Darling in the FranXX – Análise

por Tiago Garcia

Mecha é um género que sempre se incidiu nas tribulações da adolescência e maturação. A partir da altura da viragem de século, o tema do sexo cada vez mais tomou primeiro plano. Tematicamente, tem-se observado um sonho coletivo de analisar a fundo a forma como o jovem lida com a sexualidade nos dias de hoje.

Sempre foi um possível subtexto que estava subjacente à fantasia do robô gigante. Embora não tão obviamente fálica como a arma tradicional, mas não tão menos relevante pela semiótica de poder. Sendo assim, o género é tanto assombrado como guiado por duas obras importantes para esta temática. As duas grandes opus da Studio Gainax: Neon Genesis Evangelion e Tenggen Toppa Gurren Laggan.

Neste último não parece ser tão imediatamente evidente, mas a seu ênfase nas qualidades positivas do bravado e coragem masculina, sempre omnipresente no sub-género de Giant Robot que este anime homenageia, naturalmente informam uma temática sexual dado a dinâmica que o protagonista, o Simon, tem com o mundo à sua volta, a forma como idolatra o destemido Kamina e os seus sentimentos nascentes perante as mulheres que conhece no decorrer da sua epopeia. Mas é em Evangelion que sexualidade toma primeiro plano.

 

Darling in the FranXX - Análise

 

Através do protagonista, Shinji Ikari, vemos a profunda turbulência que o acordar sexual tem na vida de um adolescente. Turbulência esta que se torna tóxica e malévola quando a frustração sexual é alimentada por negligência e trauma. O sexo sempre está presente nas relações que Shinji tem com mulheres, esperado de um jovem tímido e reprimido. Para além dele, todo o restante do elenco vê as suas vidas dominadas pelo sexo. É um elemento que pesa nas suas relações e que desnuda a forma como nos relacionamos com os outros. Este acaba por ser um complemento fulcral ao motif do headhog’s dilemma que permeia a restante obra.

Entretanto, parece que muitas das mentes que marcaram mecha com esta obra retornaram para o objeto de análise deste artigo por via da Studio TriggerDarling in the FranXX estreou na Temporada de Inverno de 2018. Tem como realizador Atsushi Nishigori e guionistas Atsushi Nishigori, Naotaka Hayashi, Masahiko Ōtsuka, Rino Yamazaki e Hiroshi Seko. A música é feita por Asami Tachibana e a animação através da colaboração entre a Trigger Studios e a CloverWorks. Está disponível para streaming legal na plataforma Crunchyroll.

 

Darling in the FranXX – História

Num futuro pós-apocalíptico a humanidade vê-se cercada em cúpulas titânicas móveis que albergam as últimas cidades. Estas várias cidades organizam-se politicamente debaixo de uma hierarquia político-religiosa de nome APE. O seu clero e concílio é caracterizado por vestes brancas e faces ocultas. Estas percorrem as ruínas esquecidas e planícies intermináveis em busca de magma que serve de principal fonte de energia. Porém, esta necessidade é constantemente assolada de monstros de dimensões variadas, colectivamente batizados de klaxosaurs. De forma a assegurar esta fonte de energia e a segurança das cidades, cada uma delas mantém em serviço equipas de robôs gigantes que são genericamente designadas de FranXXs. São assim batizadas em honra do cientista, o doutor Werner Frank, que as inventou e desenvolveu.

 

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A história segue um piloto prodígio, de nome-código 016, que se auto-batizou de Hiro. O anime inicia com o seu desterro após ser revelado que é incapaz de pilotar FranXXs com a sua parceira. O sistema que permite o controlo destes robôs apenas pode ser operado através de jovens no início de maturação sexual. Como tal, sincronização entre pilotos é fortemente remanescente do ato sexual. Por sua vez, a rapariga mais diretamente funde com o robô enquanto que o rapaz serve de piloto.

