Devilman Crybaby – Análise

por Tiago Garcia
Devilman Crybaby - Análise

Devilman é um nome que incute o mais dignificado respeito na comunidade anime e manga. Talvez a mais singular, influente e extraordinária obra de Go Nagai fora de Mazinger Z. De forma a compreender a origem de obras como Parasyte e Neon Genesis Evangelion, requer do entusiasta de anime dar uma leitura aos 5 volumes que constituem a história de Akira Fudo e a sua fatídica relação com Ryo Asuka.

Esta dinâmica serve de protótipo para sucessores mais conhecidos em anime mainstream como as entre Guts e Griffith e Light Yagami e L. Anteriores adaptações têm sido incompletas ou insuficientes. Primeiro, teve-se a série anime de 39 episódios na década de 70, rejeitando a tonalidade lúgrebe da obra original em favor de uma história mais alegre. Em seguida, temos a versão OVA que procurava adaptar o mais fielmente possível a história de Devilman, com a violência e opressão intacta.

 

Devilman Crybaby – Análise

Devilman Crybaby - Análise

 

Porém, a história não foi adaptada por completo, tendo sido produzidos apenas dois episódios. Agora perdura como um exemplo dos OVAs ultraviolentos que saturavam o mercado ocidental anime na década de 90. Eventualmente, com este objeto em análise, chega-nos uma adaptação completa do manga. Temos o prazer de, finalmente, poder ver esta extraordinária obra em movimento. Mais do que isso, tem sido modificada e adaptada de tal forma que a sua temática se adeque à época contemporânea. Devilman Crybaby tem um total de dez episódios, é realizado por Masaaki Yuasa e tem como guionista Ichiro Okouchi. Conta com uma banda sonora composta por Kensuke Ushio e é produzida pelo estúdio Science Saru. É classificado como um ONA (Original Net Animation) e está disponível para streaming no serviço Netflix, disponível em Portugal.

 

Devilman Crybaby – Enredo e Temática

A história de Devilman Crybaby segue o percurso do jovem adolescente Akira Fudo. Um rapaz sensível e introvertido, é filho de dois médicos cuja profissão os obriga a estar fora do Japão durante períodos extensos. Como tal, ele vive na casa de Miki Makimura, cuja família é cristã e amiga dos pais de Akira. Ele esforça-se para acompanhar a sua amiga no clube de atletismo da sua escola, sendo ela uma estrela-atleta e modelo.

Após um dia de treino, ele reencontra-se com um amigo de infância, o misterioso Ryo Asuka. Um prodígio intelectual com um mau génio e atitude fria, ele revela a Akira que demónios existem. Estas criaturas, diz ele, existem escondidas no seio da humanidade e constituem um perigo existencial para o Homem. Ele prova esta declaração com a sua própria pesquisa e experiência em conjunção com uma data de incidentes violentos que têm ocorrido mundialmente.

 

Devilman Crybaby – Análise

Devilman Crybaby - Análise

 

Ryo procura revelar esta descoberta ao mundo, visto que a comunidade política global recusa a divulgar esta informação ao público. Este leva o seu amigo para um clube noturno que, supostamente, é palco para cerimónias de invocações e possessões demoníacas. Aí, num delírio bêbado propositado, Ryo começa a atacar violentamente os participantes, na crença de que o sangue e a violência homicida irá atrair os demónios que procura filmar. Esta crença prova-se verdadeira, dando lugar a uma massacre imperdoável de todos os ocupantes do clube. Nesta orgia de morte, Akira também é possuído. Porém, a sua força de espírito e desejo de salvar o seu amigo de infância permite-lhe dominar o demónio em si. Esta fusão, com Akira ainda em controlo e consciente, dá-lhe a força e poder necessário para matar os demónios que iriam injuriar Ryo.

