Owari no Seraph | Análise

por Raquel Cupertino
owari no seraph

Owari no Seraph | Opening

SawanoHiroyuki e Gemie – “X.U.”

 

Owari no Seraph | Enredo

Baseado no manga da autoria de Takaya Kagami (criador de Densetsu no Yūsha no Densetsu, Itsuka Tenma no Kurousagi) e arte de Yamato Yamamoto, Owari no Seraph narra a história de um mundo onde um vírus desconhecido mata toda a população humana, com a exceção das crianças menores de 13 anos. Essas mesmas crianças terminam escravizadas por vampiros, sendo reduzidas a meros depósitos de sangue. Yuichiro Hyakuya é o único humano a escapar vivo da Cidade dos Vampiros e possui um só objetivo: tornar-se forte o suficiente para destruir todos os vampiros.

 

owari no Seraph

 

Como é claro, a humanidade não foi extinta, em vez disso somos embrenhados num ambiente apocalíptico onde a humanidade persiste graças a forças especiais criadas para aniquilar as ameaças à raça humana. Yu embarca assim numa aventura caótica, dividido entre a vontade de proteger o que lhe é querido no presente, e a vingança contra a morte provocada pelos sangue-sugas, no passado.

 

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Premissa – a chave para o sucesso?

Um mundo onde vampiros e humanos tentam coexistir sem êxito, onde a escravatura de proteção a troco de sangue assume-se como consequência final, e cabe aos novatos prodigiosos fazer a diferença num mundo completamente destruído – será preciso acrescentar algo mais para realçar a iminência do sucesso? A escolha da Wit Studio como produtora parece-me a peça final na receita para o sucesso.
A azáfama regida pelo desejo intrínseco de mais um shounen perpetuou-se nas vontades dos espetadores de ambos os sexos. No entanto, à medida que a série foi saindo, as opiniões começaram progressivamente a divergir.

Terão sido os espetadores defraudados?

 

Owari no Seraph

 

A premissa apesar de pouco original, possui o conjunto de diretrizes fulcrais para um sucesso fácil e imediato. A sedução proveniente do conflito entre duas fações tão distintas e interessantes, garante à obra um potencial narrativo mais que suficiente para criar algo forte e coeso. Contudo, quando espetadores mais exigentes e experientes são confrontados com a explosão de informação, o fanservice yaoi, e personagens-tipo recheadas de conversas repetitivas, perdem o interesse inicial.

O potencial latente na obra é indiscutível. O enredo é, no panorama geral, interessante. Há mistério, política e hierarquias militares que fomentam os alicerces da obra enriquecendo-a em substância, como só uma obra com cariz bélico poderia oferecer. É fácil ser-se cativado pelas pequenas linhas narrativas que são progressivamente instaladas, tais como a família Hiiragi e os contornos da criação da “Cursed Gear“. Contudo, cair no cliché é algo fácil, sobretudo quando o objetivo primordial da obra é o de agradar às massas.

 

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A má gestão narrativa contaminou o primeiro contacto com a obra como se de um verdadeiro vírus se tratasse. Num trampolim de sensações e cargas dramáticas muito pouco aproveitadas, os momentos cénicos de desenvolvimento obrigatório acabaram negligenciados face à necessidade forçada de expor mais um pouco todo o universo. Um momento claro é quando é introduzido o passado de Yu, mais informação, mais quebra narrativa, sobre algo que merecia o seu devido destaque noutro episódio. E a injeção continua até todos os protagonistas marcarem presença no campo de batalha, para por fim poder-se desenvolver algo mais coeso e progressivo.

 

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Personagens – o flagelo de Owari no Seraph

Após a introdução dos personagens, a história começa por fim assumir contornos cativantes, que apesar de clichés, foram seguramente ótimas escolhas para garantir uma nova temporada. No entanto, à medida que o enredo começava a abrandar, a garantia que as personagens não passariam de algo bi-dimensional, de fácil ligação, sem conteúdo e forma diferencial, foi-se tornando como certa. Numa premissa pesada e caótica, seria expectável personagens com personalidade distinta, que marcassem pela diferença e que sobretudo se destacassem enquanto protagonistas. Em contrapartida, recebemos um protagonista cliché, com uma personalidade fechada justificada pelos eventos passados, mas tão infantil e de temperamento explosivo, que nada foge aos demais protagonistas shounen. Para piorar, constatamos um carinho/relação dúbia fomentada pelo fanservice, entre este e o suposto antagonista, Mikaela.

 

Owari no Seraph

 

A rutura do cliché neste quesito assenta, por ironia, na protagonista feminina da história, Shinoa. A personalidade, poder, experiência em combate e mistério conceberam com distinção a pérola salvadora do elenco de protagonistas. A ironia, sarcasmo e comédia inteligente providas pela mesma, dão alento e divertimento a um conjunto tão modesto de personalidades. Os restantes personagens possuem as características dos demais personagens-tipo shounen, o tímido e bondoso Yoichi, o obstinado, inteligente e “durão” do grupo Shiho, e a tsundere feminina de serviço, Mitsuba.

