Durarara!! | Análise

por João Simões

Na fresca temporada de inverno de 2010, por entre uma curta quantidade de obras, chega até nós um título adaptado pela Brains Base, designado pelo estranho nome de Durarara!!. Este é uma adaptação do semi-popular Light Novel de mesmo nome, escrito por Ryohgo Narita, que é nada mais nada menos que o mesmo escritor do célebre Baccano!.

 

Durarara!!

 

Durarara!! | As aparências enganam

Ryugamine Mikado desloca-se do mundo pacato rural para a frenética cidade de Tóquio, mais precisamente Ikebukuro. Fá-lo como escolha pessoal de modo a quebrar de vez o ritmo padronizado que a vida dele tomava. Este mantém contato com um amigo de infância que se encontra no mundo urbano e, após alguns desenvolvimentos no mundo online, é convencido a mudar-se.

Irá Mikado encontrar a mudança de vida que procura? Nem ele nem vocês imaginam o quanto… Mas sem mais avanço nos eventos, vamos à análise!

 

Durarara!!

 

Um oceano narrativo no qual te vais querer deixar afundar!

É extremamente raro encontrar uma narrativa contemporânea tão fresca como a de Durarara!!. É igualmente peculiar encontrar uma história que se desenlaça pelas teias sociais, criadas e conduzidas pelas personagens incríveis que dão vida a Ikebukuro, sendo elas o núcleo deste universo. Tal como um dos narradores da obra citou:

Uma cidade nasce a partir do conjunto de histórias, relacionamentos e eventos das pessoas que nela habitam.

 

Embora possua elementos sobrenaturais, o facto desta estrutura ser recriada com muita noção, dá uma outra dimensão à obra, fazendo com que esta se torne plausível aos olhos do público. A diversidade de personagens é imensa, porém, estas contêm um nível de caraterização incrível (na sua maioria), fazendo até com que tenhamos dificuldade em definir qual delas é o protagonista.

Se bem que, se tivermos que definir um, diria que é a cidade: Ikebukuro – o verdadeiro protagonista de Durarara!!. E deste modo, as personagens transformam-se no fio condutor da história, tendo a cidade não só como pano de fundo, mas também como “ator principal”.

 

Durarara!!

 

Se a história no seu todo for vista como um imenso areal, então ao público foi dado todo o material necessário para o escavar. Quanto mais o espectador decidir afundar-se nos níveis narrativos, maior será o “ouro” encontrado. A densidade é profunda ao ponto de, sem esforço, encontrarmos um duplo significado para tudo que nos vai sendo transmitido.

Por detrás de toda a colectânea de combinações e mixórdias sobrenaturais, encontramos um conjunto de temáticas interessantíssimas, que dificilmente são galardoadas com este tipo de abordagem. Problemáticas da sociedade contemporânea como bullying, depressão, suicídio, perda de identidade, stalkers, sequestros, pedofilia, tráfego de órgãos, lendas urbanas, influência do espaço cibernético no meio social, lutas de gangues, racismo, são o ouro puro que o nosso material de escavação vai encontrar ao longo desta expedição.

 

Durarara!!

 

Para terminar, não podia abandonar o aspeto do argumento sem mencionar a excelente gestão de cada episódio, que trouxe algo ao mundo do Anime que nunca vi em lado algum: devido à complexidade de todo o enredo, e também de forma a manter a consistência e atenção do público, a ¾ de cada opening inseriram um pequeno resumo onde eram relembrados os momentos passados mais importantes, para que se possa compreender da melhor forma o episódio em questão.

 

Durarara!!

 

Brains Base, oh Brains Base!

Um dos pontos altos desta produtora é o discernimento visual do design de cada personagem. Sendo Durarara!! a obra da Brains Base onde os personagens são a camada mais governativa do enredo é, com toda a certeza, a obra da produtora onde estes artistas tiveram mais espaço para brilhar. O carisma e personalidade de cada personagem são materializados através do design cuidado a que cada um teve direito.

Os atores responsáveis pelas vozes, na sua vasta maioria, fizeram um trabalho impecável em desfazerem-se dos seus trabalhos anteriores, alocando a sua voz de um modo distinto nestes personagens, dando-lhes vida no seu sentido mais literal.

