Black Bullet – Análise

por Renato Sousa
Black Bullet - Rentarou Satomi & Enju Aihara

Black Bullet foi mais um dos animes que ficou pendurado na minha watch list, durante alguns anos, após ter acompanhado os primeiros episódios na altura da sua estreia (primavera 2014).

Tanto tempo depois, a retoma da série não foi propriamente agradável. Com o avançar dos episódios, as lacunas desta adaptação do light novel de Shiden Kanzaki (história) e Saki Ukai (arte) tornaram-se cada vez mais profundas. Mas ainda antes das explicações, uma introdução à história de Black Bullet!

 

Black Bullet – Sinopse

No ano 2021, um vírus parasita denominado “Gastrea” atinge brutalmente a espécie humana. Todos aqueles que foram infetados e sucumbiram à propagação do vírus transformaram-se em monstros, enquanto os que conseguiram escapar vivem agora entre monólitos. Estas construções são feitas de um material chamado varanium, o único capaz de afetar os “Gastrea” e capaz de os manter à distância daqueles que ainda asseguram a existência da nossa espécie.

Ao mesmo tempo que se protegem, os humanos tentam também combater o vírus. Uma estratégia ofensiva que é confiada a várias equipas de dois elementos, compostas por um Promoter e uma Initiator. Estas duplas têm características muito especiais.

De um lado, as Initiators, também denominadas “crianças amaldiçoadas”, têm parte do vírus “Gastrea” no seu corpo, mas não são afetadas por ele, salvo no bom sentido. Isto é, conseguem fazer uso da força e poderes sobrenaturais que a infecção lhes concedeu. Do outro, os Promoters, que sendo humanos aparentemente normais, cujo talento para o combate se reflete apenas em muito treino para esse fim, também escondem algumas surpresas.

No meio das várias duplas formadas para combaterem os “Gastrea”, Black Bullet foca-se no par Rentarou Satomi e Enju Aihara, que surge em cena 10 anos depois do ataque viral.

 

Black Bullet - Rentarou Satomi & Enju Aihara

 

Do início promissor …

Black Bullet tem um arranque muito positivo e capaz de cativar um espectador desenquadrado com a obra, como era o meu caso. Com explicações acessíveis para quem se está a sintonizar com a história, a par de algumas cenas de ação interessantes e um bom ritmo de desenvolvimento, os primeiros episódios têm qualidade para levarem o público a querer ver mais.

Surpreendentemente, depois de ter conseguido manter o público agarrado à produção na sua fase inicial, Black Bullet não só não conseguiu dar sequência ao seu bom arranque, como os problemas e as lacunas começam a surgir para nunca mais desaparecerem.

É por esta altura que me sinto aliviado pelo facto de não ter feito um artigo de primeiras impressões sobre o anime, já que iria contrastar por completo com esta análise.

 

… à perda total da coerência!

Embora as falhas e os acontecimentos sem nexo só comecem a surgir com frequência a meio da trama, o primeiro “franzir de sobrolho” surge no episódio 3. Refiro-me ao momento em que algo de muito grave acontece a Rentarou Satomi, mas do qual este recupera como se nada fosse. O pior é que esta situação com o protagonista não é uma mera excepção, pois já na segunda metade de Black Bullet somos presenteados com cenas idênticas.

Num outro plano negativo encontra-se a relação entre personagens. No caso das várias duplas de Initiators e Promoters, todas elas parecem ser meramente profissionais, à excepção do caso de Rentarou e Enju. O grande problema é que não existe conteúdo com qualidade sentimental capaz de provar esta união entre os dois, que só recentemente se cruzaram as suas vidas. Especialmente o facto de Enju (uma criança) se estar sempre a atirar a Rentarou (pré adulto). No caso das restantes duplas, quando vamos a conhecer melhor as suas partes integrantes, nas suas palavras identificamos alguma emoção que, mais uma vez, parece surgir do nada.

Ora, a ausência de provas para os comportamentos anteriores até poderiam ser parcialmente justificadas com a falta de tempo da trama. Saliento que Black Bullet tem apenas 13 episódios. Porém, há coisas que são más de mais para se tornarem plausíveis com justificação. Nomeadamente, como é que algumas personagens se tentam matar e, passados uns minutos, já são as melhores amigas? Faz todo o sentido … só que não!

