Indústria Manga – Autores conversam sobre as Condições Laborais dos Assistentes

por João Simões
Indústria Manga - Autores conversam sobre as Condições Laborais dos Assistentes

Shunsuke Kakuishi começou a lançar Yawara no Michelangelo, um manga sobre judo, no passado outubro. Este título marca a sua estreia como criador principal de um manga, o que o fez refletir sobre o estado atual da indústria manga no que diz respeito aos assistentes.

 

Indústria Manga - Autores conversam sobre as Condições Laborais dos Assistentes

Yawara no Michelangelo Volume Manga

 

Isto levou-o a colocar no Twitter uma publicação para o Norifusa Mita (Investor Z, Dragon Zakura), onde lhe pedia que pagasse todas as horas extra que fez enquanto era assistente dele, durante 11 anos e 7 meses. Mais do que receber dinheiro, Kakuishi tinha como objetivo criar uma onda de consciência sobre o estado laboral dos assistentes de manga, e, quem sabe, ajudar a melhorar as condições da indústria manga.

 

Indústria Manga – Autores conversam sobre as Condições Laborais dos Assistentes

Indústria Manga - Autores conversam sobre as Condições Laborais dos Assistentes

 

Independentemente de se concordar com o tipo de abordagem feita, uma coisa é certa, as ações de Kakuishi geraram conversa e neste momento isso é algo muito importante. O mangaka Shuho Sato (Say Hello to Black Jack, Umizaru) colocou uma resposta no seu blogue pessoal onde revelou que se sente dividido com as palavras de Kakuishi. Isto porque ele já esteve na posição de assistente e na posição de criador, então tem percepção total das duas perspectivas.

Sato afirmou que trabalhou sob condições muito difíceis quando tinha vinte e poucos anos, quando trabalhou durante 2 anos e 3 meses como assistente para Nobuyuki Fukumoto (Kaiji). Ele descreve que trabalhava 90 a 140 horas por semana, a dormir apenas 10 horas por semana e a receber o equivalente a 1.40€ por hora, sem remuneração pelas horas extra. Por causa desta experiência, Sato prometeu a si mesmo que iria tratar melhor os seus assistentes quando se torna-se mangaka.

 


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No entanto, Sato admitiu que isto foi uma promessa ingénua. Ele fez os esforços possíveis para dar as melhores condições aos seus assistentes, mas acabou na mesma por violar algumas leis. Ele fez esforços para que a sua equipa recebesse pagamento justo e férias merecidas, mas nem sempre foi possível. Então acabou por ser algo progressivo e foi ajustando ao longo do tempo conforme as possibilidades.

Aumentou os salários, oferece bónus bi-anuais, cobre as despesas de transporte, fornece seguros, dois dias de folga e férias adequadas. Mas admite que muitas vezes a equipa tem que ficar a trabalhar 12 horas por dia, acabando por infringir a lei laboral.

 

Indústria Manga - Autores conversam sobre as Condições Laborais dos Assistentes

 

Com isto em mente, Sato preocupa-se muitas vezes se os seus assistentes sentem algum tipo de rancor por ele, mesmo com ele a tentar que eles tenham as melhores condições de trabalho. Ele não sabe se existe algum tipo de solução para toda esta problemática, sente-se impotente perante a situação, porque os próprios mangakas não têm dinheiro suficiente para distribuir de forma justa pelos assistentes.

O que podemos nós fazer?

E terminou este segmento a afirmar que talvez seja melhor a indústria rebentar para que possa ser reconstruída.

 

Sato também respondeu aos comentários de Kakuishi, onde este mencionou que os assistentes não têm a habilidade de pedir nada porque os criadores estão em posições de superioridade. Kakuishi colocou no blogue que os criadores não pagam mais simplesmente porque não querem. Ao que o Sato respondeu que os criadores não são obrigados a dividir as royalties relacionadas com direitos de autor com os assistentes.

Adicionou que se um manga tem muito sucesso e traz lucros suficientes, então os membros da equipa deverão receber os respectivos aumentos mas que as royalties são reservadas para as pessoas que se encontram na gestão de tudo. Mas, ao mesmo tempo estas mesmas pessoas estão em constante risco financeiro caso o manga seja cancelado.

 

Kakuishi respondeu a Sato, de forma bastante emotiva, afirmando que tem consciência que os assistentes não têm direito a royalties mas que escreveu tudo aquilo no blogue porque não concorda com o sistema em vigor. De seguida entraram nesta troca de mensagens:

Quanto à ideia de que os assistentes devam tentar negociar a divisão de royalties nos contratos, isso é completamente irrealista devido ao facto dos assistentes se encontrarem numa posição de inferioridade. – Kakuishi

Então o que podemos nós fazer? – Sato

Os assistentes devem trabalhar com o objetivo de cumprir as leis laborais. – Kakuishi

 

No rescaldo desta situação Sato pediu desculpas a Kakuishi por ter sido insensível às problemáticas dos assistentes. Mas admite que está preocupado com Kakuishi e que, agora que ele é mangaka, se possa tornar num hipócrita.

 

Indústria Manga - Autores conversam sobre as Condições Laborais dos Assistentes

 

As condições de trabalho da indústria do manga continuam a ser muito criticadas e todas as problemáticas que gravitam à volta da legalidade de muitas situações são complexas. Independentemente de tudo isto, existem muitos mangakas que são conhecidos por tratarem muito bem os seus assistentes.

Por exemplo, Kunio Ajino trabalhou para Yoshihiro Togashi na criação de Yu Yu Hakusho e conta que Togashi era pessoalmente muito poupado mas no que dizia respeito aos assistentes ele nunca poupou, dando bónus equivalentes a quatro salários por ano, pagou refeições, materiais e que, além de tudo isto, Togashi foi sempre muito amigável.

 


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Como se pode ver, e tal como se verificou também na Indústria Anime, existem sempre os dois lados da moeda. Qual será a possível solução?

 

Fonte: Anime News Network

 

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