 

Owari no Seraph

 

Em tom de remate final, realço uma das situações que mais me irritou enquanto espetadora: a falta de sentido de oportunidade narrativa.

Vai ser agora! Só que não…

Posso admitir que esta será, possivelmente, das frases mais proferidas por quem já possui no seu reportório um número significativo de obras shounen. Os momentos de grande êxtase, fulcrais para demonstrações de poder, união e afirmação de coesão de equipa, são sucessivamente mal aproveitados. Há inclusive uma cena altamente oportuna para demonstração do poder de equipa dos nossos protagonistas que é literalmente “passada à frente”, mostrando o resultado óbvio em vez da promissora batalha.

 

Owari no Seraph

 

Owari no Seraph | Ambiente

Apesar de pouco experiente no ramo, a Wit Studion sustenta obras de elevado calibre no seu reportório, entre elas o célebre Shingeki no Kyojin. Como tal, fazia-se esperar um derradeiro espetáculo cinematográfico, enriquecido por um ambiente polido e um design magnífico, com as mais requintadas técnicas de produção e com toda a substância visual que é possível criar. Todavia, foi exatamente este um dos pontos mais desfalcado.

Nos pináculos de qualidade da animação, somos contemplados com cenas polidas, brilhantes, de um rigor e transparência muito próximos do real, tendo enfim um deslumbre do que este estúdio é capaz de produzir em questão de ambiente e personagens orgânicas. Infelizmente tais momentos, não só eram raros, como seguidos de um contra-senso de qualidade visual. Cenários estáticos maravilhosamente esculpidos em tons pastel, negro e escarlate, onde as personagens se moviam como se não pertencessem ao ambiente envolvente. A imersão passível de ser conquistada pela animação, era assim cortada pela sensação de assistirmos a uma peça de fantoches em vez de um anime consistente e regular como um todo.

 

Owari no Seraph

 

Para piorar, a obra foi alvo de censura, que apesar de ligeira, amenizou cenas de elevado cariz dramático, essenciais para a imersão no universo de Owari no Seraph. O clímax final merece o seu devido louvor, quer narrativo quer visual, sendo atingido com um primor de animação de suster a respiração. O ambiente frenético conseguiu acompanhar a narrativa, as sequências tornaram-se ainda mais fluídas e coesas.

 

owari no seraph

 

A banda sonora, apesar de inicialmente passar despercebida, lentamente destaca-se na obra como uma das suas melhores criações. A sonoridade forte, reproduzida por sons épicos, produziu o seu devido efeito nas batalhas e episódios mais emotivos. A originalidade e consistência entre as melodias causou progressivo impacto, sobretudo à medida que se aproximava o clímax narrativo. O opening possui ainda uma das músicas mais aclamadas pelo público.

 

Owari no Seraph

 

Owari no Seraph | Juízo Final

Os sentimentos em torno de Owari no Seraph são por si só, um misto entre desejo de assistir, perplexidade face aos acontecimentos (bons ou maus) e uma irritação contida a cada momento de fanservice yaoi. A obra possui bons elementos narrativos, no entanto para além de não saber jogar com os mesmos, assume-se pouco experiente na elaboração e apresentação de um universo que desejar-se-ia imersivo e envolvente. O potencial latente em Owari no Seraph é imenso, e após constatar o crescendo de qualidade nesta primeira temporada, tenho esperança que o trambolhão de acontecimentos inicial venha a ser progressivamente trabalhado e melhorado numa segunda temporada, tal como se revelou mais para o fim desta.

O ambiente não é o melhor que a Wit Studio produziu, sem dúvida que ficou muito aquém do desejado, ainda assim é de qualidade suficiente para tornar agradável a sua visualização. No entanto, não aconselho a sua visualização apenas com o intuito de ver um festim para os olhos, pois não será isso que vão presenciar.

Em suma, esta é uma obra que agradará à maioria das pessoas. Possui sequências de batalha interessantes, personagens de fácil ligação e um universo cativante e repleto de mistérios, ou seja a receita ideal para as massas. Se possuírem um gosto particular por “shippar” personagens esta é então a vossa obra de eleição! É feita para cultivar fãs de raiz e agarrá-los com convicção.

Se por outro lado, a exigência por coesão e construção narrativa forem os vossos quesitos de seleção, se desejarem algo inovador em personagens e exposição de premissa, podem adiar a produção por tempo indeterminado nas vossas listas de backup.

 

Owari no Seraph | Trailer

 

Um alerta a quem decidir iniciar Owari no Seraph: o opening contém um dos spoilers mais flagrantes de toda a obra, pelo que não vos sugiro vê-lo antes do episódio número 4.

 

 

 

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