Promare – entrevista ao diretor Hiroyuki Imaishi e ao guionista Kazuki Nakashima

por Beatriz Ribeiro
PROMARE - Filme Anime revela Dia de Estreia |

Em 2019, no Festival Internacional de Filmes em Tokyo, Richard Eisenbeis teve a possibilidade de conversar com o diretor Imaishi e com o guionista Kazuki Nakashima sobre o último anime por eles produzido, o exuberante filme de ação de luta contra as chamas, Promare.

Nota: Esta entrevista contém spoilers para o filme Promare!

 

Promare – entrevista ao diretor Hiroyuki Imaishi e ao guionista Kazuki Nakashima

 

Promare – entrevista ao diretor Hiroyuki Imaishi e ao guionista Kazuki Nakashima

 

A tradução desta entrevista é apenas possível graças ao trabalho de Richard Eisenbeis, que a realizou e disponibilizou através do site Anime News Network.

Promare é a história de Galo, um bombeiro, e de Lio um jovem com habilidades pirotécnicas. Começando como inimigos mortais, as duas personagens aprendem a olhar para além dos seus preconceitos de forma a ver o mundo tal como ele é. O filme contém ainda cenas de luta com uma gradação de cores um tanto florescentes onde um mecha, modelado a partir dos tradicionais bombeiros japoneses, enfrenta uma armadura piratécnica que monta uma mota feita de fogo sólido.

Por outras palavras, algo que se esperaria do duo de escrita/ direção por detrás de clássicos da animação japonesa, tais como Gurren Lagann e Kill la Kill.

As origens de Promare remontam a alguns anos atrás quando o duo pensava como iria ser o próximo anime a realizar. Apesar do par ter feito diversos animes para TV no passado, eles queriam fazer algo de diferente e novo:

 

“Nós pensamos que gostaríamos de fazer um filme como novo projeto. Tendo em consideração o tema do filme, olhamos para as coisas que nos interessavam e pensamos ‘e que tal formas de vida de chamas?’’” – guionista Nakashima.

 

Burning Rescue vs Mad Burnish

Rapidamente, surgiram os conceitos de Burning Rescue (Equipa de Resgate) e os Mad Burnish, bem como as personagens principais, Galo e Lio. “É acerca de um grupo de pessoas que conseguem produzir fogo, contra aqueles que conseguem apagar esse fogo”, explica Nakasima.

“Mesmo assim, pensei que era um pouco cliché ter as personagens que controlam as chamas enquanto personagens de ‘sangue quente’, sendo as personagens que apagam essas chamas de ‘sangue frio’, e por isso inverti estes aspetos”. É por isso que Galo é tão fogoso no seu temperamento e o Lio muito sério e reservado.

 

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Mas não são apenas as personagens que destacam Promare: o anime é igualmente um espetáculo para a vista, devido em grande parte, à escolha de cores fluorescentes. Escolhidas pelo designer de personagens Shigeto Koyama, as cores foram inspiradas, não por trabalhos prévios do estúdio Trigger, tais como Gurren Lagann e Kill la Kill, mas por um dos trabalhos pré-Trigger que Imaishi realizou : “Eu estava a falar com Koyama e pensamos no meu projeto anterior Panty & Stocking, que tinha um estilo mais cartoon. Nós pensamos que fazer algo com um sabor semelhante esse utilizando animação 3D poderia ser uma boa escolha. Realizamos um teste de imagem e fui surpreendido”, Imaishi riu-se “Até me doíam os olhos”.

 

Chamas que vêm de outro mundo – Explicação do Color Design

Apesar disso, a peculiar escolha de cores berrantes não veio de Koyama mas sim, do artista de image board do filme: a ideia de fazer o fogo dos Burnish verde e roxo. “Foi importante para nós que as chamas não se parecem com fogo normal amarelo e vermelho”, Imaishi desenvolve. “As chamas de antes, ou seja, as chamas enquanto formas de vida que vieram para a Terra, seriam obviamente diferentes”. Mais tarde, Imaishi viu o teste de imagem das chamas verdes e roxas, referindo: “Eu senti que o visual era correto, que se parecia com o que eu imaginava como sendo chamas que vêm de outro mundo”.

 

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É claro que isto apenas se aplica ao fogo feito pelos Burnish, Imaishi salientou: “O fogo normal existe à mesma e irão reparar que não tem triângulos quando arde [como tem o fogo dos Burnish]”. Este é um aspeto subtil para a natureza alienígena do fogo Burnish, que o visual conta muito antes de ser revelado no filme.

Formas básicas tais como triângulos, anteriormente mencionados, são constantemente utilizadas ao longo da história para dar uma pista acerca do que está a acontecer e a moral escondida por detrás da história: “Duas forças antagónicas tornarem-se uma é o sentido geral da história, e por isso quis trazer esse lógica para o visual” Imaishi expõe: “Visualmente, o lado dos Burnish e o lado da Promepolis são representados por triângulos e quadrados respetivamente. Os Burnish são mais emocionais – procuram a liberdade. Eu considerei um triângulo perfeito para a representação dessa ideia. Um quadrado é mais associado ao controlo – como paredes ou caixas”

 

Quadrado vs Triângulo

“Se cortares uma parte de um quadrado, torna-se um triângulo” – Nakashima disse, adicionando a sua interpretação para este metáfora.

