Tokyo Magnitude 8.0 | Análise

por Nayuki

Não é preciso ser fã da cultura oriental, para se saber que a posição geográfica do Japão é favorável a várias catástrofes naturais e da proporção que estas podem tomar. No Verão de 2009, a Bones decidiu lançar uma obra original. Intitulado de Tokyo Magnitude 8.0, o anime abordou um dos temas mais delicados do país do sol nascente: os sismos.

 

Tokyo Magnitude 8.0 | Enredo e Personagens

Tokyo Magnitude tem como protagonista Mirai. Uma adolescente resmungona e chateada com o mundo que a rodeia. Num dia como tantos outros, contrariada, a nossa personagem principal leva o seu irmão mais novo, Yuuki, a uma exposição de robôs. Inesperadamente, um sismo extremamente forte faz-se sentir na cidade de Tóquio. Entre incêndios medonhos e tremores de terra constantes, os dois terão de enfrentar um árduo caminho para retornar a casa. Num cenário apocalíptico caótico os irmãos conhecem Mari, uma jovem adulta que se compromete a levá-los sãos e salvos até aos seus pais.

A premissa de Tokyo Magnitude 8.0 é algo extremamente simples e dá-nos automaticamente a certeza de uma coisa: o anime será um drama profundo. A verdade é que se trata de uma obra de ficção, contudo o Japão já viveu situações semelhantes (e até recentes). É preciso realmente ter coragem para abordar um tema tão sensível e trazê-lo para o pequeno ecrã. Acredito também que este anime não tenha sido adorado pelo povo nipónico, tendo inclusivamente sido banido depois dos sismos de 2011.

 

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Contudo, parece-me de extrema importância que uma história deste naipe seja conhecida no ocidente. Não só para entendermos um pouco do que a população japonesa sente diariamente, mas também para refletirmos sobre algumas questões humanas que a correria do nosso dia-a-dia não permite. Sejamos honestos, podem existir locais mais propícios a terramotos, mas ninguém está propriamente isento de alguma catástrofe.

A grandiosa virtude de Tokyo Magnitude é sem dúvida, o realismo. Um drama só consegue chegar ao nosso coração quando nos conseguimos rever na história. Não precisamos necessariamente de já ter vivido aquilo, se formos capazes de ver sentimentos humanos credíveis nas personagens, metade do caminho já está feito.

Mirai é uma jovem complicada que está naquela típica etapa chata conhecida como “fase do armário”. Aquela fase em que os adolescentes julgam que o mundo inteiro está contra eles. Mirai sente-se insegura em relação ao futuro e ao que fazer da vida quando crescer. Julga que os pais não querem saber dela, uma vez que passam muitas horas a trabalhar. Odeia ser constantemente incomodada pela ingénua felicidade do irmão mais novo.

Grande parte dos adolescentes passam por uma situação idêntica, em alguns casos as crises existenciais são mais acentuadas, noutros essa fase é menos problemática. A verdade é que Mirai é uma rapariga bem inoportuna e irritante, mas grande parte das pessoas acabam por se identificar com ela. Mesmo os indivíduos mais velhos já tiveram doze anos. Sabem o que é “odiar” os pais porque estes não apoiavam os nossos ideais modernos e nada estapafúrdios. Nós sabemos perfeitamente que a protagonista ama a família, apenas está numa fase estúpida da vida onde quer tudo à sua maneira. Mesmo que isto seja um pouco aborrecido quando assistimos o anime não deixa de ser uma semelhança brutal à realidade.

 

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Só que existem coisas mais graves do que a nossa mãe não nos ter comprado aquela camisola e a Mirai descobre isso da pior maneira. Antes ela tinha comida na mesa, uma cama para se deitar e roupa lavada e mesmo assim odiava a sua inútil vida. E foi preciso um choque tremendo para a jovem se aperceber que a sua vida não era tão má assim. De um momento para o outro um sismo abala a cidade, tudo à sua volta se desmorona, a cidade onde cresceu resume-se a ruínas. Mirai não tem noção do que fazer quando vê corpos sem vida ao seu redor, quando vê pessoas sem casa, quando ouve gritos estridentes de crianças sozinhas. E é aqui que tudo ganha força. Acompanhada por Mari e Yuuki, terá de lutar pela sua sobrevivência com unhas e dentes. Acabaram as comodidades, acabou a comida quente no prato e a garantia de um amanhã.

É triste pensar que só numa situação tão extrema, muitos aprendem a dar valor ao que têm. Nesse quesito o anime faz um trabalho sensacional. Muitos de nós não compreendem o que será viver no apogeu de um apocalipse, mas grande parte de nós dá muita ênfase a problemas corriqueiros e reclama de coisas mínimas, então revemo-nos na Mirai. Tokyo Magnitude é muito mais do que um anime que fala de uma adolescente estúpida. A obra levanta inúmeras questões sobre a sociedade em que vivemos. Não é só uma história sobre um terramoto, é uma lição de vida sobre a fragilidade humana.

 

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Mari, por exemplo, é uma jovem adulta que, por acaso, se encontrava no mesmo local que Mirai e Yuuki na altura em que se deu o sismo. Sei o que vocês estão a pensar: a maioria das pessoas ajudaria duas crianças indefesas numa situação tão crítica. Mas não é bem assim. Quando algo assim acontece, a nossa primeira reação é fugir e seguir os nossos instintos. É cada um por si. E existe outra agravante, Mari tem uma filha pequena do outro lado da cidade. Ela não sabe se a menina está viva sequer. Os telefones não funcionam e os transportes muito menos. Uma pessoa normal correria para casa o mais depressa que conseguisse, Mari atrasa a sua chegada à cidade natal para ajudar os irmãos. Mesmo não os conhecendo de lado nenhum, mesmo tendo de aguentar o mau humor de Mirai, ela aceita carregar esse fardo. É isso que a sua ética diz ser o mais correto. Em vários momentos do anime, vemos que os adultos não se importam se quem está em dificuldade é uma criança ou um homem de trinta anos. Eles querem é sobreviver e garantir um lugar seguro. Os outros que se amanhem.