Inesperadamente, enquanto se perde em meditação numa floresta artificial, conhece uma misteriosa rapariga. De código 002, é uma co-pilota lendária de FranXX, inigualável pela sua ferocidade e poder. O seu mistério e intriga é acentuado pela sua personalidade e chifres vermelhos na cabeça. O encontro é interrompido quando é obrigada a voltar à sua base, dado que apenas está de passagem.

Na altura que Hiro é enviado para o exílio, a sua cidade é atacada por um gigantesco klaxosaur. Em resposta, é enviada a FranXX Strelitzia para remediar a situação. Porém, esta máquina vê-se incapaz de operar à sua máxima capacidade e é derrubada. Por acaso, Hiro é capaz de chegar a Strelitzia e vê que 02 estava a pilotar sozinha. Surpreendentemente, o seu co-piloto morreu a meio da missão.

 

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02 convida Hiro para ser seu piloto, algo que ele aceita de grande gosto. Em celebração, ela carinhosamente passa a chamá-lo de darling. O par que formam é capaz de acordar o potencial de Strelitzia e descobrem que fazem um casal de extraordinária perícia. Porém, dado a natureza singular de 02, uma pessoa é apenas capaz de pilotar com ela 3 vezes antes que morra.

Eles os dois e Strelitzia formam a mais recente adição a Squad 13. Uma experiência realizada pessoalmente pelo Dr. Frank, engloba um grupo eclético de adolescentes de personalidades díspares. Todos os membros, amigos de infância de Hiro, foram batizados por ele pois carecem de nome próprio. Em conjunto irão partilhar numa viagem conjunta de auto-descoberta. Deste modo, também verão as ameaças à sua base e a opressão da sua sociedade tornarem-se cada vez pesadas.

 

Darling in the FranXX - Análise

 

Este anime fez ondas na comunidade e a primeira indicação para tal  torna-se evidente com o segundo parágrafo desta sinopse. Como já tem sido extensivamente divulgado, esta trata-se de uma obra que se apresenta como mais explícita na temática sexual que procura explorar. O meio pela qual os robôs gigantes são pilotados, já para não falar de toda a linguagem visual associada a estes, destaca-se inconfundivelmente, para mal ou pior. Escusado será dizer, foi um programa que fez parte das listas da maioria na sua temporada de sua estreia. Foi nessa veia que me vi impedido e paralisado de analisar esta obra.

Um programa que tem ganho este tipo de perfil foi sendo intimamente acompanhado de episódio a episódio. Algo que, infelizmente para mim, não acontece tanto nos dias de hoje para o género mecha. Por isso, estar a dizer que se trata de um anime celestial até meio caminho com uma queda de qualidade catastrófica a partir daí é mais que sabido. Já para não falar do sem número de memes e piadas a propósito de semelhanças com Evangelion, como se fosse um qualquer pecado imperdoável. Porém, tendo estado presente para as críticas recorrentes a RahXephon, não seria de admirar. Qualquer mecha que procure ter um foco íntimo com conotações de depressão e introspeção é imediatamente comparado a Evangelion. Enfim, é algo de exasperante além de que reducionista e desinteressante como ponto de discussão.

 

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O desafio sempre incidiu em tentar encontrar algo da qual possa falar que não se tem discutido tanto e que valha a pena explorar. Como tal, meditei extensivamente acerca do que é que o programa estava a fazer de tão interessante que me capturou a atenção ao início. Inesperadamente, retornei para a temática do sexo. Daquilo que achava que o anime estava a tentar dizer, comentar e explorar que acabou por falhar redondamente. Mais do que isso, serve talvez de um bom exemplo-tipo para algumas das atitudes e problemas endémicos a anime que valem a pena criticar. Nessa vertente, serve de bom ponto de partida não só um dos maiores destaques da obra como também um dos seus maiores falhanços.

Discutiremos, então, a caracterização e papel de uma das maiores competidores para o trono de rainha de anime, a 02. O que torna esta personagem tão cativante e hipnotizante? Qual é o seu carisma mágico que leva até alguém no domínio do mainstream a prestar atenção e emulá-la (além de estar casada com um mestre weeb)? Naturalmente, trata-se não só da sua personalidade e design como também a sinergia que este tem com o programa no qual se insere.