E assim nasce Devilman, sendo feita a sugestão que Ryo estava à espera de e planeou este evento. De dia para noite, Akira transforma-se radicalmente. Tendo maturado subitamente, é dono de um físico capaz de feitos extraordinários. Porém, entrelaçado a isto está um impulso base animal incontrolável que lhe torna luxurioso e agressivo. Ryo guia Akira para matar demónios à solta ao mesmo tempo que trabalha para revelar a existência destes ao público. Esta parceria levará Akira por caminhos sombrios, pondo em perigo tudo aquilo ao qual dá valor e levando a sua compaixão ao limite. O zelo implacável de Ryo irá transtornar o mundo, demonstrando a crueldade do ser humano no seu pior e levando a revelações inesperadas acerca da sua pessoa.

 

Devilman Crybaby – Análise

Devilman Crybaby - Análise

 

Miséria Maniqueísta e Crueldade Contemporânea

Após o término da visualização, não consigo deixar de louvar a história Devilman pela sua intemporalidade. Uma obra manga com cerca de 45 anos que ainda é capaz de ser relevante nos dias de hoje é absolutamente extraordinário. É um testemunho do talento e mestria de Go Nagai e uma vindicação do esforço e dedicação que deu a esta ideia. Porém, de igual mérito está Masaaki Yuasa cuja sensibilidade foi capaz de traduzir esta obra para os nossos dias. Nesta medida, vemos como uma obra fortemente influenciada pelo trauma pós-nuclear japonês, cuja temática procurava transmitir o horror apocalíptico da guerra atómica, é capaz de dizer qualquer coisa para as gerações que encaram tal influência como uma memória de um passado distante.

Desta vez, a temática principal de Devilman Crybaby centra-se mais à volta do ódio xenofóbico e o poder destrutivo deste. A ruína do homem nesta história está aliada a uma exploração severa da crueldade deste para consigo próprio. É elaborado um cenário que olha de perto como o ser humano cede às suas piores tendências no advento da paranóia. Esta inclusão e crítica da mão do Homem na sua própria miséria constitui o fulcro à volta da qual a temática desta obra se desdobra. Apesar dos demónios serem proeminentemente exibidos como sendo impossivelmente sanguinários, é o homem que se revela como mais monstruoso.

 

Devilman Crybaby – Análise

Devilman Crybaby - Análise

 

Isto não é nada de novo como conceito, porém é na execução que ocorre a originalidade. A monstruosidade do homem é aqui apresentada sobre uma lente moderna, tomando em consideração o nosso mundo após o 11 de Setembro, a ascenção do Estado Islâmico, os recentes casos de brutalidade policial, o perigo iminente do aquecimento global e os protestos Charlottesville. Apesar do conceito e história ser do tempo de nossos pais, a linguagem visual é toda dos nossos dias. Como tal, a visceralidade e horror apresentado é tão mais poderoso pelo seu imediatismo e sentido de proximidade. O desfecho desta história, que marcou indelevelmente o legado artístico de anime e manga, rejuvenesce e amplifica o seu impacto por uma escolha e construção inteligente de ambiente e atmosfera que reflete o mundo tal como o vivemos hoje.

 

Anciões Atualizados

Nesse mesmo ponto, as personagens também são atualizadas para a época contemporânea. Apesar de serem avós e protótipos para inúmeros arquétipos e outras personagens mais bem conhecidas e modernas, o elenco principal ganha nova vida e vê-se capaz de manter relevante no séc. XXI.

Isto é, nomeadamente, atingido com caracterizações excelentes que realçam a humanidade em desespero destas pessoas. Este último é manifestado primariamente através de Akira. Nada acerca desta personagem é particularmente nova, sendo um dos pais do arquétipo do protagonista obrigado a balançar decência com impulsos sombrios.

O que torna Akira interessante é a sua compaixão e empatia. A sua relação com outras personagens e a genuína preocupação que tem por estas é algo de refrescante e um contraste melancólico com a miséria que progride à sua volta. Uma faísca de bondade num mundo progressivamente escurecido.

