Hunter x Hunter 2011 – Análise

por Renato Sousa
Hunter x Hunter 2011 - Arco das Quimeras

Na temporada de estreia desta série, quando aqui escrevi as minhas primeiras impressões, estava longe de imaginar o quão fantástica esta aventura ia ser, apesar de já ter deixado alguns elogios nessa altura. Pouco depois, como estava a gostar tanto, decidi fazer uma pausa nesta produção, voltar atrás no tempo e ver a primeira adaptação (ano 1999) para anime do manga de Yoshihiro Togashi. Uma série curta (62 episódios), quando comparada com a versão de 2011 (148 episódios), mas que, à excepção dos aspectos mais técnicos, me fascinou pelo conteúdo das primeiras sagas da obra.

Dito isto, ao leitor que desconhece por completo o universo de Hunter x Hunter, recomendo que comece por ler o meu artigo de análise a essa primeira adaptação. Ainda que, por motivos de spoilers, este texto não seja muito rico em referências a acontecimentos da história, ele acaba por ser (de uma forma parcialmente inconsciente) um complemento bastante alongado do que é dito nesse texto em relação à qualidade do enredo criado pelo autor. Fica a nota. Siga para o texto.

 

A rotatividade do protagonismo ….

Esta história começa com Gon Freecss como seu principal protagonista. Todavia, este é um “título” que acaba muitas vezes partilhado entre mais do que uma personagem e, em algumas ocasiões, “muda mesmo de dono”. É caso para dizer que “o mundo não gira à nossa volta”. Uma ideia que sai reforçada quando esta rotatividade se verifica e o espectador não mostra sinais de apreensão com essas alterações. E como poderia sentir, naquele que é um elenco cheio de potencial?

 

… num universo sem limites

A verdade é que a “progressão na carreira” (se assim lhe posso chamar) das várias personagens, tem muitas vezes (não sempre!) origem na mudança de temáticas impostas pelo criador. Essas alterações, há que dizê-lo, são muito distintas. Imagine-se o que é saltar de um ambiente virtual de jogos de computador para o mundo real, no qual está a ocorrer a um ritmo redobrado a aplicação da teoria da evolução das espécies. A meu ver, estas transformações radicais do enredo, da maneira como são feitas, diferenciam desde logo esta produção de outras de género e longevidade semelhantes. A maneira como Yoshihiro Togashi manobra as transições entre temáticas tão distintas, que acontecem de uma forma suave e não abrupta, ao mesmo tempo que assegura a manutenção da qualidade da história, é de suscitar inveja a qualquer criador.

Em termos de resultados, isto traduz-se em manter agarrado ao ecrã (ou ao manga, porque é da história que estamos a falar), os dois tipos de adeptos: o mais “generalista”, que acaba sempre por varrer todos os arcos; e o mais específico, pois, mesmo que uma saga não condiga com o seu estilo, ficará sempre na expectativa que a próxima lhe conceda esse desejo, e, portanto, também vai continuar a acompanhar o progresso da obra.

 

Hunter x Hunter 2011 - Análise Anime

 

Personagens sólidas e complexas

Subentendida nas minhas palavras sobre o enredo, a qualidade acima da média do elenco principal (e ele é bem alargado!) de Hunter x Hunter é outra característica que faz desta produção uma referência, neste caso, no universo anime. Como, aliás, é comum nas grandes séries, quer vilões, quer heróis (se é que aqui existe essa diferenciação …) são personagens muito bem construídas em termos de personalidade e, regra geral, também no que aos seus poderes diz respeito. Neste caso em concreto, as habilidades das personagens são muitas e diversificadas e, como é notório com o passar dos episódios, minuciosamente elaboradas.

Para nosso deleite, o enigma faz a separação entre a revelação de um poder e a exploração de todas as suas potencialidades. E fraquezas! Como é natural, cada um tem as suas contrapartidas, servindo as lutas para as descortinar. Isto leva o seu tempo, obriga os adversários a assumirem posturas e comportamentos desconhecidos pelo espectador (efeito novidade) e, mesmo assim, muitas vezes o ciclo não se fecha. O dinamismo incrustado nas personagens sujeita-as a evoluções e mutações, pelo que o enigma, em alguns casos, nunca chega a desaparecer, salvo pela morte ou desaparecimento das mesmas. O facto dos ambientes de fundo e das temáticas também serem rotativas, muda muitas vezes as posições de vantagem ou desvantagem de umas em relação às outras.

 

Hunter x Hunter 2011 - Hisoka & Illumi

 

Combates com primazia para a estratégia

As lutas cerebrais são um outro ponto de diferenciação de Hunter x Hunter 2011 em relação a muitos outros shounens. Pessoalmente, sou um apaixonado por jogos, desportos, trabalhos, ou outro tipo de actividades que envolvam raciocínio e definição de estratégia. Ora, ver Hunter x Hunter é como ser espectador de um desses desafios. Em grande parte dos casos, e estou-me a referir às lutas, o desfecho não é previsível. Não é, por exemplo, como ver One Piece, onde em 100 embates conseguimos adivinhar com relativa facilidade o desfecho de 98 ou 99 (a riqueza dessa obra não está propriamente nessas decisões).

