Desconfinamento Cinéfilo – Clássicos do Cinema Taiwanês

por Inês Paredes
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O cinema surgiu em Taiwan pelos japoneses durante o seu domínio colonial. No entanto, os japoneses, nem antes de 1945, nem depois da Segunda Guerra Mundial, nunca consideraram as obras taiwanesas como parte do cinema japonês – estas foram simplesmente tratadas como filmes das colónias, como apenas suplementos. Quando o KMT (Kuomintang, o Partido Nacionalista Chinês) dominou Taiwan após o fim da Segunda Guerra Mundial, o cinema nascido sob o domínio nipónico foi desacreditado e destruído. A história do cinema de Taiwan depois de 1945 foi injustamente considerada pelo Governo e pelos seus historiadores de cinema como uma extensão da história do cinema chinês continental (e da história do cinema da República da China).

Desde meados dos anos 80, o cinema de Taiwan tem desfrutado da exposição internacional através do trabalho de jovens cineastas que revitalizaram uma indústria cinematográfica em declínio. Com esta grande aclamação por parte do público e da critica internacional, os filmes desta indústria batalham cada vez mais intensivamente por uma história separada da sua detentora administrativa. Um filme taiwanês é uma forma de arte, talvez antes com um propósito diplomático e não como um produto cultural comercializado para massas.

 

Desconfinamento Cinéfilo – Clássicos do Cinema Taiwanês

 

Dragon Inn (1967)

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Dragon Inn (1967), um género clássico que tem sido frequentemente imitado e refeito várias vezes, é para o género das artes marciais o que Stagecoach (1963) é para o western. O guionista/realizador King Hu fez Dragon Inn logo após completar Come Drink With Me (1966), uma longa metragem de ação-aventura que viria a ser uma grande influência em Crouching Tiger, Hidden Dragon (2000), de Ang Lee, que ganhou 4 Óscares.

Durante a dinastia Ming, o Ministro da Defesa do Imperador sofre uma emboscada por parte de um poderoso eunuco da corte, sendo posteriormente executado e a sua família perseguida pela polícia secreta. Na perseguição que se segue, um misterioso grupo de estranhos guerreiros começa a reunir-se no remoto Dragon Gate Inn, onde caminhos (e espadas) se cruzam.

As cenas de luta em Dragon Inn evocam perfeitamente uma filosofia das artes marciais que Bruce Lee mais tarde adotou em Enter the Dragon: “Uma boa luta deve ser como uma pequena peça teatral, mas interpretada seriamente. Um bom artista marcial não fica tenso, mas pronto.” Os heróis pulam, giram e correm para longe do caminho malévolo, porque eles passam a maior parte das quaisquer lutas a antecipar os movimentos dos seus adversários. Os “bons rapazes” reagem frequentemente aos movimentos dos seus adversários e, como resultado, medem a velocidade e o estilo dos seus movimentos. Lutar não é apenas sinónimo de espetacularidade em Dragonn Inn, mas também um juízo central de caráter.


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A Touch of Zen (1971)

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Celebrado como o primeiro filme de língua chinesa, não pertencente à China Continental, a ganhar um prémio no Festival de Cannes, em 1975, e lançado em pleno auge do fascínio ocidental contemporâneo com o género das artes marciais, sintetizado pelo estrelato de Bruce Lee, A Touch of Zen apareceu como um exemplo a justificar o epíteto de “art film”, da mesma forma que Once Upon a Time in the West (1968) de Sergio Leone ajudou a legitimar o western italiano.

Na maior obra de King Hu, Yang (Hsu Feng), uma nobre fugitiva em risco de ser capturada e executada, esconde-se numa pequena aldeia e, em seguida, deve escapar para o deserto com um estudioso tímido e dois assessores. Lá, o quarteto enfrenta um enorme grupo de lutadores e é acompanhado por um grupo de monges budistas surpreendentemente habilidosos na arte da batalha.