 

Black Bullet - Initiators & Promoters

 

De volta ao enredo, ao contrário da naturalidade e desenvoltura presente nos primeiros minutos da trama, à medida que a história progride tudo se torna cada vez mais forçado. Não sei pormenores sobre o novel “Black Bullet” que originou esta adaptação televisiva. Uma obra que, surpreendentemente, descobri estar à venda em algumas lojas em Portugal. Seja como for, no caso do anime, fica a ideia que se sabia muito bem como começar, mas que não se fazia a mais pequena ideia sobre como se dar continuidade e, posteriormente, uma conclusão à série.

Um dos aspetos onde é notório que os responsáveis de Black Bullet andaram completamente à deriva, para lá dos já referidos, diz respeito à apresentação de pequenos assuntos com potencial de desenvolvimento que acabaram por “cair em saco roto”. Segue-se um pequeno SPOILER, para poder apresentar um exemplo concreto.

A certa altura, o espectador tem acesso à percentagem da contaminação do vírus “Gastrea” no corpo de Enju Aihara. Uma cena acompanhada por algum suspense, que deixa claramente a ideia da contaminação vir a atingir um valor perigoso mais à frente. Bem, não só nunca mais acontece nada como não surge mais nenhuma referência em relação a este assunto.

 

O problema dos protagonistas … e dos antagonistas!

A existência de um protagonista capaz de cativar o espectador é um ponto importante para qualquer obra atingir o sucesso. Todavia, também existem vários casos em que as personagens principais não são propriamente interessantes, mas cujas produções conseguem viver bem sem isso. Seja por essa lacuna ser colmatada pelos antagonistas existentes, ou porque têm outras personagens também capazes de assumir um papel de destaque na história.

No caso de Black Bullet, os protagonistas não conseguem marcar a diferença e, como será fácil perceber, ter um vírus como principal inimigo não será propriamente atrativo numa história. A produção necessitava claramente de um vilão que não o “Gastrea”, e tenta mesmo fazer essa compensação através de Kagetane Hiruko. Da minha perspetiva, até seria uma boa aposta. Contudo, a fragilidade desta história e as suas incoerências acabam também por condicionar o potencial desta personagem.

 

Black Bullet - Kagetane Hiruko

 

Produção Visual & Banda Sonora

Quer na arte do desenho, quer na coloração, Black Bullet não se sobressai. A série apresenta competências que encaixam no nível do mais tradicional e satisfatório. Dependo da exigência de cada um, isto pode ser encarado como bom ou mau. Olhando aos vários problemas que a série apresenta em termos de enredo, eu diria que será positivo.

O mesmo posso dizer da banda sonora, já que esta passa muito despercebida. Assim como dos openings e endings que preenchem a série, tanto a nível visual como sonoro. Não fiquei fã de nenhum, mas também sem qualquer tipo de desagrado.

Por seu lado, a animação vai um pouco mais além no patamar da qualidade. A meu ver, este será o melhor aspeto de toda a produção. Em alguns momentos de ação (os mais exigentes nesta matéria), este parâmetro consegue mesmo tornar-se bastante agradável para o espectador. Tendo em conta a diversidade de poderes e criaturas presentes, não é uma tarefa fácil!

 

Black Bullet - Aldebaran Gastrea

 

Black Bullet – Juízo Final

Caríssimos leitores, certamente percebem que é difícil criticar sem dar exemplos muito específicos. Apesar da dificuldade, optei por construir o artigo sem as mais importantes revelações, de forma a evitar altos spoilers. Acreditem que esta crítica ficaria bem mais agressiva, não me tivesse eu contido por tais razões.

Black Bullet encaixa nas categorias de ação, mistério e sci-fi, tendo sido por estes motivos que dei uma oportunidade à série. A verdade é que o argumento desta produção foi incapaz de juntar estes ingredientes e construir uma história com o mínimo de qualidade.

Como se não bastasse a desilusão anterior, a trama inclui ainda uma componente harem. Um género que me passou ao lado, na altura em que decidi ver a série, por não estar referenciado. Como todos os géneros, também o “harem” será uma questão de gosto. No caso específico de Black Bullet, não percebo a piada ou interesse em ver um grupo de crianças estarem constantemente a fazerem-se a um rapaz quase adulto. Tudo bem que nesta história a espécie humana está em risco, mas calma lá!

Resumindo, com um enredo repleto de lacunas, um sentido de comédia (harem) despropositado, e um conjunto de personagens ocas, não há qualquer tipo de trabalho que possa salvar Black Bullet de uma pontuação negativa. Nem mesmo uma componente visual e sonora de excelência, o que também não se verifica.

Cada um é livre de espreitar esta produção. Eu cá não a recomendo a ninguém que valorize o seu tempo.

 

Black Bullet – Trailer

 

 

 

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