Anime, como meio, existe num limbo confuso entre a castidade e a luxúria. Ao mesmo tempo que exalta como ideais amorosos jovens virginais inocentes cuja ligação vitalícia com o protagonista eleva a relação destes como algo destinado, existe um sem número de mulheres com copas H a saltitar por todo o lado porque temos que ser relembrados de 5 a 5 segundos que se trata de um meio de consumo, predominantemente, masculino adolescente. A meu ver, o que torna 02 extraordinária é o que torna o elenco feminino de Highschool DXD cativante: a natureza explicitamente carnal do desejo das mulheres. A certa altura do campeonato, o indivíduo irá sempre gravitar mais para a luxúria do que simples amor. Uma observação triste, mas imagino que Holofernes é capaz de concordar.

 

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Nesse aspeto, acredito que 02 eleva-se acima de suas congéneres e contemporâneas. Além de ter um visual apaixonante e uma atitude carismática, a execução que a põe à parte. Uma observação preguiçosa a compararia como uma reincarnação de Vénus ou Afrodite, tal seria lastimavelmente insuficiente. Uma melhor comparação seria com a deusa felina egípcia Bast/Sekhmet. Isto diz tudo acerca do que faz esta personagem tão extraordinária.

Encapsula simultaneamente curiosidade e desejo sexual brincalhão com uma fúria e espírito implacável que não só impõe respeito como intimida quem não reconhece o seu poder. Sendo assim, vemos que, no que diz respeito à dinâmica que tem com o seu par, a 02 revela-se não só dominante como também sexualmente aventurosa e destemida no contexto do anime no qual se insere.

Mais do que isso, a atitude que o mundo à sua volta tem, de a tentar controlar, reprimir e dominar, informa uma temática de repressão sexual da mulher. Tal é ainda mais exacerbado com a apresentação clerical de APE, uma conotação do medo que a religião, nomeadamente católica, tem da independência sexual da mulher. Acaba por também por ser uma espécie de meta-comentário à maneira que casais são apresentados em anime. Apesar se sempre haver uma personagem no harem cuja caracterização passa pela sexualidade mais óbvia, nunca é vista como primeira opção, mas sim a pura amiga de infância que toma precedência.

 

Darling in the FranXX - Análise

 

O culminar narrativo na qual Hiro professa o seu amor por 02 apesar da sua “monstruosidade”, diz imenso acerca da sua simbologia. Uma declaração triunfante de que anime não tem problemas com sexualidade feminina, reconhecendo-a e amando-a profundamente. Porém, este meu optimismo é cruelmente passageiro.

Eis que chegamos ao problema grave que me desmoralizou e quase me fez desistir de analisar esta obra. Por mais que postulasse acerca da maior simbologia e temática presente, tudo caiu por terra. Eu postulei que a natureza explicitamente sexual do pilotar das FranXXs apontasse para uma metáfora visual inteligente acerca do género como construção social. Mas o facto dos processos por detrás do funcionamento destas serem mal explicados ou arbitrários destrói isso.

Imaginei que o advento de outros pilotos semelhantes à 02, como métodos de pilotagem pouco ortodoxos, e o seu papel como forças de destruição imparáveis da humanidade, apontasse para o potencial oculto do ser humano em aceitar diversidade sexual. Mas ao tornarem-se vilões de segunda categoria e lacaios do clero, aniquilam essa suposição. O pecado mortal, e de maior interesse, é o que se segue à climática declaração de amor do episódio 15.

 

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Acima procurei destacar aquilo que torna a 02 a estrela do programa. Com alguma sorte, espero ter amplamente demonstrado que a sua atitude desafiante e destemida são fulcrais não só na sua caracterização, como também no seu apelo. Porém, a equipa por detrás deste anime discorda desta minha observação pois, a partir do 16º episódio, ela vira um interesse amoroso genérico, submissa ao seu par. Esta radical transformação exaspera-me! Como?! Como é que pode ser em qualquer circunstância boa ideia mudar uma personagem que toda a gente adora pela sua caracterização rebelde para uma que passa a ser calma e obediente?! Esta foi uma transição tão súbita e out of character que tive que rever o episódio mais duas vezes só para me certificar que não estava a perceber mal.

