Como será Trabalhar na Indústria Anime? – Entrevista Thomas Romain

por João Simões
Como será Trabalhar na Indústria Anime? - Entrevista Thomas Romain

Sonhas um dia poder fazer parte da indústria anime, no Japão? Como achas que será trabalhar lá? Descobre nesta incrível entrevista!

Thomas Romain, nasceu em França, tem 39 anos e mudou-se para Tóquio em 2003, onde trabalhou como co-realizador e diretor de arte numa co-produção Francesa/Japonesa, intitulada por Oban Star-racers.

 

Este título foi originalmente criado por um amigo, Savin Yeatman-Eiffel. Passamos alguns anos a desenvolver o projeto em Paris, no apartamento dele, sem dinheiro. O sonho era transformar esta ideia dele numa animação épica, mas na altura foi impossível concretizar isto em França. E foi aí que decidimos fazer as malas e tentar atingir esse sonho no Japão.

 

Savin conseguiu assegurar ajuda monetária a partir de parceiros europeus, e seguiram para o Japão onde conseguiram ajuda de um estúdio. Depois deste projeto terminar, Romain decidiu ficar em terras nipónicas.

Eu adoro desenhar, adoro animação 2D, e este é o melhor país para aprender e trabalhar neste ramo. Aqui existem incontáveis animadores incríveis, realizadores, estúdios, que se encontram a produzir conteúdo interessante. Queria fazer parte deste mundo a todo o custo.

 

Algum tempo depois foi contratado pelo estúdio Satelight, onde começou por desenhar os cenários de Engage Planet Kiss Dum.

Esta produção foi um caos, foi um dos piores projetos nos quais trabalhei. Mas os designs eram mesmo porreiros, e toda a equipa tinha muito talento. A gestão de tudo é que era horrível. Demos de caras com problemas inacreditáveis. Como primeira experiência num anime 100% japonês não fiquei desapontado. Aprendi imenso sobre o quão má a gestão de uma produção pode ser. Grandes memórias!

 

Depois disso Romain criou o conceito de Basquash!, onde trabalhou como diretor de arte, designer mecânico, e ainda fez key animation (animação dos frames principais). Fez também a direção de arte para Senki Zessho Symphogear, desenhou as naves espaciais de Space Dandy, e trabalhou como supervisor em Cannon Busters. No seu tempo livre tem alguns projetos com os seus filhos, cujas ilustrações ficaram bastante conhecidas na Internet.

 

 

Como será Trabalhar na Indústria Anime? – Entrevista Thomas Romain

 

Todos estes anos de experiência fazem de Romain uma das melhores pessoas do mundo para se questionar como é trabalhar na indústria anime. O site Kotaku conseguiu entrar em contacto com ele e fez-lhe a interessante entrevista que se segue:

 

Qual é o teu conselho para as pessoas que pretendem trabalhar na indústria de anime?

O primeiro conselho que normalmente dou às pessoas é: aprendam japonês. Infelizmente encontrar elementos na equipa que entendam inglês é extremamente raro. Vocês não serão contratados se não conseguirem comunicar com eles, então se quiserem ir viver para o Japão, TÊM que fazer o esforço de aprender a língua.

O segundo conselho é: comecem o mais cedo possível. Os estúdios japoneses preferem contratar jovens inexperientes. Vocês não precisam de ter um mestrado em animação; um par de anos de treino em animação é suficiente para começar num estúdio como animadores júnior. Porém, o salário será mesmo muito baixo. Devem levar este período como um estágio longo no qual vão poder aprender com os vossos senpai enquanto têm a oportunidade de trabalhar em produções sazonais.

É bom ter consciência que não é necessário saber desenhar para poder trabalhar nesta indústria. Vocês podem trabalhar como assistentes de produção, editores, ou até na composição musical. Nenhum destes trabalhos requer que saibam desenhar, mesmo que queiram ser realizadores. Muitos realizadores começaram como assistentes de produção e nunca frequentaram a escola de artes.

