
Estranho um filme rotulado como uma peça de ação ser tão pesado em diálogo. O espectador testemunha muitas reuniões, reuniões essas que são a chave do filme. Ouve-se muita discussão, descobre-se muita informação e lê-se posições de cada representante governamental, muda-se de salas e divisões, elege-se delegados, cria-se equipas, gere-se um país à beira de ser destruído por um monstro de 119 metros de altura.
“Shin Gojira”, ou “Shin Godzilla” (2016), é essencialmente um filme sobre a criação de um gabinete de crise. Uma história sobre controlo de danos.
O título “Shin Godzilla”, uma visão idiossincrática do kaiju, pode ser interpretado de maneiras diferentes: “New Godzilla”, “True Godzilla” ou “God Godzilla” – este último parecendo mais adequado pois “Gojira”, originalmente uma combinação das palavras japonesas “gorila” e “baleia”, é traduzido pelas personagens do filme como “Deus Encarnado.”
O primeiro filme do mítico kaiju produzido pela Toho 12 anos depois de “Godzilla: Final Wars” (2004), é um reboot completo da franquia em que Godzilla ataca o Japão pela primeira vez na modernidade. Depois de um desastre na costa da baía de Tóquio, o Chefe Delegado do Secretariado do Governo Rando Yaguchi, atira a culpa do que acontecera a um monstro gigante, apenas para a sua ideia ser completamente ridicularizada. No entanto, Yaguchi é provado certo quando uma forma embrionária da mesma criatura é avistada na cidade de Ota, deixando um enorme rasto de destruição e um governo sem capacidade de resposta.
Yaguchi e a sua equipa de rebeldes burocráticos unem-se para encontrar um método de derrotar a criatura, entretanto apelidada de Godzilla, enquanto esta se torna numa ameaça constante na cidade de Tóquio. A solução é finalmente posta em prática com a ajuda dos recursos da enviada especial pelos EUA, Kayoko Anne Patterson (Satomi Ishihara), que exerce a sua liderança com um sotaque americano muito plastificado e algum inglês desnecessário misturado à conversa.
“Shin Godzilla” é sobre burocracia e a possibilidade de trauma coletivo crónico que poderá trazer. Cinematograficamente, a montagem com picos de tensão, opondo os planos do Godzilla (Mansai Nomura na motion-capture) a aproximar-se cada vez da população e a possibilidade de Tóquio voltar a ser bombardeada, com as longas reuniões sem rumo, é uma ideia interessante, apesar de ser mal aproveitada, no meio de um elenco de estrelas atores com papéis irrelevantes, um design de som atroz e desleixado e uma trilha sonora escassa e esquecível.
Realizado por Hideaki Anno (“Neon Genesis Evangelion”) e Shinji Higuchi (“Shin Ultraman”, 2022), o literalmente traduzido “Novo” Godzilla, tem um início estrondoso, o seu monstro rastejando em pleno mar, a sua icónica silhueta finalmente revelada no marco dos 10 minutos. A criatura é impactante em tamanho e fúria, mas também se desgasta e adormece algures no segundo ato, tal como o filme.
O Monstro: uma retrospetiva do seu design
Hideaki Anno devolveu a Godzilla o seu status enquanto força terrível da natureza e metáfora de desastre puro. Passa por várias fases evolutivas tempo (começando pelo girino vomitador de sangue que se contorce pelas ruas do Japão), enquanto o nível de urgência com que o governo tem de agir se intensifica, é um novo elemento no design deste kaiju. O aspecto evolutivo já fora explorado nesta franquia, mas apenas nas criaturas vilãs, como em “Godzilla Vs. Hedorah” (1971) e “Godzilla Vs. Destoroyah” (1995). Godzilla não permanece muito tempo nessas formas mais jovens e rapidamente evolui para a sua figura adulta e final: um gigante desfigurado com uma mandíbula que se desprende com a sua respiração atómica e que empunha uma cauda anormalmente longa.
A natureza estranha e em constante mudança de Godzilla compensa de alguma forma pelos movimentos que parecem ser de corda, e a cadência laxativa da ação e da montagem responde a esta caracterização algo insossa de um dos ex-libris da cultura pop nipónica. No entanto, é o maior Godzilla do franchise, com 118,5 metros, mais alto do que qualquer outro Godzilla japonês e mais alto do que o Lendário Godzilla, a mais recente encarnação americana do monstro, que teve 106,7 metros.