É algo que tão fundamentalmente vai contra o que o anime estabeleceu até aquela altura que só me inspira paranoia. Isto só alguma vez poderia fazer sentido se eu acreditasse na concepção bárbara de que uma mulher de espírito forte apenas está à espera de um homem para a “domar” de forma a tornar-se respeitável. Mesmo pondo de lado as preocupações sexistas, como é que uma mudança deste género pode ser aceite pelos seus fãs se está tão contra o seu estabelecimento e caracterização?! Então, para eu perceber, é tudo bom que uma mulher queira “intimidade” mas agora que é para viver juntos aguenta os cavalos e comporta-te?! Credo, isto é um valente momento Soylent Green que sinto quando penso neste assunto.

Por fim, só mesmo para me irritar, a sombra da amiga de infância também marca presença. Em associação a isto, está também a questão da forma como lida com as suas personagens LGBTQI. De forma a simplificar um bocado as coisas, vamos focar-nos nas duas mais proeminentes, o Mitsuru e a Ikuno. Esta última é o caso menos exasperante, pois a obra mantém-se consistente com a caracterização relativa à sua sexualidade. O que me preocupa mais é o potencial desperdiçado.

 

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No decorrer da história, vemos que vive muito à parte não só dos seus colegas como também da sua sociedade. Apesar de ser capaz de pilotar, vemos que ela se sente alienada do assunto. Isto faz imenso sentido dado que vive numa sociedade que impõe como tarefa de vida e morte uma copulação heterossexual.  A dinâmica feminina submissa também parece ser algo que lhe desagrada. Quando dada a oportunidade, prefere ocupar o posto no par que seria ocupado pelo rapaz. Em suma, esta pressão resulta na sua incapacidade de expressar os seus sentimentos devidamente à sua líder, a Ichigo.

Havia aqui uma excelente oportunidade para poder comentar acerca de como minorias sexuais são ocultas e suprimidas num sistema que impões valores heterossexuais draconianos. Porém, isso vai pela janela fora, pois, as FranXXs, a principal metáfora visual que simboliza essa sociedade, não foram criadas por inteiro pelo ser humano. A adição dos Nines, pares pilotos que são capazes de quebrar o molde de par masculino-feminino, torna a mensagem ainda mais confusa.

A meu ver, essa mensagem está lá por estar e pouco é feito com ela, pelo que apenas só consigo lamentar uma rica oportunidade perdida. Por outro lado, não consigo deixar de achar que a progressão de Mitsuro é nada menos que problemática. A começar pelo positivo. É revelado que o ódio que este sente pelo Hiro passa pelo esquecimento que este último teve de uma promessa que fizeram de criar um par-piloto.

 

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Isto precedeu uma operação ao qual Mitsuru se submeteu, altamente fatal, de melhorar a sua aptidão. Só através desta revelação temos duas ideias interessantíssimas. A primeira passa pelos processos científicos que reforçam, mesmo a custo de vidas, este paradigma heterossexual. Como comentário, é altamente apropriado num mundo partilhado com gente que ainda compreende a homossexualidade como opção de vida. Segundo e mais óbvio, temos aqui uma narrativa cativantemente trágica acerca do amor homossexual que Mitsuru tem por Hiro. Isto é excelente em mecha pois, apesar de todo o seu bravado em querer explorar a sexualidade, infelizmente tem-se recusado em expandir e explorar o precedente que foi estabelecido pela assombrosa melancolia romântica entre Shinji e Kawuro.

Porém, vemos que Mitsuru acaba por ter uma resolução romântica ao apaixonar-se por Kokoro. Uma nota à parte: aprecio a caracterização dela na medida que, ela própria, desafia as pessoas à sua volta também tendo apetite sexual. Porém, acaba por ser uma faca de dois gumes pois isto serve de veículo para eles os dois se apaixonarem e revelar que, afinal, Mitsuru é bissexual. Por si só, isto não tem qualquer tipo de problema, pois não deixa de ser mais uma personagem neste elenco que é LGBTQI.