Um classicista que também era um bom artista e um excelente calígrafo, King Hu trouxe o olhar e a paciência de um pintor para o seu trabalho. Não surpreende que o “visualista” igualmente afinado Ang Lee, foi motivado a reinterpretar a cena de luta na floresta de bambu de A Touch of Zen, no seu filme Crouching Tiger, Hidden Dragon, na sequência da batalha da floresta de bambu.


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A Time to Live, a Time to Die (1985)

Clássicos do Cinema Taiwanês A Time to Live, a Time to Die filmes Taiwan

 

Resumindo-se a sinopses, todos os filmes coming-of-age falam efetivamente do mesmo: os confrontos iniciais com o amor, a morte e os desejos que moldam a relação do protagonista com o mundo. No entanto, a versão de Hou Hsiao-Hsien deste género é verdadeiramente singular: o seu senso de conservação do tempo visual é único, transformando o que está no papel em palavras simples em algo inefavelmente complexo e poético. O senso de narrativa também é todo seu, conseguindo pôr a sua alma contra um pano de fundo de grandes mudanças sociais, fixando-o dentro de um contexto que tantos filmes de Hollywood exploram e que ficam aquém das expectativas, saindo sentimentais e condescendentes.

O filme foi baseado nas memórias do realizador e na sua família, que nos anos 1940 abandonou a China para viver em Taiwan. O seu alter ego é A-ha, um dos membros mais jovens da família. É através de A-ha que Hou desenha a trajectória da família. O filme divide-se entre a infância e a adolescência de A-ha, marcada pela morte dos três membros mais velhos da família: o pai, a mãe e a avó.

As histórias de Hou são francas, abordadas não apenas como sucessões de pequenos eventos, mas como macro eventos que têm micro repercussões. O indivíduo é quase sempre separado do coletivo em filmes ocidentais deste tipo, mas Hou entende que o indivíduo é meramente uma manifestação menor, matizada dentro de mudanças maiores.


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Taipei Story (Edward Yang, 1985)

Clássicos do Cinema Taiwanês Taipei Story - Edward Yang filmes Taiwan

 

A demasiada breve filmografia do realizador taiwanês Edward Yang é uma das mais vitais na história do cinema. Yang, que estava nos seus 30 anos quando começou a sua carreira fílmica, na década de 1980, fez sete filmes; o seu último filme, o íntimo, mas também épico “Yi Yi” (2000), foi até recentemente o único a ter recebido um lançamento adequado nos Estados Unidos. (Morreu de cancro em 2007.)

A história central é a de Chin (Tsai Chin, uma estrela pop taiwanesa e esposa do realizador na época), uma jovem mulher que espera que o seu avanço profissional possa tirá-la de uma casa de família sombria e Lung (Hou Hsiao-Hsien, ele mesmo um grande realizador e também guionista deste projeto), o seu namorado aparentemente sem rumo, obcecado por basebol. A cena de abertura mostra-os olhando para um potencial novo apartamento para Chin; “nada mau”, é o veredicto final. Logo depois de Chin se mudar para o novo lugar, perde o seu emprego e envolve-se com um arquiteto, cansado da sua antiga empresa.

Em Taipei Story, Yang apenas revela o mais simples: um homem morre, uma mulher vive e o mundo continua. No fundo, o cineasta, com os seus opostos e contradições, mostra-nos que talvez até seja possível, sim, mas que não vale a pena procurar algo mais.

Considerado um dos grandes filmes mais negligenciados da história do cinema, “História de Taipei” é a segunda longa-metragem de Edward Yang (1947-2007) que foi considerado “um dos cineastas mais talentosos, e menos conhecidos, do mundo”.


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A Brighter Summer Day (1991)

Clássicos do Cinema Taiwanês A Brighter Summer Day filmes Taiwan

 

A Brighter Summer Day, de Edward Yang, é um marco do Novo Cinema de Taiwan, o movimento liderado por Yang e Hou Hsiao-Hsien, e seguido por uma série de obras-primas de jovens cineastas da periferia chinesa no final dos anos 80 e início dos 90, que tentaram lutar contra o legado geracional (pós-Segunda Guerra Mundial) da guerra civil, que enviou milhões de chineses em exílio para Taiwan e Hong Kong.

