Runway de Waratte – Primeiras Impressões

por Pedro Costa
Runway de Waratte - Primeiras Impressões

 


Disclaimer:

Antes de começar o artigo queria apenas sublinhar que antes da adaptação anime ter sido anunciada, já eu estava a ler o manga original, tendo lido todos os capítulos disponíveis até à data.

No entanto, quero clarificar que esta análise prende-se apenas com o abordado nos três primeiros episódios do anime, e o equivalente no manga. Mais que isso, seria uma inconsideração a ter com vocês. Posso aludir a algo, mas não vou de todo “estragar ” a vossa experiência de visualização do anime.

Se desejarem que fale do manga (que merece, sobretudo em certos detalhes), digam-me que eu posteriormente farei um capítulo na rubrica, “Vida a Preto e Branco”.


 

Sei que estas “primeiras impressões” vêm com algumas semanas de atraso. Ainda assim, gostaria de dar a minha opinião, não apenas enquanto fã do manga, como também para informar aqueles que, presentemente ou no futuro, queiram dar uma vista de olhos a este anime.

Espero que gostem.

 

Runway de Waratte – Primeiras Impressões:

 

 

Premissa/História:

Apesar de não ter ainda lido/visto tanto quanto gostaria de todas as obras que existem, a verdade é que já não me apanham desprevenido as histórias que a comunidade artística asiática consegue desenvolver a partir das premissas mais inesperadas.

A história segue a HIPERoptimista e focada protagonista enquanto esta persegue o objectivo final que parece inalcançável para alguém como ela. ‘very shonen’ não acham?
A novidade desta variante é que o objectivo de Chiyuki é ser uma supermodelo (ou HIPERMODELO) que desfila na PariColle sob a brand do seu pai, Mille Neige.

Posto isto, não foi com choque que descobri existir uma obra com clássicos elementos shonen sobre o “cutthroat” mundo da moda. Foi sim uma alegre surpresa esbarrar em Runway de Waratte. O hook está lá desde o início: a nossa protagonista não tem falta de talento nem falta de ética de trabalho. O seu problema é mesmo do foro genético. Mais concretamente, a nossa Chiyuki tem apenas 1,58 cm, sem qualquer expectativa de crescer nem mais um…

A muralha para singrar neste “mundo” e ser convidada a participar na, discutivelmente, mais prestigiada fashion week do globo, seria suficientemente elitista e praticamente intransponível mesmo sem o problema da altura. Contudo, não seria uma verdadeira história de inspiração e superação shonen, se o destino não pregasse uma partidazinha de mau gosto à nossa protagonista.

 

Runway de Waratte - Primeiras Impressões

Bom trabalho do anime neste efeito, para marcar bem o que “falta” a Chiyuki!

 

Todavia, não é que o acaso a faz esbarrar no inseguro mas simpático Ikuto Tsumura? Em termos de personalidade, eles não podiam ser mais diferentes, mas o mundo da moda une-os, ou melhor, vai uni-los. A confiante Chiyuki dá o empurrão que Ikuto precisava para seguir o sonho que durante tantos anos guardou dentro de si, de forma a poder amparar as irmãs que ele adora e que necessitam do seu apoio.

Uma criação inspirada e uma foto viral depois, Chiyuki e Ikuto vêem-se finalmente no início de uma longa estrada até à conquista do fashion world.

E, no que parecia ser a conclusão esperada do primeiro episódio, eis que temos a confirmação de um twist bem interessante: de que a história tem assumidamente um duplo protagonista e vai acompanhar a escalada de Chiyuki no mundo da moda enquanto modelo, e o sonho igualmente desafiante e “impossível” de Ikuto em tornar-se um talentoso fashion designer capaz de conceber roupa digna de ser usada pela nossa baixinha nas grandes passerelles do mundo, especialmente, na PariColle.

 

Runway de Waratte - Primeiras Impressões

Vai ser um longo e duro caminho!

 

 

Execução:

Bom, agora começa a análise a sério. Como tudo na vida, este parâmetro assenta na dicotomia bom/mau. Que tal as “más notícias primeiro”? Arrancar o penso de uma só vez? Vamos lá.

Que me salte claramente à vista, o maior problema da adaptação anime é o andamento (pacing).

Em manga, a leitura painel a painel prossegue ao ritmo que desejamos enquanto leitores. Podemos ler/ver tão rápida ou lentamente quanto desejarmos (embora algumas decisões do mangaka no paneling possam ajudar a estabelecer um certo ritmo de leitura).

Por outro lado, em anime, o andamento é definido pelo staff, mais concretamente pelo realizador/realizadores e os escritores. E é neste ponto que a “porca torce o rabo”.