O terceiro conselho é: não venham de bolsos vazios. Vocês não vão ganhar o suficiente para sobreviver, pelo menos enquanto não forem bons o suficiente. E isto pode levar alguns anos.

 

Como é que se candidatam a entrevistas para trabalhos?

Basicamente consiste em ir beber para um izakaya com um dos patrões, e dar-lhe entretenimento a dizer coisas parvas num japonês muito mau. Passado duas semanas já tinha trabalho. Estou a brincar. Consegui ganhar muito respeito da equipa japonesa durante os dois anos e meio de produção de Oban Star-racers, através de trabalho árduo, a fazer centenas de horas não remuneradas. Eu até no dia do meu casamento trabalhei, o que foi bem estúpido agora que penso nisso, mas na altura fez todo o sentido. Isto é o Japão, têm que se misturar neste ambiente para que consigam sobreviver. A partir do momento que demonstrarem que trabalham muito e têm talento, nunca mais se terão que preocupar em tentar encontrar trabalho como animadores no Japão.

 

 

O que mais te surpreendeu sobre a produção de anime no Japão?

Eu fiquei muito surpreendido com a modéstia que existe em todas as pessoas que fazem parte da equipa, e também com as condições de vida medíocres que eles têm, quando comparadas com as da indústria de animação no ocidente. Em síntese, o lucro de uma produção não flui como deveria para os animadores. A maior parte passa o tempo sentada em frente a uma mesa, são solteiros, não têm tempo nem dinheiro para construir uma família. Alguns deles são extremamente tímidos, alguns têm dificuldade em dizer apenas ‘olá’. É muito estranho no início.

Mas as pessoas são muito amigáveis, e ficam intrigadas quando têm estrangeiros com eles a levar um modo de vida semelhante ao deles. A maior parte deles não entende porque razão nós queremos trabalhar nesta indústria, porque eles têm consciência o quão difícil é este trabalho, e o quão baixo é o pagamento. Para nós trabalhar nesta indústria é algo exótico, para eles é ‘mais um dia no escritório’. Acho que não é possível eles entenderem a razão de queremos trabalhar nesta indústria, a não ser que eles fiquem um tempo a viver fora do Japão para ganhar uma nova perspectiva, o que, como já disse, é extremamente complicado.

Fiquei também muito surpreendido em me aperceber que nem todos os animadores japoneses são génios. Porque houve um tempo em que só as obras de arte da Ghibli ou títulos como Cowboy Bebop chegavam a França, antes de eu ir para o Japão, então pensei que todos os japoneses tinham esta capacidade de desenharem como Deuses. Estava errado. Existem Deuses da Animação como Toshiyuki Inoue, mas também existem muitos animadores de baixo nível que só conseguem sobreviver na indústria porque existe uma enorme quantidade de produções por temporada, então os estúdios estão sempre desesperados à procura de mão de obra.

O bom disto é que se não fores muito mau e tiveres um boa ética de trabalho, nunca estarás desempregado.

 

Como tem sido a tua experiência?

A minha experiência não tem sido nada má, caso contrário já teria voltado para França. Depois de ter sido empregado no estúdio francês que estava a produzir Oban Star-racers, o estúdio japonês Satelight empregou-me como diretor de arte. Neste nível deixa de ser um problema e já se consegue viver relativamente bem neste trabalho. Têm é que conseguir gerir muito bem a quantidade enorme de trabalho, serem eficientes, e saber quando abandonar o perfecionismo.

A nível artístico estou muito satisfeito. Tive a oportunidade de trabalhar em títulos bem recebidos pelo público e pela crítica, e ainda que eu não tenha sido fã de todos os títulos nos quais trabalhei, gostei sempre do design. Melhorei muito ao longo destes anos. Sinto-me pronto para dar o melhor possível nos próximos projetos.

 

 

Qual é a parte de trabalhar nesta indústria que consideras ser a mais difícil?

