Primeiro Amor – Uma Noite de Peripécias por Takashi Miike

por Pedro Costa
Primeiro Amor destaque

Entre tantas coisas que esta pandemia tirou ou limitou o acesso, uma delas que me afectou particularmente foi a de experienciar filmes no cinema. E, mesmo quando foi possível regressar às salas, fui presenteado com o meu cinema local em obras sem data prevista de conclusão.

Esta é uma introdução longa demais para agradecer à Alambique Filmes e à Filmin por me possibilitarem o mais próximo que tive de uma experiência cinematográfica este ano.

 


Mas, antes de passarmos para o artigo, participem no nosso giveway e habilitem-se a ganhar código de visualização de Primeiro Amor na FILMIN:

 


 

 

Primeiro AmorUma Noite de Peripécias por Takashi Miike

 

Sinopse:

Os yakuza, a tríade Chinesa, um polícia corrupto, tráfico de droga e uma jovem em apuros intersectam a vida de um promissor pugilista, culminando numa noite marcante, sangrenta e… estranhamente hilariante!?

 

Não optei por uma sinopse mais pormenorizada porque quero que vejam o filme quase “às cegas”. Mantendo esta linha, a fim de sublinhar a minha absoluta recomendação, vou falar um pouco sobre o realizador Takashi Miike, sobre algumas das personagens que devem ter debaixo de olho e sobre a forma como se desenrolam as cenas de confronto/combate no filme.

 

primeiro amor_first love_filme japones de takashi miike_poster oficial

‘First Love’ de Takashi Miike

 

Primeiro Amor – o efeito Miike:

Se quando assisti a Audition cimentei o meu fascínio e curiosidade pela criativa mente de Takashi Miike, com Primeiro Amor confirmo-me como fã dedicado a ver todo o seu catálogo.

É verdade que ainda estou verde no que ao mestre concerne, mas sem dúvida que a sua sensibilidade em muito contribuiu para a conjugação de factores que tornam este filme num must see. Ainda que com poucos dos seus filmes na minha mente, já consigo antecipar elementos que fazem parte do seu cunho pessoal e é com alegria que os vejo presentes em Primeiro Amor, assim como um lado que eu não esperava (claramente por ignorância minha): conjugar o seu “apetite por sangue” com comédia.

A “carnificina” que povoa a filmografia de Miike-sensei é amplamente conhecida e, até eu como novo fã, já conto com ela como uma espécie de “caldo de ramen“. Estranha analogia eu sei, mas tal como o caldo, vejo a violência ou aspecto sangrento das obras do mestre como uma parte unificadora das suas narrativas, algo que equilibra as suas histórias e até permite que elementos individuais ganhem outro, bem… “sabor”.

Em Primeiro Amor isso não é excepção e, embora o impacto desse tipo de cenas continue bem patente, irrepreensivelmente capturado em câmara, não existe tenebrosidade associada, mas sim risos, gargalhadas e uns quantos fuck yeah – como aquela cena da Julie (quando virem o filme saberão ao que me refiro).

Aliás, esta emulsão entre comédia e outro elemento aparentemente oposto é igualmente visível noutras instâncias, particularmente no que toca a Monica e à sua “assombração”. Numa cena parece que estou novamente a ver Audition e noutra, com a adição de um pequeno twist, já me estou a rir e a “dissipar a perturbação” que me afligia, tal como acontece como a personagem em questão.

 

Takashi Miike

 

Primeiro Amor – No acidental é que está o ganho!

Tal como seguramente muitos de vós, adoro um bom filme de artes marciais – o standard de filmes com cenas de luta bem coreografadas – aos quais se seguem filmes de acção com elementos de luta, que fazem bom uso do espaço ao seu dispor, e alternam entre o uso de armas e punhos. Mais, uma boa geometria de combate e uma boa coreografia não têm que resultar necessariamente em algo super polido, com flow ímpar e repleto de move e counter-move.

Uma boa cena de combate pode retratar algo que a vida real tem bastante… aleatoriedade, imprevisibilidade e a inata capacidade humana de “meter os pés pelas mãos”. Este tipo de confrontos são uma das pedras basilares que fazem deste um grande filme de acção-comédia. Um objecto que salta da mão, um tiro acidental, uma testemunha inesperada… e muito mais. As lutas são caóticas e muito engraçadas na sua estranheza, apesar da evidente e crua violência que estamos a assistir (sei que isto pode não fazer muito sentido até verem o filme – pelo menos assim espero). O filme tem ainda tempo para parodiar clássicos elementos de confrontos em filmes que envolvem máfia e polícia: standoffs e embates “épicos” que parecem durar uma eternidade.

É caso para dizer que a Lei de Murphy está bem viva neste filme, e as cenas de acção espelham isso mesmo!

 

 

Primeiro Amor – Fiquem de olho em….

Como uma história não vive sem personagens, está na altura de falar de algumas delas. De sublinhar que, no geral, gostei da performance de todos os actores de uma forma ou de outra. Ainda assim quero aqui destacar essencialmente quatro, uns pela relevância narrativa e outros por puro magnetismo e capacidade para me fazer rir, vibrar e apoiar.

