Kiyofumi Nakajima (presidente dos Estúdios Ghibli) recorda a produção de A Princesa Mononoke

por Maria J Oliveira
Princesa Mononoke - Studio Ghibli 1997

O filme foi um investimento de risco que poderia ter endividado os estúdios.

 

Durante uma exposição que teve lugar em Tóquio no centro Edocco (Complexo Cultural de Edo), entre os dias 20 de Abril e 12 de Maio de 2019, foram celebrados os trabalhos do produtor Toshio Suzuki nos Estúdios Ghibli. Num panfleto oferecido aos visitantes incluíam-se os testemunhos do atual presidente da Ghibli, Kiyofumi Nakajima, que descreveu em detalhe Suzuki enquanto pessoa.

Nakajima recordou a ocasião em que o conheceu, quando ainda trabalhava para o grupo bancário Sumitomo em plenos anos 90. Neste mesmo período, Nakajima era encarregado de gerir as finanças dos estúdios Ghibli, então um subsidiário da Tokuma Shoten, uma companhia editorial que enfrentava uma dívida elevada e dependia de um novo êxito da casa Ghibli para manter-se à tona. A produção do título A Princesa Mononoke estava a decorrer, mas o seu orçamento era duas vezes superior ao do de filmes anteriores dos estúdios e muitos dos envolvidos no processo receavam que fracassasse.

 

Kiyofumi Nakajima recorda a produção de A Princesa Mononoke

Kiyofumi Nakajima (presidente dos Estúdios Ghibli) recorda a produção de A Princesa Mononoke

 

Os custos de produção de Pom Poko e O Sussurro do Coração tinham-se ficado pelos mil milhões de ienes (7,9 milhões de euros) e, no caso de se revelarem sucessos de bilheteira, os produtores obteriam um retorno estimado de dois mil milhões de ienes (14,8 milhões de euros); por outras palavras, os lucros totais atingiriam os mil milhões de ienes. No entanto, o orçamento de A Princesa Mononoke superara, desde as estimativas iniciais, os dois mil milhões de ienes. Tendo em conta o desempenho de filmes anteriores, este novo título não podia ser só um grande êxito; no pior dos casos, deixaria a Ghibli no vermelho.

Para piorar a situação, o título abordava temáticas complexas, pelo que não seria um típico filme de Verão para ver em família. Era difícil de imaginar que uma história sobre a coexistência complicada entre o Ser Humano e a Natureza se tornasse num caso de sucesso.

 

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Quando Nakajima abordou Suzuki com questões sobre o orçamento, ficou surpreendido com a resposta: “Nakajima-kun”, disse Suzuki, “Os filmes são um jogo de azar. Não se pode prever o futuro. Não sabemos até tentarmos.

Nakajima achou esta uma resposta intrigante, mas não teve mais remédio do que esperar para saber os resultados. A aposta dos estúdios veio a tornar-se num êxito estrondoso, com lucros de bilheteira a ultrapassar a fasquia dos 19 mil milhões de ienes (145 milhões de euros) só em território nipónico. Após A Viagem de Chihiro também se tornar um sucesso mundial, Nakajima perguntou a Suzuki como tinha isto acontecido. Suzuki esclareceu:

Todos os realizadores de cinema têm a preocupação de fazer algo bom. Não há realizador que não pense dessa maneira. Porém, conseguir o equilíbrio entre essa vontade e o interesse dos mercados torna as coisas complicadas. Na Ghibli, fazer algo bom está em primeiro lugar e só depois há um trabalho específico com o nosso pessoal responsável pelo marketing.

 

Por outras palavras, os estúdios Ghibli tratam da produção e do marketing e autorrepresentam-se no setor das vendas. Kiyofumi Nakajima afirmou ter ficado tão comovido com as palavras de Toshio Suzuki que se demitiu do seu posto na Sumitomo e começou a trabalhar para o Museu Ghibli. Ironicamente, notou Nakajima no seu testemunho, Suzuki era, na realidade, um indivíduo pragmático que seguia atentamente as tendências dos mercados e investiu a soma de 10 mil milhões de ienes (70,9 milhões de euros) no marketing de A Viagem de Chihiro.

O que me dissera sobre não ser possível prever o futuro e não se saber o resultado até se experimentar não passava de uma grande mentira”, concluiu, divertido.

Nakajima compreendeu, porém, que Suzuki era o tipo de pessoa que trabalhava pragmaticamente de modo a reter os fundos necessários para os criadores nos estúdios alcançarem uma autêntica liberdade criativa. Foi por este motivo que Toshio Suzuki ajudou a criar a Ghibli como subsidiária da editora Tokuma Shoten antes de esta se tornar numa empresa independente em 2005. Segundo o presidente Nakajima, “em relação ao dinheiro, Suzuki tem definitivamente o coração de um nativo de Nagoya” (o estereótipo dita que os habitantes de Nagoya são produtivos e engenhosos).

Kiyofumi Nakajima foi nomeado presidente dos Estúdios Ghibli em 2017. O anterior presidente, Koji Hoshino, tomou o posto de presidente do conselho de administração da companhia. Toshio Suzuki continua a trabalhar como produtor; os três desempenham igualmente funções como diretores executivos.

 

Fonte: Anime News Network


 

Princesa Mononoke – Análise

 

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