É uma história de amadurecimento de um jovem, que se passa no Taiwan dos anos 60, um período turbulento do final da guerra civil da China e da fuga de cidadãos chineses em massa para Taiwan. Dentro deste cenário, as rivalidades entre os nativos de Taiwan e os chineses do continente, junto com a desagregação e a constante opressão da ditadura militarista em Taiwan refletem-se na camada adolescente, que, sem supervisão e dentro de uma sociedade sem estrutura, se organizam em gangues violentos.

Apesar do sofisticado pano de fundo, a maior beleza está na maneira como Yang filma os impulsos passionais das suas personagens. A desilusão amorosa, precedendo à morte da amada (a morte da esperança, da conceção de inocência do mundo) é fortíssima. A dor e a beleza persistem conflitivas, porém complementares, no cinema de Edward Yang.


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Vive L’Amour (1994)

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O malaio Tsai Ming-liang, nascido em Kuching, e que trabalha em Taiwan, não faz filmes exatamente fáceis ou digestivos, fá-los polémicos, tratando-os com extrema economia de recursos, sem jamais estetizar aquilo que tem a dizer.

Vive L’Amour segue três pessoas que vivem em Taiwan e dividem o mesmo apartamento sem ter a menor ideia do seu compartilhamento. Uma delas é Mei, que usa o local para os seus encontros sexuais; Ah-jung, o seu amante do momento. Hsiao-kang, um homem que roubou a chave do apartamento para utilizar a casa como abrigo, completa este trio.

Edifícios e apartamentos vazios, espaços intemporais e inabaláveis vazios de vida na metrópole vibrante, é a metáfora recorrente de Ming-Liang para a nossa existência moderna. As três personagens principais que os frequentam parecem-se fantasmas, vivendo no meio de milhões de outros ainda não vistos. Estes influenciam-se uns aos outros, embora duas das personagens nunca se encontram ao longo do filme, apesar de praticamente fazerem sexo uma com o outra. Eles passam uns pelos outros, tão perto.


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Yi Yi (2000)

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“Há pouca coisa sobre a qual eu tenho a certeza nestes dias de hoje.” Diz N.J. em Yi Yi, de Edward Yang, um filme em que ninguém sabe mais do que a meia-verdade, ou que se encontra feliz em mais do que meio-tempo.

O filme conta a história da família de N.J., um pai de classe média de Taipei, do seu irmão às voltas com um casamento por procuração, da sua filha adolescente, do seu filho a lidar com a sua sexualidade, da sua esposa desamparada e da sua sogra em coma. Através destas personagens-arquétipos, o cineasta procura delinear um panorama da Taiwan de hoje: globalizada, se assim se quiser, mas na verdade, ocidentalizada.

Houve um tempo em que um filme de Taiwan teria parecido estrangeiro e desconhecido quando tinha uma cultura completamente diferente da nossa. Os personagens de Yi Yi vivem num mundo que seria muito o mesmo de Toronto, Londres, Bombaim ou Sydney; onde a sua classe económica, os empregos, a cultura, é estabelecida por corporações, imóveis, pelas cadeias de fast food e pelos grandes media. N.J. e Yang-Yang comem no Mcdonald’s e outras personagens encontram-se num restaurante de Taipei chamado New York Bagels. Talvez o filme não seja simplesmente sobre saber a meia-verdade, mas sim saber a metade errada da verdade.

Yi Yi é, em última análise, uma obra que transmite o seu significado através do senso de equilíbrio e requinte – aqui e em outros lugares, no passado e no presente, no ideal e no condicional, no mundano e no extraordinário. É um filme de, e sobre, graça. Sossegadamente esmagador.