 

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Contudo, quando contextualizado com o panorama generalizado de anime que tem uma falta grave de personagens masculinas homossexuais, acaba por ser uma alteração desapontante. Quando posto em cima dos restantes erros crassos descritos anteriormente e a cerimónia e foco que é dado a esta história, apenas transparece como uma elaborada declaração de “no homo”.

E claro, as anteriores críticas que fiz, no que diz respeito à forma como o mundo realmente se organiza, delineada na segunda parte do anime, destroem qualquer tipo de maior crítica à nossa sociedade e à forma como impõe e codifica normas sexuais. Para uma obra que tão pomposamente declara querer lidar com sexualidade para a nova era, cai nos mesmos erros e repete as mesmas ideias do passado.

A evolução de 02 parece refletir o medo masculino de que uma mulher sexualmente experiente, é uma louva-a-deus à espera de decapitar o seu par. A caracterização dos Nines demonstra a concepção de altero e maléfica que é associada a orientações sexuais ditas não-normativas. Por sua vez, a forma como progridem as histórias de Mitsuru e Ikuno exemplificam como anime tem dificuldade em criar boas histórias que envolvem as dificuldades e inclusão de membros da comunidade LGBTQI.

 

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Fora isso, não existe mais nada de interesse acerca da temática e narrativa. As forças desta ao início, residiam sempre na sua intriga imaculadamente construída, personagens cativantes e temática surpreendente. Porém, como pode ser visto em fontes melhor explicitadas do que eu tenho capacidade de explorar, qualquer tipo de mérito é, a meu ver, anulado na forma não só como a história decide concluir, tanto narrativamente como tematicamente, como também na forma como cultiva as sementes de intriga que foi plantando. Isto para não falar da frustrante segunda metade que, apesar de claramente ter sido feita para uma série de duração clássica à volta dos 50 episódios ou mais, foi comprimida de uma forma tão drástica que parece uma paródia dos clichés e marcos que definem não só anime mecha, mas a obra Gainax e Trigger.

 

Darling in the FranXX – Ambiente

O ambiente desta obra é muito obviamente reflexivo de ambos os principais estúdios que nela colaboraram. Tudo que tenha a ver com as personagens e o seu dia-a-dia é claramente marcado pela CloverWorks. Sendo uma subsidiária da A-1 Pictures, consigo ver semelhanças de estilo com a sua principal franquia, Sword Art Online. Por outro lado, assim que as FranXXs entram em cena, torna-se o reino da Trigger. O seu característico estilo cinético permeia as cenas de ação e animação mais complexas. Por sua vez, recebe um complemento inesperado. Através da perícia de Shigeto Koyama, a série é dotada de um design mecânico único. Expandindo numa anterior experiência que decorreu no anime Star Driver, chega-nos o exemplo mais proeminente de feminização de mecha.

 

Darling in the FranXX - Análise

 

Como foi explicitado no início do artigo, mecha tem fortes raízes no apelo à audiência masculina, nomeadamente jovem. O mesmo pode estender-se, pelo menos no ambiente português, a toda a engenharia dado que se trata de uma das áreas profissionais mais masculinizadas. O industrial e mecânico sempre carregou tal conotação, uma temática explorada na obra Lost Girls. Do lado de mecha, isto manifesta-se em designs altamente entroncados, favorecendo a silhueta masculina culturista. Isto para não falar na forte associação militarista que o género frequentemente apresenta, criando uma expectativa de arma de guerra. Porém, a tentativa de feminizar mecha não é necessariamente nova.

Já Go Nagai, o padrinho de Super Robot, brincava com a ideia de mecha feminino. Mesmo assim, como seria de esperar das suas sensibilidades, isto manifesta-se mais numa ideia juvenil do conceito. Capturado exemplarmente pela Aphrodite A, a dicotomia sexual de mecha tal como foi codificado em Mazinger Z manifestava-se no paralelo entre o Rocket Punch do titular Mazinger e os Oppai Missiles da Aphrodite.