A metáfora das formas até se relaciona com o final do filme. Por exemplo, o laboratório do “Professor Deus” nasceu dos Burnish e dos não Burnish, tem um design baseado em formas circulares.” Imaishi explica melhor: “É por isso que, no final, o reflexo da lente se torna novamente circular [em vez de triangular ou quadrada como no resto do filme]”. Os dois lados, não só trabalharam juntos para criar uma paz duradoura, como também a humanidade voltou a estar inteira, agora que o Promare desapareceu”.

Curiosamente, Imaishi parece não se incomodar se as pessoas não entenderem as suas metáfora visuais:

“Quer o espetador tenha se apercebido ou não, eu considero que as metáforas são algo de positivo quer para o design quer para a história”.

 

Promare – entrevista: Promare e o Recurso ao 3D

E é claro que por detrás das cores e formas, está um aspeto vital do estilo visual de Promare: o uso recorrente de animação 3D. Na verdade, Promare usa mais animação 3D do que trabalhos anteriores dos dois criadores – especialmente nas cenas de ação. “Menos de metade do filme é 3D”, Imaishi disse num tom cómico: “mas por causa do impacto, eu acho que parece metade, metade”.

Como o uso de grandes quantidades de animação 3D não é uma especialidade do estúdio Trigger, o trabalho foi exportado para o estúdio “irmão”, Sanzigen. Isto significa que Imaishi coordenou os trabalhos de produção em dois estúdios diferentes – apesar de a maior parte do seu tempo ter sido despendido no trabalho desenvolvido no estúdio Sanzigen: “Eu sou originalmente uma pessoa Trigger, por isso não precisava de verificar o trabalho desenvolvido, só verifiquei o trabalho do estúdio Sanzigen” Imaishi riu-se antes de acrescentar: “É claro que se o diretor não controlar a combinação da animação 2D e 3D, o filme não funciona”.

 

 

Realidade não é permitida!

No final, Imaishi apenas tinha uma ordem para a equipa de animadores do Sanzigen:

“Realidade não é permitida!”

 

Mesmo que muitos fãs desgostem da prevalência de animação 3D, Imaishi acredita que esta tem um lugar no anime moderno: “O aspeto positivo acerca da animação 3D é que permite fazer coisas que a animação 2D não permite – como criar chamas como as que se observam no filme. Eu sou contra o uso de 3D para coisas muito simples, mas se é algo difícil de fazer, é difícil de fazer”. Dando um exemplo do que seria difícil de concretizar em animação 2D, Imaishi acrescenta: “Eu penso que se pode desenhar uma imagem captada por uma câmara em animação 2D. […] É quando a câmara se move que se torna impossível animar sem a animação 3D”.

Mas, considerando a animação tradicional 2D, há um aspeto que Imaishi considera que permanece enquanto supremo: “É possível colocar mais emoção – mais emoção das personagens – na animação 2D”.

Aquando a pergunta, que tipo de animação ele usaria se tivesse um orçamento ilimitado, Imaishi riu-se: “Se tivesse um orçamento ilimitado, eu usaria ambos. Eu faria tudo em 3D e desenharia por cima dessa animação […] como no filme Spider-Verse!”

 

A banda sonora com Hiroyuki Sawano

Mas, o que é um filme delicioso para a vista sem um soundtrack apropriado a acompanhar? Promare trata-se da segunda colaboração entre o duo e o aclamado compositor de anime, Hiroyuki Sawano. Imaishi não era capaz de parar de elogiar o compositor:

“A forma como os visuais combinam com a música é apenas fantástica […] Eu acho que ele é um profissional que faz música para o que está no ecrã. Ele é especial”.

 

Dito isso, Sawano escreveu muito do filme mesmo antes de qualquer animação ter sido feita: “No início ele fez apenas o esboço da história e do cenário”, Imaishi revelou: “ Mais tarde nós demos-lhe algumas imagens e mais informação à medida que as história gradualmente se completava”.

Para além do filme, foram exibidos online para aqueles que viram o filme nas salas de cinema japonesas 2 episódios de 10 minutos cada como prequela (Episódio Galo e Episódio Lio). Em vez se serem cortes do conteúdo original do filme, estes episódios foram criados organicamente: “Depois de juntarmos a forma e o cenário do filme, começamos a pensar em adicionar pequenos episódios” Imaishi disse: “Depois de o cenário estar completo, avançámos para fazer pequenos episódios, e por isso fizemos prequelas do Lio e do Galo” Nakashima concordou.

 

O Futuro de Promare

Para finalizar, o par falou um pouco do futuro de Promare. Será que eles querem ter mais lucro com uma série anime relativa ao filme? A resposta de Nakashima foi direta: “Quando penso nisso, no que me diz respeito, não tenho esse interesse”. A resposta de Imaishi, foi igualmente negativa: “ Nós contámos toda a história que tencionávamos contar”.

 


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Fonte: Anime News Network 

 

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