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Millennium Mambo (2001)

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Na magnífica cena de abertura da grande obra de Hou Hsiao-Hsien, a belíssima Vicky flutua graciosamente por um longo corredor aberto, enquanto uma batida techno cresce de um pulso constante para uma batida extática. Fotografado em azul cintilante por Mark Lee Ping-bin (In The Mood For Love), especializado em cores ousadas e vibrantes, este fugaz e atemporal momento é elétrico, sensual e carregado com a liberdade de ser um jovem notívago em pleno século XXI.

Vicky (Shu Qi) percorre a sua vida vazia, na metrópole de Taipei, em Taiwan, mantendo uma relação inútil com o seu namorado DJ, Hao-Hao (Tuan Chun-hao) e uma carreira insatisfatória como uma anfitriã de discoteca. À medida que o seu romance se torna cada vez mais tenso, decide-se juntar a Jack (Jack Kao), um empresário carinhoso, mas ligado ao submundo. No entanto, esta nova relação não consegue mudar a natureza sem-rumo de Vicky e o seu futuro continuará tão duvidoso como antes.

O realismo peculiar de Hou propõe uma curiosidade pelos destinos alheios, mas com um certo distanciamento voyeurista, uma vez que não há heróis que se amam nem vilões que se odeiam.


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The Assassin (2015)

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A primeira obra de Hou desde Flight of the Red Balloon (2007), The Assassin esteve em processo de pré-produção durante vários anos e encontra o cineasta aclamado, criador do Dust in the Wind (1986), A City of Sadness (1989) e In the Hands of a Puppet Master (1993) a fazer uma incursão inovadora na história da China Antiga.

Século VII. A Dinastia Tang entra em declínio. Yinniang (Shu Qi, que estrelou em Millennium Mambo) viveu toda a sua vida na floresta, aos cuidados de uma freira que a tornou na mais exímia assassina de artes marciais, encarregue de matar governadores corruptos. Recebe da sua mestra a missão de assassinar Lorde Tian (Chen Chang) e a sua esposa Huji (Hsin-Ying).

The Assassin funciona como um interessante épico na sua defesa das protagonistas femininas, sem estereótipos e militâncias exageradas, e também trabalha muito bem ao pontuar a linha histórica cinematográfica e relacionar um filme de extrema leveza, com uma condução técnica bastante aprimorada. Junta-se aos leões na selva e senta-se como um forte representante do país.


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A Sun (2019)

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Realizado e co-escrito por Chung Mong-hong, A Sun coloca a questão moral de saber se é possível sobreviver como uma pessoa totalmente boa num mundo completamente traiçoeiro. Este drama instigante é longo, mas bem-ritmado, cheio de incidentes, mas ao mesmo tempo íntimo – embora a violência chocante ocorra apenas fora do ecrã.

A Sun conta a história de dois filhos, um deles um dos melhores alunos a frequentar a escola de medicina da sua escolha e o outro, um delinquente raivoso cujo último conflito leva-o para um centro de detenção juvenil. O primeiro, A-Hao (Xu Guang-Han), deixa os seus pais orgulhosos, enquanto que o seu irmão mais novo, A-Ho (Wu Chien-Ho), é o que nós chamaríamos de uma “deceção”, se apenas os seus deslizes não fossem tão consistentes com as expectativas baixíssimas que todos têm do seu potencial.

Além das preocupações familiares potentes, A Sun questiona se as pessoas são capazes de mudar, bem como se podemos mudar as impressões que as pessoas têm sobre nós. Ao longo do filme, Wu Chien-Ho passa pela transformação mais notável como A-Ho, entregando uma performance que é inteiramente relacionável e nunca menos do que inteiramente convincente. A sua última cena é pura poesia, já que o filme culmina num encontro entre os dois irmãos ao sol.


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Estes são 10 clássicos do cinema taiwanês que qualquer amante de cinema deve ter na sua lista. Recomendam alguma outra obra para este “desconfinamento cinéfilo”?

 


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