Little Witch Academia – O Poder da Magia Feminina

por Tiago Garcia
Little Witch Academia - O Poder da Magia Feminina

Desde 2010 que o governo japonês financia um evento intitulado Young Animator Training Project. Este é feito com o objetivo de incentivar e apoiar jovens animadores emergentes no mercado de trabalho. Em 2013, durante um ciclo melhor conhecido como Anime Mirai, foi revelada a colheita da produção do ano anterior.

Fãs reconhecem este evento pois produziu dois grandes projetos que viriam a suscitar o interesse da comunidade. Primeiro, temos Death Billiards que acabou por resultar num anime completo de 12 episódios intitulado Death Parade. De interesse para o artigo em questão, apareceu a primeira curta-metragem Little Witch Academia. Criado por Yoh Yoshinari, foi animado pela bem conhecida Studio Trigger, que nesse mesmo ano estrearia Kill La Kill. Este anime capturou a imaginação do público, nomeadamente ocidental, que o via como uma resposta japonesa a Harry Potter. Aliado a isto, estava um mundo colorido, dinâmico e protagonistas cativantes.

 

Little Witch Academia – O Poder da Magia Feminina

Little Witch Academia - O Poder da Magia Feminina

 

Apesar da sua excelente receção, não teve um seguimento tão cedo. Foi necessário recorrer a campanhas de promoção e Kickstarter de forma a finalmente dar vida a um filme anime. Finalmente, após o sucesso de Space Patrol Luluco, a Trigger anunciou que iria fazer uma série completa Little Witch Academia. De um total de 24 episódios, conta novamente com a realização do seu criador Yoh Yoshinari. O anime tem como guionista Michiru Shimada e composição musical Michiru Oshimada. A série está atualmente disponível para streaming legal por parte da Netflix em Portugal.

 

Little Witch Academia – Enredo & Temática

Esta história tem como protagonista a jovem japonesa Atsuko Kagari. Conhecida como Akko entre amigos, ela é dona de uma infatigável paixão por magia. Inspirada indelevelmente pela bruxa artista Shiny Chariot, os espetáculos dela eram fonte da sua maior felicidade em criança e procura poder fazer o mesmo na vida adulta. O destino oferece-lhe tal oportunidade através de uma posição como estudante na célebre Academia Mágica de Luna Nova. Akko não consegue conter a sua energia, pois trata-se da mesma escola que a sua ídola frequentou e aprendeu magia. Daí inicia-se o seu primeiro passo na sua carreira como bruxa. Porém, não demora muito para se deparar perante dificuldades. Nomeadamente, encontra obstáculos tais como acesso impossível para quem seja incapaz de voar de vassoura. Isto é exacerbado pela aparente dificuldade da Akko conseguir executar magia, chegando ao ponto de ser incapaz de voar.

 

Little Witch Academia - O Poder da Magia Feminina

 

Felizmente, ela cruza caminho com duas pessoas que irão tornar-se suas amigas inseparáveis e colegas de quarto. Lotte Jansson, uma bruxa finlandesa, é uma pessoa introvertida e gentil com um dom natural de comunicação com espíritos. Procura poder formar-se em magia de forma a herdar e gerir o negócio de família. A completar o trio temos a bruxa filipina Sucy Manbavaran, tendo uma personalidade sardónica e perniciosa. Ela tem uma paixão irredutível por fungos e trabalha incessantemente nas suas poções de efeitos variados.

Ao viajarem através da Linha Ley que acede a Luna Nova, uma reação mágica adversa criada pelas ameixas salgadas da Akko fazem com que o trio de bruxas caia na floresta proibida nos arredores da Academia. Ao tentarem encontrar o seu caminho de volta, Sucy provoca um encontro inoportuno com um gigantesco basilisco.  Durante a subsequente luta, Akko descobre no bosque uma misteriosa varinha mágica.

Incrustada com pedras preciosas representando a constelação da Ursa Maior, ela reconhece-a como sendo a varinha de Shiny Chariot. Com a ajuda de suas amigas e da professora Ursula, que pressentiu as jovens em perigo, Akko invoca um encantamento mágico que lhes permite derrotar o basilisco. O auxílio da professora revela a Akko que esta não só foi colega de Shiny Chariot mas também da existência um maior mistério inerente à varinha. Um mistério que, se resolvido, restaurará magia ao mundo após séculos de declínio. O destino liga-as de tal forma que Ursula torna-se mentora e acompanhante pedagógica próxima de Akko, dado a dificuldade desta última com a matéria lecionada em Luna Nova. Sendo assim, Akko concilia o seu sonho de aprender magia a descobrir o mistério da varinha de sua ídola. Ela acredita que a sua resolução revelará a própria Shiny Chariot, desaparecida há uma década.

