Kyou no Kira-kun | Análise

por Raquel Cupertino

A obra Kyou no Kira-kun da mangaka shoujo Rin Mikimoto, estreou no ano de 2011 e terminou em agosto do ano passado, tendo se comprovado bastante popular, apesar de ser relativamente curta comparativamente às habituais mangas shoujo. De apenas 34 capítulos, tentou marcar pela diferença, terá contudo atingido o seu objetivo e conseguido conquistar um público para lá da demografia utilizada?

 

História

Kyou no Kira-kun retrata a vida da adolescente Nino, cujo o seu único amigo é o seu papagaio Sensei. A tímida e solitária jovem é obrigada pelos pais, a vigiar de perto o seu vizinho Yuiji Kira, longe de saber que a sua vida e a do seu colega de turma estava destinada a cruzar-se bem mais do que alguma vez imaginara.

 

Kyou no Kira-kun

 

Kyou no Kira-kun trata-se de uma manga shoujo relativamente curta e de índole leve, apesar da história adquirir com o desenvolvimento, uma vertente fortemente dramática, e repleta de elementos com carga emocional elevada.
O manga desenvolve-se sob uma base shoujo escolar estereotipada. Temos a menina adolescente pouco-social e tímida, a apaixonar-se pelo mulherengo e super popular colega de turma. Até aqui nada de novo, o normal de qualquer romance que decorre dentro do género escolar. Então, em que diverge Kyou no Kira-kun dos restantes mangas shoujo?

 

Kyou no Kira-kun

 

A genialidade advém do que menos se espera: dos clichés! A obra é assim, um conjunto de clichés compostos de forma inteligente, sem desgastar nenhum deles, mostrando o que se pode retirar de cada situação e personagem, sem a consumir até à exaustão. Nesta brincadeira narrativa, somos constantemente ludibriados pelo autor em linhas não tão lineares, numa produção repleta de pormenores e pequenos grandes momentos que transformam esta manga num must read do género.

Em apenas 34 capítulos temos compactado o cerne do puro shoujo escolar, com todos os elementos e personagens que compõe este género tão criticado quanto adorado.

 

Kyou no Kira-kun

 

Habituados a longos mangas onde as personagens são lentamente desenvolvidas (quando o são), e o desenrolar da história é repleto de conflitos e situações demasiado forçadas, em que tudo o que acontece é levado ao extremo surreal e novelista de exagero emocional e narrativo. Aqui, somos presenteados com um pack riquíssimo de doçura e situações um tanto ou quanto complexas. Assim sendo, e sem fugir ao objetivo do género em questão, a relação entre dois adolescentes é retratada e desenvolvida pelas etapas comuns deste tipo.

No entanto, e sem querer narrar as mesmas, todos os pontos têm o seu limite racional, ou seja, as personagens são dotadas de racionalidade, bom senso, onde os diálogos entre o casal têm fundamento. As problemáticas expostas são trabalhadas de forma inteligente, transmitindo ao leitor uma conclusão consciente, sem os exageros habituais das obras deste tipo.

 

Kyou no Kira-kun

 

Uma obra marcada pela diferença

O primeiro capítulo atua como um primeiro filtro aos leitores. É-nos apresentado sob um visual sublime e encantador, os dois protagonistas…e um pássaro! Apelidado de Sensei, Robert Okamura trata-se de um papagaio com o dom da fala e da inteligência. Com um inteleto igual ou superior a um humano, é o melhor amigo de Nino desde que esta era uma criança. A presença desta figura pode afastar alguns, no entanto a presença do mesmo é fulcral para o encadeamento e narração dos acontecimentos e pensamentos das personagens. Em vez dos monólogos ou pensamentos dos protagonistas, temos o papagaio e interagir e a servir de motor de ação das várias linhas narrativas.

Se dúvidas restam quanto à visualização de uma obra prima que pela diferença narrativa e construção das personagens, estas dissipam-se aquando o crescendo mistério em torno de Yuiji. Sem me querer alongar ou “spoilar”, o ambiente imersivo embelezado pelo romance apaixonante entre os protagonista, é mesclado por cenas de cortar a respiração, onde as emoções vão salteando entre o desespero, a dor, a esperança e o amor, uma salada emocional que termina em lágrimas ora de alegria, ora de tristeza, ora das duas.

