Kill la Kill | Análise

por João Simões
Kill la Kill Anime

Quando as temporadas estavam numa queda exponencial negativa em termos de qualidade, e também após o grandioso e único “Atack on Titan“, quando se pensava que não chegaria nada que pudesse cobrir a fraca qualidade no meio da quantidade e o espaço melancólico deixado pelo final da primeira temporada de Titan, eis que chega um anime com potencial para salvar o desastre que foi 2013. Terá este tido o resultado esperado?

 

Kill la Kill | A História

Numa escola secundária onde os estudantes possuem uniformes que lhes fornecem os mais variados poderes e habilidades, tudo pode acontecer. Esta é governada pela presidente dos estudantes, Kiryuuin Satsuki, usando tanto o seu nome de família, como habilidade para os governar através de força bruta e inteligência.

Contudo, a estabilidade e paz da escola sofrem a sua primeira ameaça quando Matoi Ryuuko (estudante transferida) coloca lá os seus pés. Ao longo do tempo, Matoi começa a colocar-se cada vez mais no meio dos planos de Kiryuuin, construindo uma maré de revolução contra a governadora implacável.

 

Kill la Kill | Studio Trigger

 

Kill la Kill | Ambiente e Enredo

Antes de começar a análise de forma mais focalizada, é de extrema importância referir que esta obra não é “Panty and Stocking”, “Gurren Lagann” e muito menos “Neon Genesis Evangilion! Apesar da Gainax (produtora das duas últimas obras referidas) não ter estado diretamente envolvida na criação, é certo que muita gente que esteve relacionada nestes dois últimos títulos, esteve também diretamente presente na génese de “Kill la Kill”, como por exemplo o diretor, os desenhistas e alguns responsáveis pelo processo de criação da animação.

Assim sendo, é natural que os seus traços sejam reconhecíveis ao longo de toda a obra. Quero concluir com isto que, esta não é uma animação recriada por cima dos outros dois grandes títulos. Foi e é um tema de conversa bastante recorrente pela imensa Internet, tendo eu o propósito com esta introdução de “limpar” um pouco a má fama que “Kill la Kill” foi ganhando ao longo dos tempos.

 

Kill la Kill | Studio Trigger

 

Numa primeira impressão, o enredo transmite um monte de fan-service exagerado e ilógico, construindo uma estrutura narrativa supérflua. No entanto, decompondo esta mesma estrutura, focalizando a atenção nos elementos constituintes, chega-se facilmente à conclusão que “Kill la Kill” é completamente o oposto de uma história vazia. A sequência de abertura inicia-se numa sala de aula, na qual o professor está a falar sobre a história da segunda guerra mundial, nomeadamente sobre Hitler e a instalação do fascismo. De seguida, a aula é interrompida por um aluno maquiavélico que liberta uma bomba de gás dentro do recinto. É com esta abertura preenchida de História que se inicia a maravilhosa narrativa e, atenção, as referências geniais não param por aqui. Deixo-vos apenas este exemplo sem muito “spoiler” para vos cativar.

“Kill la Kill” levanta questões de nível social, viaja tanto por temas mais evidentes e fáceis de entender como por temas menos gerais e bem mais complexos que os anteriores. De uma forma menos genérica, mostra-nos o funcionamento básico de uma escola. Esta é constituída por hierarquias definidas através do poder e força individual, que serão posteriormente divididas em clubes de estudantes, criando por fim uma opressão violenta para com os mais fracos. Neste ponto, o argumento volta a roçar de uma forma metafórica o fascismo que ainda se encontra instalado no nosso meio social contemporâneo, colocando a sua população sobre a “Lei do Mais Forte”.

 

Kill la Kill Anime

 

De um ponto de vista mais preciso e bem mais difícil de compreender, formula-se o tema principal que se encontra camuflado nas “roupas”. Esta é uma da temáticas principais das quais tudo anda à volta. Começando nas roupas escolares que remetem fortemente para os uniformes militares, o enredo demonstra as roupas como um símbolo de grande poder e estatuto, dando força ao quão rotulada a sociedade é no que diz respeito às aparências. Estas são algumas das linhas que irão encontrar.