 

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Little Witch Academia VS Harry Potter

Esta é uma breve sinopse deste anime e acreditem que é só a ponta do iceberg. Para além dos momentos descritos, seguem-se intrigas sombrias, peripécias mágicas e as intemporais dificuldades da adolescência, neste caso feminina. A nossa comunidade apaixonou-se pela curta-metragem original, delirada pela fantasia de um anime Harry Potter. Felizmente, a série anime tornou realidade esse sonho. Diria até o seu sucessor se formos capazes de mobilizar e divulgar esta obra o suficiente. Trata-se de uma história que cumpre uma necessidade muito específica no nosso zeitgeist cultural. Uma necessidade que nasceu após duas décadas de acompanhar tais personagens inesquecíveis como Hermione Granger, Minerva McGonagall e Luna Lovegood. Uma necessidade de ver o conto de uma academia mágica com um maior ênfase no seu elenco feminino.

Como tal, vemos aqui uma fusão de duas extremamente populares fantasias de crescimento de raparigas jovens. O arquétipo da Rapariga Mágica com a transferência para uma Escola de Magia. O oriente e o ocidente juntam-se para criar uma das mais abrangentes e universais obras feminizadas alguma vez vistas.

Esta obra, Space Patrol Luluco e Kill La Kill demonstram, curiosamente, a perícia inesperada da Trigger em criar não só excelentes e memoráveis personagens femininas mas também histórias e mundos que as circundam de igual qualidade. Oferecendo temáticas e alegorias para as dificuldades de crescimento que outras obras como Neon Genesis Evangelion e Tengen Toppa Gurren Lagann foram capazes de criar para rapazes. Uma coincidência não tão inesperada, sendo a Gainax mãe da Trigger e a temática da obra Gunbuster deste primeiro.

 

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Little Witch Academia – Uma representação feminina de valor

Uma história de como o idealismo inocente de uma jovem é capaz de transformar o mundo. Em oposição à inspiração positiva que Akko vê em Shiny Chariot, a comunidade mágica rejeita-a, adotando um juízo mais elitista. Os espetáculos dela são vistos como efémeros e indignos do ofício mágico. Akko vê outra maneira da magia perdurar. Além de estar em declínio, é estabelecido que, no ambiente sociopolítico deste universo, magia é progressivamente vista como obsoleta.

Em oposição, Akko olha para a magia como uma fonte de felicidade e esperança, capaz de galvanizar o espírito humano. A alternativa de Akko serve de fulcro para uma mensagem de optimismo e dinamização que a juventude pode contribuir, sem estar presa por prejuízos institucionais. A ideia de estagnação e redenção social e institucional é um tema central desta obra que, sem revelar muito, é explorada de várias perspetivas, não só no mundo mágico.

Porém, não podemos esquecer que esta é uma história acerca de raparigas jovens em geral. Em parceria com a caracterização rica e cativante de Akko, o mesmo extende-se a todas as suas colegas. Little Witch Academia é exemplo tipo de como a escolha de um elenco mais diverso não só é uma escolha viável, mas muitas vezes necessária para fornecer a representação artística necessária do público feminino. Não existe qualquer tipo de dúvida que cada nova cara que aparece neste anime é uma personagem distinta e interessante.

Cada uma representando uma personalidade nova na qual qualquer jovem se pode-se inserir e fantasiar. Além das breves descrições apresentadas no trio principal acima, temos ainda a disciplina e bondade da Diana Cavendish, a bravura e ousadia de Amanda O’Neill, a dedicação e habilidade de Constance Albrechtsberger, o espírito maternal e melancolia de Ursula e a visão e implacabilidade de Croix Meridies.

 

Little Witch Academia - O Poder da Magia Feminina

 

Esta heterogeneidade de qualidades ocorre em contraste com uma certa negatividade que borbulha no mundo à sua volta. É feito um comentário bastante contemporâneo acerca dos efeitos dessa negatividade e maldade. Varia desde algo tão íntimo como toxicidade digital, uma escolha de tópico não só extremamente relevante no nosso presente mas também uma particular fonte de injúria para a mulher que procura integrar-se em vários espaços digitais, para algo de mais abrangente como a animosidade e ódio internacional que envenena os nosso líderes e os povos da qual são responsáveis. Também, curiosamente, parece tomar como objeto temático a celebração da cultura e literatura YA (Young Adult) de fanfic de jovens raparigas. Uma escolha, possivelmente presciente, que rejeita o vitriol naturalizado muitas vezes apontado a objetos culturais feitos explicitamente por e para esse grupo consumidor.

 

Little Witch Academia – Ambiente & Estética

Sendo este um anime Trigger, o realmente surpreendente seria não louvar a sua animação. Seguindo o exemplo de produções anteriores, Little Witch Academia desfruta de uma perícia de animação e design que poucos igualam.

