Cowboy Bebop Análise – See you Space Cowboy…

por António Costa
Cowboy Bebop Análise

Cowboy Bebop Análise | Introdução

Admito que hoje estou um bocado perdido relativamente a como hei de começar esta análise. Não é que eu não tenha coisas a dizer sobre Cowboy Bebop, mas o problema com que me deparo vem de repetição e comparação. Já toda a gente falou de Cowboy Bebop. Já toda a gente analisou e olhou para os detalhes da série, as influências, o formato, as personagens, a história, os temas, etc. Realisticamente, o que é que eu tenho para dizer?

Bem, talvez meia dúzia de coisas, porque Bebop é uma animezinha interessante, não? É uma das poucas séries que foi mais popular internacionalmente do que no Japão, inclui muitos elementos que não seriam considerados convencionalmente “anime”, agarra influências de tudo quanto é sítio e tem personagens de etnias surpreendentemente diversas. Não fosse o facto de ser animado e de dita animação ter sido produzida no Japão, quase poderia ser um drama do Netflix ou do HBO. Aliás, apesar de ser considerado um bom ponto de começo para ver anime, eu diria que é má ideia mostrar isto a alguém que queira ver anime porque o clima de hoje é tão diferente e Bebop em si é tão diferente da maior parte da anime. É como tentar apresentar o conceito de magical girls a alguém mostrando-lhes Madoka Magica. Não é uma má série, mas se calhar cria umas expectativas distorcidas da realidade.

O objetivo desta análise não será necessariamente falar se a série é boa ou má (dado que praticamente toda a gente já sabe que é uma ótima anime) mas mais discutir os vários elementos que, da minha perspetiva, fizeram com que Cowboy Bebop deixasse uma impressão nas pessoas e na cultura popular em geral (não é á toa que o Ready Player One incluiu uma mini aparição da nave do Spike). Por isso, vamos a isto.

 

Cowboy Bebop Análise | A parte em que as coisas são analisadas

Cowboy Bebop conta a história de quatro caçadores de recompensas no ano 2071, que viajam pela galáxia a tentar apanhar criminosos para conseguirem pagar comida e, no geral, sobreviver. A equipa é composta pelo Spike Spiegel, o homem mais relaxado em anime; o Jet Black, que parece viver uma versão de ficção científica do Lei e Ordem; a Faye Valentine, que mostra o que é uma mulher num clima de garotas de anime; a Edward Wong Hau Pepelu Tivrusky IV (encurtado para Edward ou Ed), que é a coisa mais adorável debaixo do sol posto; e o Ein, o cão que é a outra coisa mais adorável debaixo do sol posto.

 

 

A anime é episódica, com poucas conexões entre cada episódio em favor de histórias soltas, mas vocês provavelmente já sabiam isso. Aliás, provavelmente já sabiam isto tudo e eu só expliquei as coisas como uma formalidade. Cowboy Bebop não requer introdução, mas acho que requer uma espécie de justificação porque, se olharmos bem para a série, a maior parte dos episódios é inútil. A “história” dura cinco episódios, e quatro desses são episódios de duas partes, por isso estamos tecnicamente a falar de três episódios. Daí a questão: se a maior parte de Bebop é “filler”, por falta de termo melhor, qual é o atrativo?

Uma das grandes diferenças entre anime e as séries por estas partes, é que anime muitas vezes foca-se em atmosfera sobre história. As grandes séries populares (Game of Thrones, Breaking Bad, The Sopranos, etc.) normalmente têm o foco exclusivamente apontado em história e em contar a história de forma perfeita, acima de tudo o resto, mas anime gosta de se desviar um bocado disto. Não é à toa que existe um género chamado Slice of Life, e muitas vezes vemos o enredo a ir para o fundo a favor de um momento de relaxamento em que sentimos o ambiente e o mundo onde a história se passa. Aliás, para uma anime muitas vezes chamada “a melhor anime de sempre”, eu consigo compreender que alguém que a veja pela primeira vez pode ficar totalmente confuso porque a maior parte das histórias individuais não são especialmente interessantes. Não são más histórias, mas são pouco impressionantes, ideias engraçadas mas que já vimos noutros lados. O que torna estes episódios notáveis é a execução. Já vimos aquele género de histórias de “homem condenado pela vida de crime que segue e arrasta toda a gente que ama com ele” mas fazer esse estilo de histórias no ambiente de Cowboy Bebop, com a música a tomar conta de tudo e utilizar como base estética o filme Desperado, torna o episódio “Asteroid Blues” bem mais interessante do que só a premissa indicaria.

 

 

A atmosfera é rainha em Bebop e a série está repleta de momentos em que basta recostar-nos e deixar a música e a animação cair-nos em cima. Aliás quase todas as cenas essenciais desta série têm a música à frente de diálogo ou efeitos sonoros e ainda assim temos uma boa caracterização de personagens e momentos. Por exemplo, no episódio Heavy Metal Queen, ficamos com uma boa ideia da personalidade da VT só ouvindo a música que ela ouve no camião dela.