Quanto à principal, segue a determinada Matoi Ryuuko, que tem como principal objectivo descobrir a identidade do assassino do pai, as suas razões e, por fim, concluir a sua vingança. Enquanto é movida por este desejo, Matoi percorre batalhas intermináveis contra os mais fortes da escola, começando então uma onda de revolução na escola inteira. Como consequência, vai desmistificando toda a corrupção que se encontra entranhada na escola. Ora, tais atos não serão vistos de uma forma benevolente, adquirindo imensos inimigos ao longo do seu complicado percurso.

 

Kill la Kill | Outono 2013

 

Considerando as pessoas envolvidas e o seus trabalhos anteriores, é praticamente impossível construir expectativas baixas no que diz respeito a todo e qualquer aspeto técnico que dá génese à imagem desta obra. O desenho é incrivelmente pormenorizado, seja nas personagens ou nos cenários. O ambiente em si é leve e pesado conforme a carga dramática que nos é exposta. A animação é brutal, definida, fluída e quando aliada ao desenho, os dois conseguem criar uma consistência e realidade que infelizmente são raras.

 

Kill la Kill | Studio Trigger

 

Todos estes aspetos se tornam nostálgicos, principalmente para quem seguir a animação japonesa há pelo menos uma década. Contém elementos notoriamente profissionais e criados maioritariamente com desenho e animação 2D, proporcionando a experiência que por norma é procurada pelo público da “velha-guarda”. A pintura e coloração segue o exemplo de excelência das características referidas acima, proporcionando uma transmissão de sentimentos subtil que será interpretada inconscientemente pelo espetador.

Porém, nem tudo são elogios. “Kill la Kill”, infelizmente peca na construção das lutas. Irão encontrar batalhas em todos os episódios, nem que seja uma pequena. Isto poderia ser um aspeto a favor, no entanto, para ser conseguida uma boa execução neste plano é necessário um cuidado especial, pois envolve bastantes vertentes. Uma delas é a repetição das coreografias, que ao longo dos episódios serão mais persistentes, mais precisamente nos movimentos iguais ou pouco trabalhados. Sendo assim, isto também será um pouco pela perspectiva do espetador. Se preferir quantidade esta não lhe irá faltar, se optar por qualidade terá que esperar pelas batalhas principais para poder sair satisfeito nesta vertente.

 

Kill la Kill | Aniplex

 

Por fim, a banda sonora. Esta dedica e aloca alguns temas principais a uma personagem só, criando afinidade apenas com essa. Ou seja, as personagens mais relevantes têm direito a uma música que os representa. A música em geral possui o paradigma da maioria das obras, onde existe um conjunto de músicas guardadas para cada efeito, seja dramático, cómico, ação, de desespero, etc. Em cada um destes géneros, as composições musicais não falham em enaltecer a narrativa e ambiente, perpetuando um conjunto incrível de arte.

 

Kill la Kill | Juízo Final

É certo que à primeira vista, “Kill la Kill” possui um monte de fan-service com nudez. Mas mesmo assim, aproveitaram os melhores aspetos que o fan-service pode proporcionar e ainda conseguiram criar uma narrativa genial com motivo forte o suficiente para o justificar.

O enredo entrega-nos drama, comédia, mistério, que recaem sobre uma estrutura preenchida de elementos filosóficos com fortes referências históricas e problemáticas atuais incididas nos agrupamentos sociais definidos pelas aparências. Como já foi dito, na introdução do enredo e ambiente, não se deixem levar pelos rumores que se fazem ouvir. “Kill la Kill” por si só é um colosso da animação contemporânea, não necessita de antecedentes nos quais se possa apoiar para poder ser uma obra de calibre estrondoso com uma frenética ofegante. Traz-nos então uma experiência completamente nova, transformando-se em mais uma lufada de ar fresco no meio da quantidade de anime de pobre qualidade que tem sido lançado nas últimas temporadas. A parte técnica, como já tanto elogiei, tem sucesso na sua maioria, falhando apenas num ponto ou outro.

Concluindo, “Kill la Kill” é uma obra obrigatória para juntarem aos vossos reportórios e listas de animes visualizados. É algo que vos irá divertir, emocionar, preencher e por fim, deixar muitas saudades.

 

 

 

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