 

 

Sabemos à partida que o anime tem apenas 12 episódios confirmados e talvez por isso o comité de produção queira destacar o mais possível da obra a fim de alertar para o manga e/ou validar uma segunda temporada.

Digo isto porque a julgar pelos primeiros três episódios, e até episódios posteriores, o anime parece ter pressa de chegar a certos momentos específicos, tipo mini-clímax, como acontece com a “estreia do combo Chiyuki/Ikuto” na passerelle no episódio 3.

Os dois primeiros episódios “engolem” a história a uma velocidade tal que chegamos ao início do terceiro com a sensação de que o enredo até ali aconteceu num par de dias. A urgência em estabelecer os protagonistas, os seus obstáculos e os seus “primeiros passos” é tal, que acaba tudo por não ter peso quase nenhum.

Claramente não é por falta de experiência da equipa técnica, visto que o terceiro episódio colmata completamente esta falha. Foi o primeiro no qual consegui respirar entre cenas e absorver com calma o que estava a acontecer e a sentir o peso das decisões, inseguranças e alegrias das personagens. Tem ainda tempo de tirar partido do meio colorido e animado para dar vida a certas decisões estéticas também presentes no manga, como é o caso da contagem decrescente do tempo que Ikuto tem para “salvar” o final do desfile.

 

Runway de Waratte - Primeiras Impressões

 

Se todos, ou a maioria dos episódios, pudessem ter o ritmo do terceiro, poderíamos retirar ainda mais “sumo” desta história pelo fashion world, algo que me pareceu mais presente no manga.

Ainda assim, a adaptação tem o essencial para expressar as intenções da história e para nos fazer querer seguir a jornada dos protagonistas.

Existem ainda umas gafes menores, mas essas vou destacar numa secção mais leve lá para o final do artigo.

 

 

Runway de Waratte – Primeiras Impressões | Estética visual e sonora:

Para saltarmos directamente para um ponto bem positivo, penso que de maneira geral o estúdio Ezo’la acertou no visual que deu ao anime. Particularizando, penso que o design de personagens está no ponto e isso deve-se à artista por detrás desta secção, Misaki Kaneko. Até onde pude averiguar, esta é a estreia de Kaneko-san enquanto designer de personagens, mas nem se nota tal o excelente trabalho que fez em dar vida às personagens de Kotoba Inoya (criador do manga original).

Por outro lado, apesar de ser ávido fã de cor, e dado tratar-se de uma obra em que este detalhe se reveste particular importância, penso que a vivacidade com que é constantemente apresentada, em toda a frame, retira um pouco do impacto que esta devia ter nos momentos chave. Tal é exacerbado pela quase constante sobre-iluminação das frames. Penso que em termos de coloração o anime está demasiado produzido. Se tudo é ouro, nada é ouro.

 

Instantaneamente cego! (Mesmo usando um filtro de luz azul)

 

Ainda assim consigo tolerar e até habituar-me a esta decisão de estilo, tal como consigo ignorar algumas das medidas usadas para poupar esforços na animação em momentos menos climáticos. Agora, o que não consigo de todo ignorar são alguns elementos do departamento sonoro.

Não aprecio muito a banda sonora, mas, pior que isso, não sou fã de todo do timing e do volume com que é introduzida nas cenas. Além de aparecer por vezes sem qualquer propósito, o volume parece demasiado alto. Distrai, retirando toda e qualquer imersão que a narrativa está a tentar fazer-nos sentir.

 

Nota para o opening: A primeira vez que o ouvi, rejeitei violentamente, ainda que denotasse alguns pormenores interessantes sobretudo nos 15 segundos finais. Contudo, após ouvir mais algumas vezes, fiquei mais receptivo ao tema, ainda que, talvez erradamente, as minhas expectativas me faziam esperar por algo mais épico. Não querendo ser boçal, o opening parece demasiado shoujo…

 

 

Runway de Waratte – Primeiras Impressões | Potencial:

Antes demais, vou tentar responder à questão: Quem poderá gostar do anime de ‘Runway de Waratte?

O motivo mais óbvio será claramente pelo interesse no mundo da moda. É certo e sabido que os criadores japoneses quando fazem uma obra com um tema que os apaixona, vão o mais longe possível para detalhar e ensinar sobre os vários aspectos desse tema. Runway de Waratte não é excepção.

É de tal forma “completo” que os capítulos do manga são pontuados com a explicação de vários termos de moda e, desde o 7º volume, a obra tem um supervisor de moda, Kazuya Hasegawa, e assistência na pesquisa providenciada pela Universidade de Moda de Tokyo.

 

Runway de Waratte - Primeiras Impressões

Imagem retirada do capítulo 10 do manga.

