Death Parade | Análise

por João Simões

Death Parade é uma adaptação de uma curta-metragem (OVA) denominada por Death Billiards, que nasceu no âmbito do programa da Young Animator Training Project 2013 (Anime Mirai 2013), produzida pela Madhouse. É aconselhada (mas não obrigatória) a sua visualização antes de iniciarem a vossa viagem em Death Parade.

 

Opening:

Bradioo – “Flyers”

 

Death Parade | Bem-vindos a Quindecim

Existem muitas obras que se debruçam sobre a vida, ao mesmo passo que existem muitas obras que desenvolvem a temática sobre a arte de tirar uma. Porém, são raras as que incidem sobre o pós-vida, sobre a morte, sobre as suas consequências e o seu significado. Death Parade vai ainda um pouco mais longe ao tentar criar uma realidade onde podemos observar, como se comportaria um ser-humano se tivesse que enfrentar por breves momentos, o facto de que já não se encontra mais no mundo dos vivos.

 

Death Parade Expressões Humanas

 

Toda esta estrutura da psicologia humana, é-nos fornecida de forma detalhada através de uma refinada escrita narrativa. A conjugação da premissa invulgar com a exposição bem executada, absorve-nos de forma automática e inconsciente. Leva-nos enquanto público a sair do elevador, a entrar em Quindecim, com muito cavalheirismo puxam-nos a cadeira, sentam-nos e questionam-nos o que deseja-mos para beber, transformando-nos em reféns de uma experiência rara de encontrar.

 

Death Parade Publico

 

A caracterização e desenvolvimento de personagens são genuínos e realizados através de ações, palavras, diálogos e flashbacks estrategicamente bem posicionados ao longo de cada episódio. Isto leva a uma construção de personagens mais rápida e ao mesmo tempo mais real, conseguindo que em pouco tempo nos transmitam a credibilidade da existência (em carne e osso) de determinada personagem. Estes elementos aplicam-se ao elenco principal, mas essencialmente às duas personagens que variam de episódio para episódio, ou seja, aos julgados. É de louvar que em vinte minutos consigam a proeza de: introduzir as personagens, desenvolver-lhe os contornos necessários, criar confronto entre duas personalidades maduras e distintas, e por fim desenhar uma conclusão sólida. O epílogo de cada episódio deixa ainda uma infinidade de problemáticas a gravitar, para que o público as possa degustar pelo tempo que for necessário de modo atingir um julgamento próprio.

 

Death Parade Caracterizacao

 

Death Parade | Um universo inexplorado

Como provavelmente já foi concluído pela elogiada construção episódica, Death Parade brilha mais forte quando nos apresenta o esqueleto de histórias isoladas. O valor da obra atinge o seu pico máximo quando julga e nos coloca a julgar os mais variados tipos de Humanidade existentes no nosso mundo, deixando claro, muitos por apresentar.

 

Death Parade Mundo Expansao

 

Em contrapartida, somos contemplados (feliz e infelizmente) por uma expansão de um universo único. Inicialmente conhecemos apenas Quindecim, no entanto, com a progressão do enredo vamos ganhando noção que existe um mundo infinito à volta daquele bar, deixando-nos mesmo com a perspetiva que este é apenas uma unha do que existe no mundo dos mortos. Além disto, recebemos ainda a introdução de múltiplas personagens interessantes, com estatutos e poderes misteriosos.

 

Death Parade Ambiente persoangens

 

O problema de tudo isto foi mesmo ter sido inserido quando não existia tempo suficiente para o desenvolver e muito menos para o concluir. Mostram-nos diversos cantos gostosos, mas em vez de nos alimentarem com eles, deixam-nos longe e com muita água na boca. Este é o ponto mais fraco de toda a obra, criando um desequilíbrio desproporcional tendo em conta todo o restante panorama da mesma. Esta viveria melhor e de forma mais alta se se tivesse focado mais nos julgamentos, levando-os mais longe.

Esta parte narrativa poderia, obviamente, ser inserida no caso de existir longevidade suficiente para que fosse desenvolvida da forma que merece.

 

Death Parade Um universo por explorar

 

Death Parade | Ambiente

Por muito fabulosa que seja a escrita desta obra, sozinha não conseguiria ter o mesmo poderio que tem como obra total. A apresentação é um ponto fulcral quando a narrativa se passa num mundo que não existe na nossa realidade, e que raramente ou nunca esteve presente nos nossos imaginários por via de outras obras. Esta grande imersão resulta da polivalência harmoniosa do visual, que é encontrada em todos os departamentos relativos à produção técnica.

 

Death Parade Ambiente 1

 

Ao atravessar a ombreira da porta deste novo mundo, deparamo-nos com uma palete sombriamente colorida através de cores frias, onde predominam os roxos, azuis e cinzentos, transmitindo o senso de morte, não de forma horripilante mas sim convidativa. Apesar de predominar o senso de frieza, não cria desconexão no relacionamento público-obra, sendo completamente agradável às pupilas.

Os cenários possuem uma composição adequada, que quando fundida com a palete de cores, cria os pilares necessários para a primeira grande imersão. A banda sonora tem várias faixas boas para cada momento, e outras tantas que dificilmente deixarão a nossa memória. Marcam-nos pela sua composição orquestrada com mestria, e principalmente pelo seu oportunismo em cada cena, intensificando naturalmente a essência pretendida em cada uma.

 

Death Parade animacao

 

Com cada instrumento no seu lugar, precisamos de um Maestro que consiga ligar todos estes pontos que, de forma isolada, não funcionariam com a mesma intensidade. A realização de Yuzuru Tachikawa (também criador original da obra), guiou-nos o olhar para onde pretendia, deu-nos as pistas, as ligações para que tudo fosse passível de ser compreendido, e principalmente de ser refletido. Se existe uma concordância afinada, deve-se a este grande artista, que apesar de se estar a estrear conseguiu tirar partido de todos os departamentos técnicos e transmiti-lo ao público.

 

Death Parade Directing

 

Death Parade | Juízo Final

Ainda que o mundo de Death Parade se encontre incompleto, e que exista um claro desequilibro entre a construção de linha narrativa e estrutura episódica, e mesmo que a obra não passe por muitos casos possíveis de serem julgados e de gerarem uma intensa carga dramática, assim como uma enorme discórdia entre os julgamentos, forneceu-nos uma resma diversa de casos que deverá ser considerada. Estes, através de uma cinematografia sublime, um design de personagens sólido e dinamicamente rigoroso, cores e iluminação no ponto, uma banda sonora audível vezes sem conta, com uma narrativa que prolifera emoção e reflexão, levam-me a questionar: estão à espera de quê para carregar no primeiro episódio?

Independentemente dos pontos negativos que a obra possa demonstrar ocasionalmente, tornou-se de forma inexorável uma das melhores obras de 2015, entrando de imediato para aquela lista obrigatória de títulos que não podem deixar de lado. É claro que para fãs de psicologia, análise humana e fantasia bem recriada, esta é uma obra maravilhosa.

Por outro lado, se não aprecias obras muito complexas, onde cada detalhe e cada frame conta como peça de um puzzle maior, então é possível que esta obra não seja assim tão imperativa quanto isso.

 

Trailer:

 

 

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