A grande quantidade de trabalho que existe para fazer no menor período de tempo possível, sem dúvida. Fiquei surpreendido com o quão pequenas conseguem ser as calendarizações de produção e quão pequenas são as equipas devido à escassez de artistas. Os estúdios estão abertos 24/7, e na maior parte das vezes as pessoas estão a trabalhar nos feriados. Recebemos mails durante a noite. É completamente normal haver reuniões durante a noite, ou nos fins de semana. Vocês têm mesmo que estar preparados para trabalhar duro, prontos para atingir o nível do vosso colega japonês, caso contrário nem eles vos vão aceitar como parte da equipa.

E fiquei também surpreendido com a quantidade de milagres que acontecem durante a produção. Os japoneses têm a habilidade de concluir tarefas impossíveis em pouco tempo quando se encontram sem opções. Seria muito fácil rejeitar estas condições, mas toda gente compactua. É assim como tudo funciona, sempre. Nada vai de acordo com o plano inicial. Só quando chega aquele momento em que a equipa fica sem tempo, quando todos pensam que não será possível concretizar o projeto, que a equipa acelera todo o processo. As pessoas trabalham todo o dia, toda a noite, sem desperdiçar um único minuto até ao último segundo. Quando estão a ver a estreia de um filme ou de uma série na televisão, em muitos dos casos esse episódio foi terminado há poucos dias atrás, ou até umas horas antes. Às vezes nem é terminado, e depois os desenhos são polidos para as versões finais de DVD/Blu-ray.

 

Já ouviu falar de histórias menos boas dentro da indústria?

Não só ouvi falar delas, como as vi com os meus próprios olhos. Basicamente todas as pessoas trabalham demasiado. O problema é que na perspetiva tradicional da sociedade japonesa as pessoas têm uma tendência muito grande em dizer ‘sim’ quando lhes é pedido para trabalhar sobre condições impossíveis. Pelo bem do estúdio, pelo bem de todas as pessoas que fazem parte da equipa, as pessoas estão dispostas a fazer o impossível, mesmo que isso signifique passar vários dias seguidos no estúdio a trabalhar 35 horas sem parar. Eu cheguei a conhecer uma animadora que não tinha casa, ia só uma vez por ano ver os pais, vivia no estúdio, usava os banhos públicos para higiene e os manga cafes para descansar de vez em quando. Um casal, ele era realizador e ela designer de personagens, estavam a acampar no canto do estúdio, com sacos-cama, enquanto a produção não fosse terminada. Além disto, muitos deles nem tiram uns dias se ficarem doentes, porque não querem gastar o pouco que ganham em tratamentos.

A expectativa de vida nesta indústria não é muito alta. Já vi pessoas morrerem por trabalharem demasiado. Um colega meu faleceu há 10 anos atrás depois de um ataque cardíaco enquanto estava a trabalhar em mais que um estúdio ao mesmo tempo. Um outro colega meu mal recuperou de um ataque semelhante também. Recentemente ouvi que morreu um animador que estava a trabalhar num título bem famoso, mas toda gente fez disto segredo, provavelmente para não danificar a imagem do estúdio em questão.

Dito isto, as pessoas são extremamente amigáveis umas com as outras, porque todas estas adversidades criam um grande nível de empatia, toda gente sabe o que os outros estão a passar. É um destino partilhado, as pessoas sofrem enquanto trabalham nesta indústria, mas pelo menos estão a trabalhar em algo que amam. As reuniões são muito divertidas. Rimo-nos bastante e adoramos criar anime.

 

 

Qual é a parte mais fácil de fazer anime no Japão?

É estar rodeado de gente talentosa, de animadores e realizadores extremamente dedicados, é muito motivador. Nunca me sinto sozinho no estúdio. Estou a escrever esta resposta às 12.30 da noite e estou rodeado de pessoas a trabalharem.

 

Quais são as características daqueles que encontram sucesso nesta indústria?

Bem, a primeira característica que têm de ter é dedicação, ou melhor, perseverança. Não podem chegar a pensar que vão logo ter sucesso. Leva meses, anos… Ganhar a confiança da equipa japonesa é a chave. Uma das características mais importantes que podem ter, do ponto de vista de um gestor, é respeito pela calendarização. Se conseguirem concluir as vossas tarefas a tempo, com um certo nível de qualidade, conseguirão subir rapidamente.