 

Devilman Crybaby – Análise

Devilman Crybaby - Análise

 

O realçar desta alma é que realmente dá vida a Akira e serve de contraponto para Ryo. O que realmente destaca este último é o seu zelo implacável e natureza impiedosa. Aliado a isto, está um acompanhamento e desenvolvimento desta personagem que a torna dinâmica e cativante. Desta forma, não se torna uma força antagonista estática no decorrer da história. Ao invés disso temos uma intriga cuja resolução é tanto horrífica como hipnotizante.

Por último, gostava de realçar a caracterização de Miki Makimura. Uma personagem simplista na obra original, esta adaptação fez a escolha inteligente de lhe dar mais que fazer. Esta serve de um complemento natural a Akira, sendo ela destemida e naturalmente benevolente. Como tal, ela torna-se num elemento importante e central à narrativa, com a sua própria simbologia e papel temático.

 

Devilman Crybaby – Ambiente e Estética

Sendo esta uma obra de Masaaki Yuasa, seria de esperar que Devilman Crybaby partilhasse do seu estilo visual característico. Mais especificamente, um estilo de animação caracterizado por designs de personagens simples em prol de animação fluida e estilizada. Exemplificado noutros animes como Ping Pong The Animation, temos como resultado uma obra extremamente dinâmica.

No caso da obra em questão, gostaria de destacar dois benefícios muito específicos. Em primeiro lugar, os demónios. Sem qualquer margem de dúvida, estes monstros icónicos da cultura japonesa são os maiores vencedores desta escolha de estilo. Designs intemporais como os de Silene, Psycho Jenny, Amon e Jinmen deslumbram com a sublime animação em oferta. Nomeadamente, os demónios desfrutam de sequências surreais que lhes confere uma aura desnatural e revoltante, realçando a sua natureza alheia.

 

Devilman Crybaby – Reflexão Tiago Garcia

Devilman Crybaby - Análise

 

Em segundo, constrói uma estética que perfeitamente se encaixa na contemporaneidade. Como foi dito acima, esta obra recorre a uma linguagem visual que invoca os nossos tempos. Sendo assim, o design mais minimalista e elegante complementa belissimamente esse objetivo. Cada cena é habitada por personagens instantaneamente reconhecíveis com silhuetas e cores distintas. Nada de cenas com animação estática desnecessariamente detalhada e elaborada. O cenário resultante consiste num folhado de elegância e modernidade debaixo da qual ocorre surrealismo perverso de violência. Os dois parágrafos seguintes são antecedidos por uma mensagem pessoal. Apesar de estar a apresentar a seguinte interpretação, não deixo de compreender a atitude de rejeição que possíveis espetadores podem ter do tema seguinte. Uma crítica que pode ser feita a este anime é que é gratuitamente e desnecessariamente explícito neste campo.

Simbologia de Sexualização

Como tal, por último gostaria de explorar a vertente de sexualização que é omnipresente nesta obra. Em conjunção com a violência gráfica, são elementos estéticos que caracterizam a obra de Go Nagai. No contexto desta adaptação, acredito que cumpra um objetivo temático interessante. Nomeadamente, serve para realçar a natureza predatória da objetificação sexual de mulheres, especialmente jovens. As duas principais personagens femininas são fortemente sexualizadas, expressado proeminentemente pelo olhar de homens na sua vida. Isto contrói uma linguagem visual que associa a luxúria descontrolada do homem com o horror dos demónios. Não que seja necessariamente puritano na sua mensagem mas sim uma crítica de uma sociedade que apenas dá valor a mulheres na flor da idade pelo seu físico e pouco mais.