 

Kyou no Kira-kun

 

Dois protagonistas

Um ponto a realçar nesta obra é a presença de não um, mas dois protagonistas! Ao contrário do que seria de esperar face à demografia da mesma, a produção é direcionada ao público masculino e feminino. Sendo a narrativa partilhada entre o Yuiji e a Nino, apesar do especial destaque sob a protagonista feminina. A aparente estereotipia das personagens não passa de uma máscara colocada com mestria em personagens moldáveis, que crescem, aprendem com os erros e sobretudo, desenvolvem-se como qualquer adolescente normal. É-nos fornecido um olhar mútuo, ainda que perfeito demais, de como deve ser uma relação entre dois adolescentes.

 

Kyou no Kira-kun

 

Será tudo perfeito?

Não, longe disso. Na realidade presenciamos muito potencial desperdiçado! Todos os elementos e a conjugação dos mesmos, foram criados com uma genialidade única que no final demonstrou-se ficar um pouco aquém do espectro de linhas e ações passíveis de serem exploradas.

As mentes ávidas por drama e progressão de qualidade e rigor, de acontecimentos e relações humanas, esperarão, com certeza, algo mais duro, forte e dramático, com ações, e sobretudo resultados mais realistas. Contudo, a utopia emocional cruza com situações demasiado perfeitas que deixará parte do público desiludido com os acontecimentos decorrentes da linha narrativa principal. Todavia, mesmo os críticos mais ríspidos devem ter em atenção que se trata de uma obra shoujo, de índole maioritariamente leve, onde o objetivo parece ser provar um ponto bastante simples: o diálogo nas relações.

 

Kyou no Kira-kun

 

Arte e Ambiente

Em Kyou no Kira-kun somos invadidos por uma ambiente refrescante de brilho e sobriedade, mesclado com uma “fofura” e beleza que não deixa ninguém indiferente. O traço é simplesmente lindíssimo, as personagens são dotadas de um design personalizado e marcante, que coincide na perfeição com a personalidade de cada um. Além disso, e acentuando uma vez mais a desenvoltura progressiva da obra, também a aparência das personagens altera-se ao longo da história, demarcando o crescimento e decisões das mesmas.

Quanto aos cenários, apesar de não serem muito variados, são meticulosamente desenvolvidos, sendo que poucos são os erros a apontar neste quesito. Os painéis decorativos, caraterísticos da demografia em questão, aparecem, na sua maioria, em segundo plano. Usados como extra narrativo, surgem ligados a um desenho moe das personagens, reforçando a distinção entre a linha principal mais sóbria e os comentários extra preenchidos de corações, estrelinhas e outros elementos decorativos.

 

Kyou no Kira-kun

 

Juízo Final

A beleza e doçura do design servem de cartão de visita para os leitores ávidos por uma nova conquista num mar de shoujos escolares, tão iguais e repetitivos. Felizmente não é só a arte que deslumbra nesta obra, sendo apenas um belo quesito envolvido num mesclado de situações e personagens a mostrarem como se transforma um cliché em algo simples e contagiante.

É fácil convencer o público feminino para a leitura desta obra, contudo, para os mais relutantes, sobretudo do público masculino, relembro que Yuiji assume igualmente o seu papel de protagonista, onde as suas opiniões, pensamentos e decisões são parte integrante da narrativa, fornecendo o outro lado do romance. Tal como todos os jovens da sua idade ele apresenta fragilidades, defeitos e uma máscara não tão perfeita assim, de sentimentos não evidenciados.

Em suma, temos uma narrativa rica e perspicaz, em que situações limite são exploradas em pequenos grandes momentos que nos aquecem o coração e nos fazem desejar também nós estar apaixonados, sermos nós próprios, crescer e sobretudo viver. Não será isso o objetivo de um bom shoujo?

 

Kyou no Kira-kun

 

 

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