Animação Versus Comédia

por António Costa
Wotakoi Animação Versus Comédia

Tenho andado a ver a anime Wotakoi que, caso não saibam, é uma comédia romântica, e apercebi-me pela primeira vez das falhas na animação deste género de coisas. As personagens são muito estáticas, as expressões que às vezes têm parecem estranhas, o fundo está normalmente desprovido de gente e, quando tem, são feitos de efeitos 3D, etc.

 

Wotakoi Animação Versus Comédia

 

Escusado será dizer que existem muito fatores que causam isto: horários apertados para os animadores; animadores a trabalhar em más condições; orçamentos baixos; é uma produção da A-1 Pictures, um estúdio onde animadores literalmente se suicidaram porque as condições são tão más. Eu podia entrar aqui e agora numa discussão inteira sobre animadores e a forma como são tratados, mas o meu problema agora é outro. Dado o seu género, Wotakoi não é muito intensivo em termos de animação porque não envolve coisas como cenas de ação e não tem designs especialmente detalhados. Daí a minha pergunta: Quão importante é a animação para uma comédia?

Ok, estamos a falar de anime, uma palavra derivada de “animação” mas o que é que eu quero saber é se uma comédia consegue escapar à má animação através de escrita, atuação e história. Se estiveram a prestar atenção às animes que têm saído nos últimos anos, podem ver algumas comédias que ficaram populares, utilizando má animação como uma força. A mais famosa destas é Inferno Cop do Estúdio Trigger, uma série que… Bem, vejam o vídeo e já percebem.

 

 

Inferno Cop utiliza a sua falta de animação como uma vantagem, para criar um ambiente bizarro e realçar o surreal das situações. Portanto já estabelecemos que a má animação pode ser uma força nas comédias, mas Inferno Cop é um exemplo extremo porque é feito de forma a ser completamente estranho e por isso não tem personagens ou uma história concreta, enquanto a maior parte das comédias tem. Por isso, vamos ver outro exemplo que ficou muito popular nos últimos anos e cuja animação também não é grande coisa, Konosuba.

 

 

A animação de Konosuba também não é nada de especial, mas, tal como Inferno Cop, transforma esta fraqueza numa força. Konosuba é uma paródia das adaptações de light novels que recentemente se tornaram tão populares (Sword Art Online, Asterisk War, por aí adiante) por isso o aspeto genérico, os designs com uma qualidade derpy e a animação que faz com que tudo se pareça prestes a derreter, fazem com que a própria estética da série parodie essas adaptações baratas. Só o facto das mamas das personagens femininas abanarem de forma tão pouco apelativa, diz algo sobre o tipo de paródia que a série está a tentar fazer.

Mas, novamente temos a questão de que Konosuba é uma paródia e, por isso, o seu foco principal é comédia. Vamos agora fazer o trabalho mais complicado: olhar para séries que querem ter comédias mas também querem que o espectador fique emocionalmente envolvido com o que se passa. Ao olhar para Wotakoi e outras séries semelhantes, o que me parece a mim crucial na comédia deles resume-se a dois fatores: timing e reação.

Estes dois fatores também são importantes nos exemplos já referidos, mas em comédias românticas são a base a partir da qual tudo é construído e, como podem adivinhar, são incrivelmente dependentes de animação. No Bakemonogatari, que tecnicamente é uma comédia romântica, no episódio em que a Senjougahara e o Araragi saem num encontro, conduzidos pelo pai da Senjougahara, o Araragi trata-a pelo apelido em vez de pelo nome próprio e ela decide gozar com ele, chegando-se ao pai enquanto diz que o Araragi lhe quer dizer alguma coisa.

Esta piada em si já tem graça, mas o “ponto final” que completa a cena é a animação da Senjougahara. Pessoalmente, já vi este tipo de piada de “rapariga quer envergonhar rapaz” mas normalmente são muito exageradas e envolvem muito barulho, porque a rapariga envergonha o rapaz através de alarido. Neste caso, o que faz a piada funcionar é a subtileza e o realismo do movimento da Senjougahara. Não é uma coisa por aí além, mas tem detalhe e peso suficiente, para ter graça só por causa da incongruência entre o contexto do momento e a seriedade da animação.

 

 

Mesmo quando a comédia numa anime é baseada em diálogo, a animação continua a ser importante, porque uma má execução pode matar uma piada que é boa conceptualmente e uma boa execução pode salvar uma piada estúpida. A animação de Wotakoi é tão flácida e fraca que, mesmo quando o que está a ser dito tem graça, as piadas falham. As reações nunca são exatamente como deviam ser, o timing das coisas é ligeiramente errado (se bem que o timing é uma coisa mais de direção e o debate se a direção e a animação pertencem no mesmo saco, é para outra ocasião).  Pode parecer pequeno, mas estas coisas pequenas juntam-se para formar um grande problema que cobre a série inteira. Eu ainda continuo a ver Wotakoi porque, apesar das falhas na comédia, continua a ser romântico e gosto das personagens mas é impossível de ignorar que a comédia falha mais vezes do que acerta.

Porque é que decidi escrever um artigo sobre isto? Bem, acho que é preciso ensinar as pessoas a analisarem aquilo que gostam e tentar perceber se gostam de algo apesar das suas falhas. Neste caso, eu gosto de Wotakoi, apesar da sua comédia não prestar. Eu recomendo fazerem este tipo de análise, especialmente se sentirem que gostam de algo mas, por alguma razão, também sentem que se calhar não deviam porque há qualquer coisa que não funciona.

Há maneiras piores de passar uma tarde.

 

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2 comentários

BD Freitas 31 Agosto, 2018 - 21:22

Pergunto-me como é que o humor de Wotakoi, uma comédia slice of life sobre otaku adultos a tentar ter uma relação bem sucedida e sobreviver ao local de trabalho tem a sua comédia prejudicada pela animação.
Para começar, o foco de Wotakoi é a forma inovadora como escreve os seus relacionamentos, não tanto as piadas. Destas, muitas são referências, que poderão não ser entendidas por todos. Embora a animação não seja nada de transcendente, é importante salientar que, sendo uma adaptação de um manga recente, feita pela A1 Pictures, que também tem a seu cargo séries como Nanatsu no Taizai e Sword Art Online, Wotakoi nunca teria reservada para si uma grande equipa de animação, pois os melhores já estariam colocados noutras propriedades mais lucrativas.
Creio também que é um pouco injusto comparar a animação de Wotakoi (ou de qualquer propriedade da A1) com uma propriedade do Studio Trigger, conhecido por ter uma qualidade muito superior tanto em termos de animação como na criatividade com que é executada.

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João Sampaio 2 Setembro, 2018 - 0:00

Excelente artigo! Já tinha pensado algumas vezes neste assunto, mas como normalmente este género de animes me agarra mais pela ‘likabilty’ das personagens, é algo com o qual lido bem (a não ser que fique mesmo mau).
Já estava na lista mas fiquei com ainda mais curiosidade para ver Wotakoi!

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