 

Devilman Crybaby – Reflexão Tiago Garcia

Devilman Crybaby - Análise

 

Vemos isto na personagem Miki Kuroda. Uma história paralela à de Akira, o seu percurso revela uma jovem vulnerável e conflituada. Apesar de ser uma pessoa caridosa, a pressão de excelência leva a uma intensa inveja de Makimura. Algo ainda mais exacerbado pela sua nascente luxúria reprimida e dúvida sexual, não sendo capaz de lidar com o sentimento de amor que tem por Makimura. Existe aqui uma tragédia curiosa, um paralelo do romance condenado entre Akira e Ryo. Duas pessoas que, talvez num mundo e sociedade melhor, poderiam amar-se livremente em vez de competir tanto na pista como nas revistas de fato-de-banho para encontrar valor e reconhecimento. Aos olhos de homens, pessoas em posições de poder e influência, apenas carne fresca. Lamentável, pois o contraponto da sua caracterização e relação revela tão mais para além disso. Pessoas com os seus desejos e falhanços à procura do seu lugar e propósito.

 

Juízo Final

Naturalmente, existe ainda mais para discutir. Ainda não referi a extraordinária banda sonora. Uma sublime mistura entre eletrónica e coro religioso contribui para o surrealismo das cenas demoníacas.

Simultaneamente, peças mais discretas completam perfeitamente os momentos mais introspectivos. Já para não falar da impecável relevância temática do freestyle rap que informa o cenário. Também é importante referir como este se trata de um anime com uma presença LGBTQI proeminente. A natureza explícita do anime é utilizada para mostrar, tanto quanto eu saiba, pela primeira vez uma cena de sexo homossexual masculino. Um testemunho de que a natureza mais livre da Netflix poderá permitir ultrapassar certos taboos que ainda perduram. Em suma, uma adaptação digna do legado e nome que carrega.

E, para quem entende da mitologia, uma sublime permutação do interminável ciclo temporal de sofrimento de Satanás.

Devilman Crybaby - Análise

 

Porém, a análise terá que terminar eventualmente. Preferencialmente deveria ter terminado há 1000 palavras atrás. Apenas serve para demonstrar que, além do sexo e violência explícita desta obra, desfruta de uma profundidade admirável. Arte que merece ser discutida e elevada no discurso cultural dentro da comunidade anime e não apenas um throwback para a década dos animes ultraviolentos.

É raro nós podermos assistir a um clássico instantâneo, criando um fenómeno de discussão e apreciação conjunta mundial. A Netflix tem-se demonstrado como a principal casa de animação para o entusiasta contemporâneo. Agora, com Devilman Crybaby, torna-se na principal plataforma para prestar atenção e consumir anime em Portugal. Se isto for a primeira jogada de 2018, um ano que contará com cerca de 30 animes Netflix, então estamos perante um ano áureo. Esperemos, então, que se trate de um bom agoiro para um ano inesquecível em anime.

 

 

1 comentário


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1 comentário

Leandro Santos 17 Março, 2018 - 19:24

devilman foi uma muito boa surpresa.
aquando do trailer fiquei de pé atrás em relação à animação, e a verdade é que esta nunca me cativou a 100% mas fui aprendendo a apreciar mais com o passar do tempo, e tal como dizes esta assenta que nem uma luva no anime.

a história que à primeira vista parecia demasiado simples, é na verdade complexa no sentido em que aborda vários temas ao mesmo tempo que explora bem os vários personagens.
Miki, Ryo e Akira, tudo bons personagens onde foi dado o tempo necessário para evoluir, e isto num anime com 10 episódios.
os temas que a história aborda não podíamos ser mais actuais, sendo o ódio e a discriminação cega o maior ponto de destaque, onde os ultímos episódios atingiram o seu pico, episódios esses que mal chegam para se respirar, tal é a adrenalina e a velocidade de acontecimentos. curiosamente não foram as explosões que mais gostei aqui, mas sim um evento que marca Akira.

a sensualização das mulheres é um tema que é mais actual do que nunca e acho bem que seja abordado, mas aqui achei-o por vezes demasiado gratuito.
por fim a banda sonora que encaixa na perfeição no ritmo do anime, quer seja na componente mais electrónica quer seja na vertente mais religiosa de alguns temas

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