 

Leo Katsuragi – O nosso protagonista que mais parece ter sido moldado a partir de um protagonista de battle shonen: abandonado no lixo pelos seus pais, um prodigioso pugilista que luta sem qualquer força motivadora a não ser por ser a única coisa que sabe fazer. O que lhe falta é isso mesmo, algo pelo qual lutar, algo que dê algum significado à vida. Parece mesmo um arquétipo de personagem, mas mais não se lhe exige para o caso, já que o enredo se desenrola numa única noite e ele existe não apenas para dar sentido ao tema geral do filme, como para ser a nossa “tela em branco” na qual o espectador se insere. Ainda assim, não deixa de ter os seus momentos de brilhantismo, sobretudo quando começa a ser um agente de acção na sua própria vida.

 

Yuri/Monica – A donzela em apuros. Claro que a narrativa envolvendo yakuza, tríades, droga e o bairro de Kabukichou, a donzela não iria preencher um molde tão típico como o de Leo, embora ainda se notem algumas parecenças com vítimas em filmes bem mais sérios e perturbadores. Viciada em metanfetaminas e oscilando entre períodos de moca ou ressaca, que é acompanhada por poderosas alucinações, Monica vive uma vida miserável que envolve ter que vender o corpo para pagar as dívidas do seu pai, enquanto é perseguida pelo seu horrível passado. Perfeita para ser galantemente salva pelo nosso herói não parece? Mesmo assim, tal como com Leo, pelo meio dos clichés à espaço para Yuri ser uma personagem única para este filme.

 

Nota: a ter que apontar algo mais negativo ao filme, seria a falta de tempo para caracterizar melhor estas duas personagens sem se recorrer em larga medida a tropes narrativas já muito usadas.

 

Primeiro Amor - Leo e Yuri

 

Julie – Provavelmente a minha personagem favorita no filme. Claramente com um problema de raiva, Julie não esperava de todo que esta noite corresse como correu, sobretudo tendo em conta o destino do seu namorado, o traficante Yasu. O que adoro na personagem é que, em vez de desesperar, Julie decide canalizar o seu desespero em raiva, e a raiva em killing intent e parte em busca do maior causador da sua dor e ai de alguém que se atravesse no seu caminho. Vai-te a eles Julie!

 

Primeiro Amor - Julie

 

Kase – Um yakuza da nova geração que decide fazer negócio paralelo à custa da sua própria organização. Se este jovem ambicioso pensa que o seu plano é simples e infalível, está redondamente enganado e vê-lo contorcer-se e perder a compostura à medida que as peças do seu dominó começam a cair para os lados errados, é não só hilariante como hipnotizante. Mais do que ver se Leo conseguirá completar o seu arc e salvar Yuri no processo, queremos ver em que culminará o caos despoletado por Kase e de que maneira macabra, hilária, ou ambas, o yakuza-kun vai terminar.

 

Primeiro Amor - Kase

 

Primeiro Amor – Pensamentos Finais

Para concluir a minha apreciação a Primeiro Amor, está na altura de falar um pouco do título do filme. Isto é puramente especulação minha e eu a pensar em “voz alta”, mas não esperem romance neste filme. Pelo menos não explicitamente. E, mesmo falando implicitamente, creio que tal só pode ser inferido após a conclusão da “jornada de herói” de Leo.

Mais do que um romance clássico, vejo a decisão por este título intimamente ligada ao vazio que o nosso protagonistas tem na sua vida, e que está na raiz da sua jornada pelo mundo do boxe. A frenética noite em Tokyo mexe com a vida de várias personagens, mas, internamente, não há personagens que sejam mais tocadas pelo caótico serão que Leo e Yuri. E, sem estragar o vosso futuro visionamento do filme, é nesta mudança interna que creio se encontrar o “primeiro amor” de Leo.

Peço desculpa por ser um tanto quanto vago, mas é pelo vosso bem!

Resumindo e concluindo, Primeiro Amor é comédia, acção e ainda arranja espaço para ser, no meio de todo o furacão de drogas, violência e sangue, uma mensagem de esperança de que numa noite a tua perspectiva pode mudar e o rumo que procuras pode estar “ao virar da esquina”.

 

Espero que assistam e disfrutem tanto quanto eu!

 


E, por falar em assistir a Primeiro Amor, podem fazê-lo através da FILMIN a partir de 24 de dezembro!

Ficará igualmente disponível no mesmo dia nos videoclubes das televisões (MEO, NOS, NOWO e Vodafone).

 

Por outro lado, se estiverem na zona de Lisboa, poderão assistir ao filme no Cinema Ideal, a partir de hoje, 17 de dezembro!

First Love de Takashi Miike com nova Data de Estreia em Portugal


 

1 comentário


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1 comentário

Leandro santos 19 Dezembro, 2020 - 2:02

o texto representa bem o quanto gostas do mestre, como o quanto adoraste o filme. e claro, eu fiquei bastante curioso para o ver e como se dá a mistura de vários géneros

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