadas ao espectador as exigências no desenho e na animação pelas quais se devem pautar os estúdios de anime. Aspectos esses cujo tipo de abordagem e cuidado com todos os pormenores pode fazer toda a diferença na qualidade final do trabalho, como aliás é demonstrado ao espectador pelos especialistas destas áreas que integram o elenco de Shirobako.

 

 

Banda Sonora

A música ambiente de Shirobako não é exuberante nem tem a capacidade de roubar a atenção do espectador ao que se está a passar em cena. No entanto, talvez estes sejam os melhores elogios que lhe possa fazer. Convém lembrar que grande parte dos momentos se passam dentro de um estúdio de anime, com saltos constantes de departamento para departamento. Ou seja, o espectador encontra-se no seio de um ambiente profissional muito alargado, onde é presenteado com diversas explicações algo complexas sobre o desenvolvimento de um projecto anime. Por estes motivos, a sua concentração já tem que ser redobrada, pelo que ter a banda sonora a tentar roubar a atenção seria um erro. Assim, sem suscitar êxtase ou irritação, a dita cuja revela-se muito agradável e ajustada ao conteúdo.

 

 

Openings e Endings

A nível de openings e endings, a série apresenta duas aberturas e dois vídeos de encerramento fixos, embora por vezes, como é o caso do primeiro episódio, utiliza uns diferentes. Estes “originais”, que volta e meia aparecem, estão associados a projectos anime que, na história da trama, foram confiados à Musashino Animation para realização.

Mas em relação aos openings gerais (“COLORFUL BOX”, de Yoko Ishida; “Takarabako” de Masami Okui), não sendo soberbos, apresentam os dois uma qualidade acima da média a todos os níveis.

Por seu lado, o segundo ending (“Platinum Jet”, Doughnut Quintet) tem uma música que se agarra facilmente ao ouvido e se ajusta na perfeição ao vídeo que acompanha. Já o primeiro ending (“Animetic Love Letter”, protagonizado pelas seiyuus que dão voz às personagens: Aoi Miyamori, Ema Yasuhara, Shizuka Sakaki) tem como par um vídeo menos apelativo que exibe apenas duas personagens ficcionais dentro da própria ficção.

Estes dois bonecos acompanham Aoi Miyamori para todo o lado – como se fossem uma espécie de conselheiros da sua mente – que debatem entre si acções a tomar perante as dificuldades que surgem na vida da jovem. Todavia, se por vezes é esta a ideia que fica desta dupla constituída por uma boneca e um urso de peluche, a verdade é que eles também surgem como explicadores de alguns processos de trabalho dentro da Musashino Animation e, portanto, olhando a esta ambivalência, torna-se complicado definir exactamente o que são.

 

 

Juízo Final

Resumindo, pela sua complexidade, numa fase inicial Shirobako tem algumas dificuldades em persuadir o espectador a continuar a dedicar-lhe a sua atenção. No entanto, ultrapassados os primeiros 3 a 4 episódios, a trama começa a proporcionar conforto, interesse, e até alegria, naqueles que decidem continuar a acompanhá-la. Características estas que nunca mais desaparecem até ao final da trama. Pelo contrário, elas intensificam-se e concedem a esta obra original o potencial para ficar gravada dentro de nós. De duas maneiras! Arrisco dizer. No nosso coração, por nos ajudar a reencontrar ou a fortalecer a paixão pela vida, mas também nas nossas cabeças, enquanto manual ou processo de aprendizagem para lidar com as vicissitudes da vida.

Uma obra recomendada!

 

Trailer

 

 

 

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