No caso concreto desta série, paira uma grande onda de mistério em quase todas as lutas, sendo que muitas delas nem são no formato “mano a mano”. Em grande medida, parece-me, isto advém de todo o trabalho e tempo dedicado à concepção das personagens, às suas habilidades especiais (poderes), à maneira do autor encobrir parte desses capacidades até ao grande momento, e, mais importante de tudo, de Togashi as “obrigar” – e quando isso não acontece, existe uma tentativa de lhes incutir esse hábito – a utilizar primeiro a cabeça, e só depois os músculos, nesses momentos de perigo. Nesta obra, a força bruta ficou para segundo plano. Uma posição assumida logo desde início, não só pelo foco no Exame Hunter, mas acima de tudo pela maneira como se define esta profissão de nome “caçador” (hunter).

 

Hunter x Hunter 2011 - Gon & Killua

 

Aspectos Técnicos de Hunter x Hunter

Um excelente trabalho por parte da Madhouse, diga-se desde já. O “layout” desta versão 2011 é bastante acolhedor, proporcionando uma bela experiência ao espectador. Pelo menos do meu ponto de vista, tendo em conta que o estilo do desenho me deixou bastante agradado, tal como a aposta nas cores muito vivas e pertencentes a uma paleta muito abrangente. O traço é bem delimitado, pelo que as cores muito vivas sobressaem de uma maneira que não atropela as suas vizinhas. De alguma forma, desta combinação resultou um belo efeito. Já a “cereja no topo do bolo” chega por meio da animação. A dita cuja explora de forma significativa as diferenças de poderes de cada personagem, de maneira a que o espectador possa apreciar investidas (que podem não voltar a repetir-se, dada a rotatividade das personagens) com grande minúcia. Para lá das lutas, os diversos efeitos de movimento apresentam, de maneira geral, uma qualidade acima da média.

Apesar de estarmos a falar de uma série com 148 episódios, a música de abertura é sempre a mesma. “departure!”, de Masatoshi Ono, é de facto um grande sucesso, mas podiam tê-la substituído a determinada altura desta longa jornada, como aconteceu com o vídeo do opening.

 

Hunter x Hunter 2011 - Phantom Troupe

 

Em contraste, existe um grande número de endings. Aqui sou suspeito, pois sou fã de um ending mais animado no lugar de um mais calmo ou pachorrento. Hunter x Hunter 2011, para minha grande alegria, faz-me a vontade em dois momentos. Isso verifica-se numa primeira fase, até à chegada do terceiro vídeo de encerramento, altura em que os yuzu tomam conta desta parte dos episódios, por intermédio da música “Reason”. Aí, as coisas acalmam durante cerca de 40 episódios, com o melhor a estar reservado para o fim. Ainda sob a alçada dos yuzu, com o tema “Hyouriittai”, o duo proporciona aos fãs aquele que julgo ser o melhor ending da série, quer em música, quer em vídeo. Ainda que o segundo (“Hunting For Your Dream”, da banda Galneryus) lhe possa fazer forte concorrência. Que mais dizer? Julgo que esta minha dúvida e deambulo pelos diversos endings espelha de alguma forma a qualidade abundante presente nos mesmos.

Por fim, em relação à banda sonora, creio que a posso classificar em três palavras: soberba, ajustada, e inesquecível. Principalmente no arco das quimeras, tocam músicas de elevada intensidade que nos perfuram por completo pela qualidade e frequência com que se fazem ouvir. Repetição essa que advém da recorrente presença de momentos de grande tensão no enredo. A que me lembro logo quando falo disto é a “Legend of Martial Artist“, que tantas vezes me agitou e arrepiou, muito suportada, claro, por esta história fabulosa de Yoshihiro Togashi, e tão bem cuidada pela Madhouse.

 

 

Juízo Final

A terminar este artigo, no qual tentei fazer um equíbrio entre o escrever o que é mais relevante na série e, ao mesmo tempo, evitar falar de acontecimentos concretos, penso que faz sentido a seguinte comparação.

Ver Hunter x Hunter 2011 é como estar a conduzir no meio do nevoeiro e nunca saber o que vem a seguir. Estão a ver aquelas conversas que vamos ter com alguém e que, antecipadamente, começamos a imaginar o rumo que elas vão tomar, mas chegada a altura nunca se desenrolam como imaginámos? Hunter x Hunter é muito isso. A história parece descobrir sempre um caminho que nós não julgávamos existir. Seja qual for o tema que paire sobre o arco a decorrer, o enigma e o mistério nunca abandonam a cena, e podem ser vistos como o melhor resultado possível para o elenco fantástico que preenche esta história. Uma aventura que parece ter não um, mas dois pontos de partida. De um lado, o inocente e “puro” Gon Freecs, cheio de vida, alegria, e com a vontade imperturbável de se tornar um hunter como o pai. Do outro lado, estão quase todas as outras personagens importantes para a história. Gente, de uma maneira ou de outra, mais conduzidas na sua vida pelo ressentimento do que por outro guia qualquer, sendo, por este motivo, muito à boleia desse sentimento que a história progride.

Onde Hunter x Hunter 2011 termina é supostamente o “primeiro final” da história (ou pode ser encarado como tal), como Togashi diz numa entrevista (link contém spoilers). E apesar de todas as incertezas quanto ao futuro do manga e de um próximo anime, o conteúdo aqui adaptado é absolutamente delicioso. Ainda para mais, embora alguns episódios se arrastem um pouco em termos de pacing, os fillers são quase inexistentes (apenas 1 ou 2 para amostra).

Posto isto, por tudo o que aqui disse, considero esta uma produção à parte das restantes. É arriscado, e até injusto, classificar este como o melhor shounen que vi até à data, até porque eles dificilmente podem ser comparáveis. Porém, indiscutivelmente, olho para ele como uma peça única e inigualável na demografia em questão. Altamente recomendado!

 

Trailer Hunter x Hunter 2011

 

 

 

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