Para além do ambiente, os outros dois componentes essenciais de Cowboy Bebop são as personagens e o tema, que são praticamente gémeos siameses. Indo diretamente ao assunto, o tema geral de Bebop é sobre a forma como as pessoas lidam com o passado, e cada um dos personagens principais tem uma forma diferente de lidar com as coisas. O Spike escolhe fugir do seu passado, o Jet torna-se um monumento idealizado do seu passado, a Faye procura o passado dela e a Edward não se preocupa minimamente com o passado dela; e a conclusão a que todos chegam, tirando a Edward, é que viver dessa forma simplesmente não é sustentável. A razão pela qual a Edward é a única a ter um “final feliz”, por assim dizer, é que a fixação dela está completamente no presente e ela vive sempre despreocupadamente enquanto todos os outros sofrem por estarem sempre a pensar no passado.

 

Wow. Isto é tipo o máximo da tristeza.

 

O Spike acaba por perceber que ninguém pode fugir para sempre; o Jet descobre que agarrar-se aos “bons velhos tempos” é sempre má ideia porque esperar que tu ou as pessoas à tua volta estejam constantemente num nível de perfeição idealizado é ridículo; e nada do que a Faye encontra sobre o seu passado lhe clarifica o que quer que seja sobre o presente; e talvez a parte mais deprimente disto tudo é que nenhum deles aprende nada de concreto ou evoluiu. Ao longo da série chegam todos inevitavelmente à conclusão de que têm que caminhar para a frente… mas nenhum dos três faz essa escolha.

A ideia das personagens principais terem um passado que querem esconder não é nova em anime e certamente não é nova em ficção, mas juntamente com o ambiente que é pesadamente influenciado pela cultura americana e com o pessimismo final de que ninguém consegue avançar desse passado torna a série familiar mas ao mesmo tempo fresca.

Nenhum destes elementos significaria o que quer que seja se o pacote que os contém não prestasse, e o pacote de Cowboy Bebop é impressionante. Bebop foi uma das últimas animes a ser feita com as antigas células de animação, numa altura em que já tinham muitas tácticas para tornar a animação melhor por isso esta série tem um ar incrível. O movimento é fluído, a animação é detalhada e os designs das personagens caminham aquele fio da navalha entre terem um estilo que é notavelmente anime mas com proporções e movimentos realistas (por exemplo, o Ein mexe-se mesmo como um cão). Mas a questão estética mais importante de Bebop tem a ver com as suas influências porque é uma das animes que exibe as suas influências americanas mais diretamente. Muitos dos episódios (e por muitos quero dizer praticamente todos) referenciam ou são construídos à volta de referências a elementos da cultura popular americana, desde o criminoso no episódio “Stray Dog Strut” ser uma homenagem ao Kareem Abdul Jabaar no filme Game of Death, ao episódio “Toys in the Attic” ser basicamente um remake do Alien.

 

They mostly come at night… Mostly.

 

A cereja no topo do bolo que completa este pacote americano é a banda sonora, que é principalmente constituída de Jazz, um dos únicos estilos musicais que é totalmente americano em origem, e que cria o ambiente. A imagem do Jet a cozinhar e do Spike a treinar artes marciais, só funciona tão bem como funciona por ser acompanhada com uma guitarra a tocar uma melodia relaxante e descontraída. Bebop é 90% música e não é a toa que a maior parte dos seus momentos mais famosos funcionam à volta dela. No outro lado da questão auditiva, temos a atuação e digo desde já que a versão japonesa é perfeitamente boa e se querem seguir por aí estejam à vontade, no problemo… Ok, agora que as pessoas sem gosto já saíram é obrigatório verem a dobragem em inglês. Para além de um elenco principal cinco estrelas em que só faltava mesmo era o Crispin Freeman e a Brina Palencia, todas as personagens secundárias, incluindo as que só aparecem uma vez, têm performances perfeitas. Não há uma única voz mal colocada nesta série. Se nunca virem outra dobragem em inglês na vossa vida, vejam esta.

 

 

Cowboy Bebop não é uma história, é o epílogo de três outras histórias. É inevitável, triste mas satisfatório como uma boa música de blues ou quando uma ex namorada que te partiu o coração morre. As personagens têm dimensões, a série toda tem um aspeto fantástico, a banda sonora e a dobragem são das melhores em toda a anime e eu nem cheguei bem a falar sobre o mundo de ficção científica em que acontece tudo e que é ao mesmo tempo essencial para perceber o que se passa e um bocado inútil. Eu dizia-vos para irem ver mas provavelmente já o fizeram.

 

 

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