Yuuki, o outro personagem principal, representa a inocência do anime. Acaba por ser o protagonista que alivia a carga dramática da obra com as suas piadas infantis. E novamente, muita gente se identifica com ele. Porque todos nós já fomos pequenos e tivemos as mesmas preocupações triviais que uma criança tem.  E dou os meus parabéns a Tokyo Magnitude de novo. A Bones teve a brilhante ideia de mostrar os pontos de vista de três pessoas de faixas etárias diferentes. Foi uma jogada de mestre.

“Podemos controlar grande parte do que nos rodeia, mas no fundo não somos donos de nada. Nem da nossa própria vida.”

 

O que o anime mais realça é a insignificância da vida humana. Possuímos métodos tecnológicos avançadíssimos, máquinas sofisticadas, construímos metrópoles imensas e modernas. Um certo dia vem a mãe natureza e dá cabo de décadas de pesquisa em alguns segundos. Num dia tudo está bem, vivemos a nossa pacata vida com percalços quotidianos. No outro vemos a nossa pátria destruída, os nossos familiares mortos e o país sem forças para seguir em frente. Aí sim, damos fé da pancada. Mas até lá vamos reclamar porque o vizinho põe a música muito alta.

Nunca considerei que um anime com um enredo complexo e preenchido de detalhes fosse superior a uma trama simples. Porém, confesso que gosto de histórias detalhadas, contudo Tokyo Magnitude é uma obra de índole ligeira. É um anime linear e sem grandes adornos, lento por vezes, mas nunca entediante de assistir. Os episódios voam e nem damos conta do tempo passar.

Tokyo Magnitude é perfeito? Não. No entanto, não o é por muito pouco. A minha única crítica em relação ao seu simples enredo, é achar que algumas explicações foram suprimidas. Não me entendam mal, considero que onze episódios bastaram para passar a mensagem que a Bones tencionava. Mas houveram certos acontecimentos que mereciam alguma elucidação, o que não aconteceu.

 

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Tokyo Magnitude 8.0 | Ambiente

A Bones tentou criar um ambiente bastante realista. No geral, diria que conseguiu. Mas não sou fã do traço minimalista e do design precário das personagens. A verdade é que já vi crianças da pré-primária fazerem desenhos e caracterizações mais elaboradas do que as de Tokyo Magnitude.

A situação mostra-se mais grave pois os cenários do anime são muito bem conseguidos. A visão de Tóquio destruída é bem credível. As casas em ruínas, os incêndios que tomam conta da cidade, os monumentos a ruir, tudo foi bem elaborado. A meu ver, o arte básica usada nos protagonistas foi uma estratégia para que se desse mais atenção aos cenários da história, e não tanto aos floreados das personagens. Contudo, a Bones tem meios e tecnologias para fazer algo bem mais coerente. Apesar de não achar as personagens propriamente bonitas, entendo que seja mais fácil ilustrar a dor, a preocupação e a felicidade dos protagonistas quando estes não são tão caprichados. Então, não se pode afirmar que isso seja propriamente um ponto negativo. A Bones optou por usar a mesma simplicidade do enredo, na produção visual.

 

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A banda sonora também ficou a desejar. O tema de abertura e a ending são de qualidade e vão agradar à maioria dos espectadores. Contudo um anime de drama deve-se preocupar em caprichar nas faixas que orquestraram a obra. Pois uma música melancólica torna uma situação triste em algo bem mais profundo. Em Tokyo Magnitude, a banda sonora serve apenas para ser música ambiente e não para proporcionar um cenário mais tenso. O que me desiludiu. A questão não é se a música é má ou não, porque não o é. O problema é que neste caso foi só um adereço e não uma parte da construção dramática.

 

Tokyo Magnitude 8.0 | Juízo Final

Tokyo Magnitude 8.0 é simplesmente um drama. Nada mais que isso. Uma obra de ficção que mostra de modo bastante realista o que é viver no meio de um apocalipse. É um anime extremamente pesado, um anime que não se preocupa em florear a realidade ou amenizar os sentimentos duros que são passados aos espectadores.

Não gostaria que fosse de outra maneira. Se é para enfatizar a dor, não vale a pena tentar deixar as coisas mais bonitas ou menos violentas. Desse modo nunca entenderíamos a mensagem do anime. É por esse motivo que a história nos toca, porque apesar de apresentar uma realidade desconhecida a muitos de nós, todos temos medos e inseguranças.

 

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Apesar de não ser um anime prefeito, é uma obra bastante coerente e com pouquíssimas lacunas narrativas. É uma trama com uma proposta diferente e que realizou um excelente trabalho a esse nível. É inevitavelmente uma história triste e que é preciso uma certa disponibilidade emocional para conseguir digerir tudo o que vai acontecer. Contudo a fácil ligação às personagens principais e o realismo do argumento, fazem do anime algo que vai agradar à gigantesca maioria.

Se gostam de dramas e de sentimentos à flor da pele, de personagens fortes e de cenários realistas, Tokyo Magnitude tem de ser a vossa aposta. Se por outro lado não gostam de emoções fortes ou de apertos no coração, mantenham-se longe.

 

 

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