Dado este precedente, não é de admirar que mecha dificilmente seria capaz de transitar para um público feminino, quanto mais reimaginar artisticamente a iconografia industrial para o mesmo. Dito isto, ao menos consigo encontrar felicidade e optimismo no desenvolvimento e visão artística que Darling in the FranXX mostra em tentar expandir os horizontes visuais de mecha.

 

Darling in the FranXX - Análise

 

Embora carecendo da elegância e sofisticação dos Mortar Headd de Five Star Stories, não deixam de ser imagens impressionantes. Um testemunho para a possibilidade artística de mecha que ainda está por explorar. Fora isso, há que destacar o ambiente tanto colorido como estéril, o qual, até certo ponto, servia de um excelente pano de fundo temático para a narrativa da primeira metade da obra. Como última nota, também tenho que destacar as transições de cinematografia que ocorrem entre cenas importantes. O seu enquadramento na história realça magistralmente os diálogos e contemplações das personagens no decorrer da história.

 

Darling in the FranXX – Conclusão

Elaborar este artigo foi uma peripécia exaustiva. Como contribuidor para o comentário e crítica da cultura popular, estou altamente consciente do paradigma que domina a praça digital. Nós seguimos o legado de artistas como o AVGN que, para mal e pior, criaram uma discussão dominada pela fúria. Mais cedo e mais rápido irei ver um comentário caracterizado pela malícia do que o reverso. Aliado a isto, está um conhecido e bem definido conjunto de tópicos que é vitima disso.

Como tal, falar mal de algo, angustia-me profundamente. No discurso coloquial é mais fácil, mas mesmo assim ainda me arrependo. Então no domínio da escrita parece que estou a esfaquear e a ser esfaqueado por cada crítica. Escrever, inerentemente, é um ato de criação e criar de ódio resulta em algo que me perturba.

 

Darling in the FranXX - Análise

 

Sendo assim, prefiro sempre dedicar as minhas palavras e a atenção de alguém a algo de bom e positivo. Prefiro sempre que possível ser condutor para algo surpreendente e enriquecedor. Ou então pelo menos divertido. Porém, acredito que nada disso se aplica à obra em questão. Vi-me entusiasmado com algo que achei ser profético, mas apenas se revelou como charlatão. Há quem diga que talvez baste ver a primeira metade da série e ficar por aí. Há quem postule que, com mais tempo, a segunda metade seria mais compreensível e teria propósito.

Porém, tenho que violentamente rejeitar quer uma quer outra. Uma obra em quase nenhuma circunstância seria aceitável metade boa. Por sua vez, uma mudança de trajetória que anula todas as suas boas ideias jamais resultaria independentemente do tempo. Pergunto-me, então, será que foi culpa minha ter posto tais expectativas na obra antes de a ter visto por inteiro? Será que sou burro por ter visto uma sereia na distância e ver-me surpreendido quando se revelou ser um manatim? Se calhar na minha arrogância, como Narciso, apaixonei-me pelo reflexo no lago e agora queixo-me por afogar em desespero. Em suma, a verdade é que, como fã, persigo um espetro que se recusa materializar.

O sonho de um futuro na qual mecha volte à proeminência, mais destemida e contemplativa do que nunca. Um futuro que abra os horizontes e novamente sirva de porta-estandarte para todo o meio. Porém, torna-se amplamente evidente que qualquer que seja o espírito e visão vanguardista que ainda resida em anime, está ausente.

 

Darling in the FranXX - Análise

 

Fundamentalmente, mecha precisa de uma reforma drástica. Uma revolução até, diria. Este é o género que vez após vez se tem revelado como mais prejudicado pelos piores hábitos de anime. É preciso sangue novo, é preciso controvérsia. É preciso ter a mente aguçada e o espírito crítico digno de um pós-modernista. Não vai ser a bailar com as ideias de crianças ou de passados obsoletos que mecha voltará a ser respeitada. Só sei que isto é mais uma lição contra ver anime sazonal episódio a episódio.

 

 

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