 

Mas isto não indica bem a necessidade de ver o anime, apenas é um forte convite a ler o manga. O que pode tornar o anime digno de ser visto é aquilo que este pode oferecer e que o manga infelizmente não pode, pelo menos não da mesma forma: ambiance.

O anime está nas mãos de um realizador que já expressou o seu profundo interesse por fashion, e nos momentos altos que o anime já nos ofereceu, isso parece transparecer. Por esse facto, um dos motivos para ver o anime prende-se com o potencial que o meio tem – movimento, cor e som – para retratar as intenções, emoções e visuais da obra original.

 

Runway de Waratte - Primeiras Impressões

 

Outro motivo, ainda que não o tenha visto para todas, é a interacção entre as personagens. Apressado ou não, gosto da química entre a Chiyuki e o Ikuto, algo que é importante pois o grosso do anime assenta sobre esta relação. Estou curioso para ver o aprofundar de outras, como a de Ikuto e Yanagida, e com outras personagens que ainda não quero referir aqui.

 

 

Para concluir, se:

  • Estão alheios ao mundo da moda mas sempre tiveram curiosidade, dêem uma chance.
  • Gostam de moda e sentem falta de mais obras que abordem o género, ou o façam de forma diferente, dêem uma chance.
  • Nada do que disse acima se aplica a vós, talvez devam optar por outro anime.

Espero que tenham gostado e vemos-nos quando o anime terminar.

 


Abaixo segue-se um bónus para aqueles que quiserem ler um pouco mais sobre a minha opinião da adaptação até agora. É mesmo algo extra! O essencial destas primeiras impressões foi concluído acima. Se ainda aqui estão, aqui vai.


 

 

Runway de Waratte – Primeiras Impressões | Picuinhices de um leitor indignado:

Esta secção é apenas para dar voz a coisas que me fizeram coçar a cabeça ou que simplesmente se meteram comigo. Atenção, são mesmo picuinhices e provavelmente não incomodariam mais ninguém. Porém, se me permitem aliviar um pouco, aqui vamos:

 

♦ Quem é o “Bob”?

Se calhar esta clarificação não é necessária, mas como se mete comigo aqui vai. Este quesito pode ter a ver apenas com as legendas que me calharam na fava, mas “Bob” é de facto o que aparece sempre que Yanagida se refere ou chama o Ikuto e diz “Okappa” (おかっぱ). Pois bem, okappa refere-se especificamente ao corte de cabelo do Ikuto, o que em português chamaríamos de algo tipo corte à tigela (Yanagida em português talvez dissesse “Tigela” ou “Tigelinhas”). Este corte em inglês chama-se bob cut e é daí que vem o Bob, que sozinho parece caído do céu e sem sentido.

Nota: Prefiro o termo que usam na tradução do manga que é “Mushroom Head”.

 

Runway de Waratte - Primeiras Impressões

 

 

♦ A mãe do Ikuto aparece durante “5 segundos” no primeiro episódio porquê?

Como leitor do manga esta deixou-me completamente parvo da vida. Como espectador do anime, este momento é completamente insípido e usado única e exclusivamente para tentar, à pressa, enfiar-nos alguns detalhes da personalidade do Ikuto pela goela abaixo. Não é assim que se deve fazer exposição. Na altura até achei que se tinham equivocado e tinham metido uma cena um episódio posterior, logo ali, mas não!

Para mim diluiu-se um dos momentos mais relevantes do manga, que até é usado para pontuar o final do volume 2 e arranca o volume 3 (capítulo 14 e 15), e o que obtivemos disso foi quase nada. Para entenderem melhor, no manga é-nos propositadamente ocultado o paradeiro da mãe do Ikuto e, claro, os motivos da sua “ausência”. Meter algo assim só porque sim logo no primeiro episódio do anime deixou-me um amargo de boca. Se calhar estou a exagerar e a vir de um ponto de vista completamente parcial… Se apenas viram o anime digam-me o que vos parece tudo isto nos comentários.

 

 

 

♦ O opening é uma “bola cristal” preocupante.

Todos sabemos que se atentarmos bem, a maioria dos openings estão repletos de spoilers. Mesmo que não entendamos o seu significado nas primeiras vezes, rapidamente se torna aparente que nos estão a mostrar muitas coisas que podiam perfeitamente evitar. Mas bom, é para promover a experiência o mais possível, são “as regras do jogo”.

Que futuro auspicia o opening de Runway de Waratte? Dado velocidade que a história está a ser contada, nada de bom. Mostram ali personagens que fariam mais sentido aparecerem numa adaptação com dois cours com um ritmo bem equilibrado.

 

 

Ainda assim vou tentar manter a esperança. Depois do episódio 12 voltaremos a conversar!

 

 

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