Nem sempre foi assim. A primeira revelação do monstro tinha metade do seu tamanho atual – 50 metros.
Trazido à vida com um misto de suitmation e marionetes (e tornando-se o padrinho do género tokusatsu japonês), o primeiro Godzilla é encorpado e cicatrizado, com os seus braços imóveis, uma parte da sua anatomia que só seria apenas “posta em prática” em 2016, com “Shin Godzilla”. O “suit actor”, (termo criado e popularizado por esta mesma franquia, dado a membros da equipa de efeitos especiais (tokusatsu) – o seu equivalente aos dias de hoje seriam os duplos), Haruo Nakajima sofreu usando um fato de 100 quilos, feito de material inflexível.
O fato para a primeira sequela (“Godzilla Raids Again”, 1955) foi diferente do seu original: com um corpo e pescoço mais magros, pernas mais esguias e uma cabeça algo patética quando vista de frente.
Já em “King Kong Vs. Godzilla” (1962), a fato torna-se mais reptiliano (em tentativa de se destacar do seu nemesis primata, o King Kong) e os seus braços e pernas ficam musculosos e prontos para o combate – as cenas de batalha foram altamente inspiradas no wrestling profissional japonês.
Em 1967, o Godzilla é pai de uma sua versão mais juvenil e irritante, com uma cabeça humanóide muito estranha ao olho humano. As headpieces de Godzilla e do seu filho incluem olhos móveis e pestanas, antropomorfizando o titã.
O seu design foi-se aperfeiçoando com outros detalhes e solidificando o seu aspeto réptil. A chegada da era Heisei trouxe um novo suit actor, Kenpachiro Satsuma, oferecendo um Godzilla mais perigoso e austero. É a primeira vez, desde 1955, que a criatura mostra as suas mandíbulas. Foi também usado um cybot – um Godzilla mecânico – usado principalmente para fins promocionais.
Em “Godzilla Vs. Biollante” (1989) e “Godzilla Vs. King Ghidorah” (1991), a criatura, no seu aspeto mais reptilíneo até à data, lança raios laser e tem transformações mais elaboradas em substituição dos agora arcaicos combates físicos.
Este novo fato do Godzilla era tão visualmente apelativo que chegaria a ser roubado.
O difamado “Godzilla” (1998) da TriStar Pictures dá-nos a pior rendição do monstro criado em 1954. Este Godzilla é ridicularizado: uma iguana marinha radioativa, que se alimenta à base de peixe, com músculos de velocípede nas suas pernas grossas e as costas incrustadas de placas salientes.
Já em terreno americano, o Godzilla do Monsterverse foi semelhante ao longo dos três filmes e da série de tv: “Godzilla” (2014), “Godzilla: King Of The Monsters “(2019), “Godzilla Vs. Kong “(2021), e “Monarch: Legacy Of Monsters” (2023), apesar de haver mudanças que agradarão os fãs. Mantém a sua figura encorpada e reptiliana, e o seu dorso mostra todos os danos e cicatrizes infligidas. Há ainda o aspeto de monstro adormecido, o da criatura pré-histórica em hibernação, visto em “Monarch: Legacy Of Monsters”.
“Shin Godzilla” foi um enorme sucesso crítico e financeiro no seu país natal, registando a maior participação para a série desde 1966 e um número sem precedentes de prémios para um filme kaiju. Este sucesso levou ao desenvolvimento de uma nova era mediática apelidada de “Shin”, consistindo em vários filmes realizados por Hideaki Anno. Toho seguiu “Shin Godzilla” com “Shin Ultraman” em 2022 e a Toei lançou “Shin Kamen Rider” em 2023. O próximo filme do franchise, “Godzilla Minus One”, foi lançado em novembro de 2023.
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Análises
"Shin Godzilla” foi um enorme sucesso crítico e financeiro no seu país natal, registando a maior participação para a série desde 1966 e um número sem precedentes de prémios para um filme kaiju.
Os Pros
- drama político done right
- dicotomia visual é interessante
- uma boa rendição do kaiju
Os Contras
- CGI não muito apelativo (no entanto é reminescente do Godzilla de 1954)
- sound design e trilha sonora muito pobres
- Atores de renome em papéis esquecíveis