A segunda característica é a habilidade de se diluírem na equipa de produção, isto de um ponto de vista Japonês. Entendam o conceito de tatemae e de honne, aprendam como falar com os vossos colegas na linguagem correta. Decifrar as etiquetas e hábitos culturais é muito importante se querem ser aceites e premiados com trabalhos interessantes. Isto é algo que não é possível aprender em livros. Têm que estar presentes e muito atentos a tudo o que vos rodeia.

Usem as vossas diferenças culturais como uma vantagem. Se o realizador ou o produtor estão à procura de uma perspetiva original, ou se estão a tentar entender os aspetos culturais de uma narrativa que não se desenvolve no Japão, vocês podem ser a pessoa mais indicada para esse trabalho. Tentem entender onde estão as vossas forças. Não tentem competir com os japoneses ao imitar o estilo deles, ou vão ficar sempre para trás. Mas ao mesmo tempo têm que conseguir preencher aquilo que vos é pedido. É um equilíbrio complicado de atingir: oferecer perspetiva original enquanto produzem trabalho formatado que facilita a produção.

 

 

Trabalhar no Japão alterou-o de alguma forma?

Como artista, trabalhar com animadores japoneses ajudou-me a crescer e a progredir. Eu aprendi métodos mais precisos para desenhar coisas, para não me focar apenas nas formas e aparências, mas pensar em como essas coisas vão encaixar no panorama geral. Aprendi a ter muita paciência, e esperar pela minha vez. Os japoneses vão oferecer oportunidades se se aperceberem que trabalhaste o suficiente para as mereceres. Atalhos não existem aqui. E de certa forma isso é reconfortante. Esta indústria está construída sob as bases de confiança e experiência. Não importa onde trabalhem, tenham certezas que estão num ambiente estimulante onde têm respeito pelas pessoas que se encontram acima de vocês, e que sabem que podem aprender imenso com elas.

 

Tem algum conselho para melhorar enquanto artista?

Bem, depende da definição de artista que escolher. Se artista significa indivíduo criativo que segue um caminho para encontrar o seu estilo próprio, a sua expressão, e que pretende influenciar as pessoas que o rodeiam, então não tenho grande conselho para essas pessoas. Deduzo que visão, perseverança e comunicação sejam elementos chave.

Mas se artista for um profissional que trabalha na indústria criativa que consegue viver da sua ‘arte’, então sim aí já tenho alguns conselhos que posso dar.

Recomendo que construam fortes habilidade académicas em vez de desenvolverem um estilo particular. Assim terão a capacidade de se adaptarem a qualquer necessidade que a produção precise, bem como a vários estilos, ao longo da vossa carreira.

Sejam ambiciosos mas sejam pacientes. Há sempre alguém com mais experiência, com mais talento, que merece acesso a posições superiores. Respeitem essas pessoas, aprendam com elas, e esperem pela vossa vez, porque eventualmente ela chegará. Estejam prontos a qualquer momento. Não se apressem. Isto não é um desporto competitivo, se tudo correr bem com 50/60 anos ainda serão profissionais ativos. Esta foi uma das grandes lições que aprendi no Japão.

Façam muitos amigos na indústria, irão aprender, provavelmente, tanto com eles como com os vossos superiores. Partilhem os vossos sucessos mas também os insucessos, cresçam com eles, desenvolvam espírito de equipa. Eles irão ajudar-vos quando precisarem, e de certeza que vão precisar.

Partilhem as vossas técnicas e experiências com os artistas mais novos. Ajuda ao crescimento deles, e com isso irão ganhar o respeito deles. Toda gente beneficia com isto.

Recomendo também que desenvolvam fortes habilidades numa área em particular. Transformem-se em especialistas de uma determinada área, mas sem nunca descurar outras habilidades com níveis de especialização inferiores. É importante que continuem a experimentar coisas novas, que continuem a desafiarem-se a vocês mesmos.

 

 


Agradecimentos especiais a Brian Ashcraft por ter conduzido e disponibilizado a entrevista.


 

Fonte: Kotaku

 

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