 

Durarara!!

 

A estes departamentos aliou-se uma escolha e composição de músicas temáticas, mergulhadas no estilo clássico, que arrancam e moldam o caráter das personagens. E por falar na banda sonora: cada faixa, da primeira à última, é uma obra de arte musical. Cada som produzido pelo departamento musical de Durarara!!, é uma razão para se adquirir o CD e degustá-lo em toda e qualquer ocasião. Um pack orquestrado da forma mais refinada possível, que coloca a banda sonora desta obra, numa das melhores de todos os tempos! Ainda não estão convencidos pelas palavras? Então estas faixas que falem por mim:

 

 

O desenho e pintura não são os mais realistas, mas também não são os mais sobrenaturais. O ambiente entra em conformidade com os géneros narrativos, e mostra-nos uma cidade pintada por cores sombrias, mas ao mesmo tempo cheias de vida; exibe um traço fino, coeso, que desenha um universo surrealista, mas sem nunca deixar de ser realista.

 

Durarara!!

 

A animação, os movimentos e as coreografias de combate são fluídos e consistentes na grande parte dos 25 episódios, tendo um ou outro momento com queda significativamente visível de qualidade. Ainda assim, quando era exigido uma animação acima da média, somos presenteados com ela com muita assiduidade.

 

Durarara!!

 

Referências sublimes e subliminares à cultura POP japonesa

A obra dá-se ainda ao trabalho de realizar uma imensidão de alusões às mais variadas obras de anime, manga, música e light novels que se encontraram e ainda se encontram em voga. Algumas são tão rápidas ou tão pormenorizadas, que para conseguirem captar toda a informação, além necessitarem de um conhecimento bem alargado, terão que ver a obra bastantes vezes para que as possam assimilar da melhor forma.

 

Durarara!!

 

Durarara!! | Alguns pontos negativos a serem referidos

Embora os problemas, ou seja, os aspetos negativos da obra sejam bastante reduzidos, eles existem e não serão por mim ignorados. É notada uma pequena inconsistência a nível visual, mais precisamente no desenho e animação. O facto de por exemplo, possuir uma grande panóplia de personagens importantes faz com que, mesmo de forma inconsciente, algumas delas fiquem sem o desenvolvimento e influência mais desejáveis. Em contrapartida, são tudo falhas mínimas que podem e esperam-se que sejam colmatadas na sequela da obra.

 

Durarara!!

 

Já o nível de complexidade, é uma moeda com a sua cara e coroa bem definidas. Não é uma obra para qualquer público, pois quem a achar difícil de compreender, sentir-se-à inevitavelmente aborrecido, o que por sua vez se torna num ponto negativo difícil de contornar. Porém, todo este mistério que se mostra complicado de resolver, é igualmente um chamariz para mentes mais famintas.

 

Durarara!!

 

Juízo Final

Os acontecimentos estão sempre envoltos em mistério do mais alto nível, que nos leva muitas vezes a pensar “só mais um episódio, só mais um!”. E quando uma obra em vez de nos aborrecer, ou até de se mostrar de certo modo previsível, nos entrega mistério e ansiedade pelo acontecimento seguinte, é à partida, uma obra com um imenso potencial inerente.

A modelação da estrutura narrativa, retrata a história de uma forma original e apelativa, manifestando a escrita genial, preenchida de pormenores magníficos por todos os cantos, tornando-a numa experiência imersiva, agradável, e acima de tudo: única! As personagens são interessantes, a estrutura narrativa apesar de extremamente complexa é uma lufada de ar fresco, todo o ambiente é fantástico e gostoso! A banda sonora é uma potência que funciona tanto com a obra, como de forma isolada.

Por tudo isto, e com muito por revelar, o que existe para não gostar nesta obra? Durarara!! é uma recomendação máxima contemporânea com potencial para se tornar num clássico daqui a uns bons anos (ou talvez, nem tantos assim).

 

 

 

2 comentários


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2 comentários

Jessica Bononi 29 Setembro, 2016 - 4:14

Ótimo texto. Obrigada!

Responder
João Simões 29 Setembro, 2016 - 18:14

Obrigado! ^_^

Responder

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