A animação fluida e dinâmica, as personagens de designs simples e distintos e cores primárias proeminentes associadas a efeitos visuais e luminosos estão de volta. Desta vez, este molde é exemplarmente adaptado para construir um panorama tanto fantástico como familiar. Um ambiente que invoca o romantismo da velha Europa, sendo a própria Academia um estabelecimento remanescente da fusão de um castelo com um solar. A meu ver, encosta um bocado mais para a direita da escala temporal. Em vez de ser simplesmente medieval, parece sugerir mais um ambiente mais adequado ao séc. XIX. Uma excelente decisão para nós fãs portugueses cujo património histórico exibe proeminente tais características.

 

Little Witch Academia - O Poder da Magia Feminina

 

Little Witch Academia – Magia vs Tecnologia

Porém, este anime, inteligentemente, parece circundar uma recorrente crítica que Harry Potter sofre, especialmente com a marcha dos tempos. Especificamente, a sugestão de que o mundo mágico parece ser irrealisticamente dissociado do mundo moderno, sem qualquer tipo de contacto com tecnologia. Neste mundo, tecnologia tem, de facto, um impacto observável e omnipresente.

Como foi sugerido acima, o mundo contemporâneo e o mundo mágico coexistem sem qualquer tipo de segredo. De tal forma que se torna progressivamente claro que a magia trata-se de uma forma mais complicada de realizar coisas infinitamente mais simplificadas por tecnologia. A inclusão deste último elemento não só permite construir uma fantasia com a qual o espetador atual sinta maior ligação, mas também explorar tanto tematicamente como visualmente a ideia de misturar magia com tecnologia. Ainda para mais uma magia assolada de limitações e um agoiro de extinção.

Aliada a este papel tecnológico está o mundo exterior a Luna Nova. Aquilo que coloquialmente designaríamos como o mundo dos muggles também tem relevância para a história a ser contada. É explorado o contraste entre estes dois mundos distintos que parecem distanciar-se com os anos. Não é abandonada a questão do papel da magia num ambiente que cada vez mais a vê como inútil. Trata-se de um acontecimento interessante, ver como os seres e habitantes do mundo mágico lidam e reagem perante tal indiferença. Além disso, serve para imergir o espetador neste mundo que o faz, novamente, acreditar numa altura da sua vida que, ao contornar a esquina, jaz algo de realmente mágico e fantástico para descobrir. Com as suas regras e nuances, aberta à aprendizagem aos dedicados e apaixonados por todos os seus mistérios e potencialidades.

 

Little Witch Academia - O Poder da Magia Feminina

 

O anime também faz questão de construir um ambiente de positividade e optimismo na face de um futuro incerto e sombrio. Sendo esta uma história acerca do processo de aprendizagem e crescimento de jovens, são apresentadas histórias e alegorias acerca de como as expectativas da sociedade, a rigidez da tradição e a malícia dos ocultos afeta e destrói os sonhos, desejos e paixões de várias personagens no decorrer da história. O dia é, muitas vezes, salvo pelo apelo ao idealismo e perseverança da pessoa afetada para prosseguir com a sua vida, livre dos grilhões de terceiros. Através de um forte sentido de propósito, paixão e dedicação infatigável estas personagens são capazes de ultrapassar as suas dúvidas e contribuir para um futuro mais luminoso. Uma variedade de contos inspiradores de como o idealismo serve de um farol valioso na mais brava tormenta do desespero.

 

Little Witch Academia – Conclusão

Através do exposto acima, espero ter convencido o leitor do mérito e valor de assistir a esta excelente obra. Muitas vezes a comunidade dedica-se a experiências de pensamento na qual pondera e imagina anime a reinterpretar temas e histórias já bem desenvolvidas no Ocidente. O raro ocorre quando tal desejo se realiza. Tal é o caso com Little Witch Academia, materializando e cumprindo desejos já de longa data no fandom ocidental. É através deste esforço e diálogo cultural que podemos ver ser realizado o potencial máximo de uma ideia. Um anime digno de entrar na categoria de obras como Cowboy Bebop, The Vison of Escaflowne e Lupin III. É para obras como estas que vale a pena ser fã deste mundo. A Trigger, mais uma vez, prova-se como uma das grandes vozes em anime e detentora de um espírito artístico inigualável. Talvez até surpassando a sua mãe, a Gainax.

 

Little Witch Academia - O Poder da Magia Feminina

 

É por causa de histórias como estas e o zelo para a criação de semelhantes que anime tem o privilégio de contar com uma dedicação feminina tão grande. Apesar de ainda termos uma extensa batalha contra o fan service desmedido, podemos encontrar consolo na contínua presença destas obras. Um exemplo para os outros cantos artísticos do triunfo da diversidade e inclusão feminina na ficção. Como reitera a Akko, crença é a nossa magia e acredito na mensagem e visão desta obra. Espero que esta franquia perdure e encontre o sucesso que tanto merece mundialmente. Apelo a todos que ainda não tenham tido o prazer que o vejam e, espero eu, encontrem um conto mágico.

 

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