Ohitorisama e a vida a sós dos Japoneses

por Mariana Marques
Ohitorisama e a vida a sós dos Japoneses

Os cidadãos japoneses estão cada vez mais a afastar-se da mentalidade de grupo e a desfrutar de atividades a solo. Num país onde a sociedade está cada vez mais envelhecida, existe um aumento de turismo e a tecnologia está mais desenvolvida que nunca, mudanças começam a surgir geradas pela geração mais jovem – a geração J.

No passado, ser visto a comer sozinho num local público era considerado tão embaraçoso que muitos japoneses optavam por comer as suas refeições nos cubículos de casa de banho. A ideia de ser visto como uma pessoa sem amigos foi o que originou o “benjo meshi”, ou em português “almoço de casa de banho” ou “almoço de retrete”.

 

Ohitorisama e a vida a sós dos Japoneses

Ohitorisama e a vida a sós dos Japoneses

(Créditos: Shiho Fukada e Keith Bedford)

 

Mas atualmente essa mentalidade está a mudar de forma drástica. Miki Tateishi é uma barwoman em Tóquio, num bar no distrito de vida noturna de Shinjuku, chamado Bar Hitori, o qual é indicado para beber algo a solo. O Bar Hitori abriu em meados de 2018 e apresenta uma oportunidade para o cliente poder sair e beber sozinho. Esta iniciativa aparenta ter resultados, já que invés de se esconderem num cubículo, as pessoas estão a aceitar serem vistas sozinhas em público.

Tateishi afirma que as pessoas têm motivações diferentes. Algumas podem querer estar sozinhas enquanto outras querem construir novos laços e relações. Esta barwoman acredita que política a solo do bar incentiva potenciais clientes que desgostem de grandes multidões a visitá-lo. O estabelecimento acomoda 12 pessoas e a sua atmosfera relaxada com o álcool permite aos clientes interagir com facilidade.

Cliente do Bar Hitori, Kai Sugiyama de 29 anos, afirma que este fenómeno é raro. Este trabalhador de uma empresa de fabricação crê que as pessoas japonesas estão tão habituadas a viver em grupo, que existe um desejo de realizar atividades com outras pessoas.

 

Não temos o hábito de fazer coisas sozinhos”- Kai Sugiyama

Ohitorisama e a vida a sós dos Japoneses

(Créditos: Shiho Fukada e Keith Bedford)

 

O bar Hitori, cujo o nome significa “1 pessoa”, não é o único exemplo de como os negócios estão a mudar para acomodar as novas necessidades das pessoas. Desde de jantar, vida noturna e até mesmo viajar, novas opções estão a surgir para aqueles que querem algum tempo a sós. Este movimento, intitulado de “ohitorisama”, identifica as pessoas que escolhem fazer atividades a sós sem se importarem com as opiniões de terceiros. Este termo tem tido um movimento forte nas redes sociais, a hashtag como o mesmo nome apresenta no Instagram fotos de pratos únicos em restaurantes ou corredores de cinema para demonstrar as aventuras solitárias destes indivíduos. Nos últimos 18 meses cada vez mais pessoas têm declarado o seu tempo a sós nos média de notícias e nas redes sociais.

Uma das refeições típicas dos japoneses, “yakiniku” ou carne grelhada, tipicamente comida num restaurante com um grupo de pessoas a cozinharem numa grelha a sua carne, já se acomodou ao cliente único que vai desfrutar desta refeição sozinho, “hitori yakiniku”.

Até o karaoke, um passatempo clássico, tornou-se solitário devido à subida de pedidos pelo serviço na ordem dos 30 a 40% dos clientes. Em vez de salas para acomodar grandes grupos, agora 1Kara apresenta quartos do tamanho de cabines de estúdios de gravação.

 

Sessão de Karaoke Solo no Japão

(Créditos: Shiho Fukada e Keith Bedford)

 

No Japão onde as atividades de lazer e refeições são partilhadas, “ohitorisamavem abalar a tradição. Apesar de noutras culturas atividades a solo serem consideradas normais pela sociedade, num país guiado por conformidade e ser parte de um grupo ser altamente valorizado, esta mudança de comportamento é chocante.

Motoko Matsushita, consultora económica do Instituto de Pesquisa Nomura em Tóquio, afirma que a pequena dimensão do país implica a existência de uma maior necessidade de coexistir em harmonia. Matsushita diz ser este o principal fator da inclusão em grupos. Ela afirma que, com o crescimento das redes sociais, o número de amigos e likes dita o valor do individuo, o que levou a pressão de pares e estigmatização de ser visto sozinho. O crescimento de “ohitorisama”, segundo Matsushita, é o resultado destas interações do passado.

Benjo meshi”, termo que surgiu em 2008, acontece não pelo o gosto de estarem sozinhos, mas sim pelo medo da opinião que os colegas possam ter acerca da solidão destes. Mas as mentalidades estão a mudar e as conotações negativas acerca de estar sozinho reduziram.  Até a pressão social de casamento e filhos está a diminuir. Num inquérito foi revelado que cada vez mais pessoas acham que não faz mal divorciarem-se quando têm crianças, ou que escondem um segredo do companheiro.

Outro fator são as mudanças demográficas. A baixa natalidade e o baixo número de casamentos estão a influenciar o crescimento de lares de uma pessoa, tendo subido 10% entre 1995 e 2015.

Segundo Kazuhisa Arakawa, um invesigador de Hakuhodo, o poder económico das pessoas solteiras não pode mais ser ignorado e que o mercado não irá crescer sem capturar este público alvo.

Erika Miura tem 22 anos e trabalha no setor tecnológico. Ela é uma habitual no Bar Hitori e afirma que é das únicas no seu círculo social que aprecia fazer tantas atividades sozinha, incluindo até mesmo esquiar ou ir ver filmes. Miura afirma sentir liberdade desta forma e que em Tóquio existem muitos serviços a solo.

 

Erika Miura bebendo sozinha no Bar Hitori

(Créditos: Shiho Fukada e Keith Bedford)

 

Não são só os solteiros que desfrutam de tempo a sós. Uma em cada três pessoas casadas realiza atividades a solo, tal como viajar. No caso de solteiros mais velhos, Matsushita afirma que as mulheres deste grupo apresentam uma “resistência psicológica” ao serem vistas sozinhas, mas acredita que a geração mais jovem vai abrir portas para mudanças, especialmente porque os profissionais de marketing de serviços a solo sabem que os pensionistas são uma demografia que dispõe de tempo e dinheiro.

Diversos países também estão a passar por mudanças semelhantes, devido ao declínio de natalidade e ao aumento da idade de casar, levando assim a que muitas pessoas procurem viver solteiras.

“Uma sociedade super a solo” é caraterizada por pessoas jovens que nunca se casam e pessoas idosas recentemente viúvas. Este é o futuro de várias nações.

Antes de ser barwoman, Tateishi era cliente do bar, portanto compreende o sentimento de conectividade com os demais que advém de conhecer outras pessoas que fazem a atividades a solo.

 

Para pessoas que costumavam estar apenas em casa, elas podem mudar-se a si próprias ao construir uma comunidade fora do lar. Elas vêm que o mundo está a mudar.” – Miki Tateishi

 


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Fonte: BBC

Imagem de destaque por: mm

 

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