Hal ou Haru, é um filme de 2013, produzido por alguns dos mais prestigiados estúdios de animação japonesa, Production I.G e a Wit Studio, são os nomes sonantes por trás desta obra prima cinematográfica. Com qualidades visuais inquestionáveis, esta produção é marcada pela originalidade e peso narrativo.
Hal | A História
Um acidente de avião muda drasticamente a vida da amável e trabalhadora Kurumi. De coração despedaçado pela morte do seu namorado Hal, a jovem perde a vontade de viver, enclausurando-se dentro do seu quarto. Numa era futurista, onde evolução tecnológica permitia que robôs e humanos coexistissem em harmonia, a “robô-terapia” proposta por uma cientista brilhante, é apontada como uma solução possível. Kurumi precisa de Hal para voltar a viver, e assim um novo Hal é criado. Conseguirá a terapia atingir o resultado pretendido?

Hal | Enredo
Primeiramente, somos embrenhados num cenário calmo, polido, onde a clareza da água reflete toda a harmonia e verdade expostas na parte inicial da narrativa. A primeira cena remonta-nos, assim, para uma família pacata, mas feliz, composta por um idoso e o seu robô, Q01. Toda a serenidade rural é interrompida por um impetuoso avião a rasgar os céus. Um pormenor quase que insignificante, não fosse a curiosidade do dócil robô. Sob o olhar digital e analítico do mesmo, observamos a turbulência que culminou na explosão do avião, ao mesmo tempo que vemos o idoso desmaiar após uma tenebrosa chamada.
Os dados foram lançados, para o que seria um verdadeiro puzzle narrativo e dramático, onde lentamente, peça por peça concluímos um quebra cabeças rico e vertiginoso pela profundidade do sentimento humano, pela efemeridade da vida, e pelo horror da perda.
Toda a história é um crescendo de aprendizagem de Hal. A missão é clara: ter que salvar Kurumi. Perdida, despedaçada, presa no arrependimento do passado, Kurumi é uma jovem feita de cacos à espera de serem colados, reconstruidos e cuidados por Hal. A empatia promovida sobre o protagonista ao longo da obra faz-nos viver sobre o olhar do menino robô, crescer, conhecer e sentir dia após dia o crescendo de sentimentos e emoções, cada vez mais humanas, dolorosamente humanas.
Perdido e sem compreender toda a natureza humana, Hal-robô procura seguir as várias pistas deixadas pelo Hal-humano nos cubos de Rubik. À medida que completava cada etapa, mais um passo era dado para fazer a amada voltar a viver. Em paralelo com a premissa fulcral, vemos uma segunda premissa a ser progressivamente desenvolvida, sob a forma de filmagens, memórias turvas e quebradas, o passado dos dois jovens é montado.
O progresso evolutivo da relação dos dois protagonistas cruza-se assim, com o desenvolvimento humano de Hal. As idas ao lar de idosos, as conversas com o doutor e até os simples passeios ao mercado, fizeram com que o desorientado robô se preenche-se, ao sentir, ao observar, ao saborear e por fim, ao amar.
O romance e desenvoltura interessantes e construtivas tornam o filme num verdadeiro achado cinematográfico, com todo o drama, emoção e empatia a culminarem numa belíssima história de amor entre um humano e um robô. Contudo, todo o cliché que poderia estar associado é completamente destronado face ao clímax narrativo com que somos confrontados. A partir desse momento somos obrigados a subir a franquia a valores próximos da perfeição, aceitando, completamente rendidos, a originalidade da construção e sobretudo carga emotiva, longe de ser suportada de animo leve, por quem acompanha minuto a minuto a vida dos dois jovens após o acidente de avião.
Ambiente
Os estúdios envolvidos não deixam margem para dúvidas face à qualidade visual do filme. Criadores de séries como Attack on Titans, era de se esperar o realismo, o detalhe e a polidez com que todo o cenário e personagens são retratadas. Nos primeiros segundos da animação vemo-nos envolvidos por um mar de cores vivas e brilhantes, de tal forma polidas que acreditamos estar a visualizar algo real, e não sob traço e tinta, tão bem criados, que eleva a técnica visual a standarts inacreditáveis.
A cor e vivacidade inicial contrasta com toda a escuridão e nébula dos minutos seguintes. O acidente assume o papel de marco visual e narrativo. É irrevogável todo o contraste, o que nos leva a algumas ilações sobre um dos elementos com maior destaque em toda a narrativa: a água. Este elemento da natureza, para além de fornecer um esplêndido embuste para toda a problemática por trás da narrativa inicial, serve simultâneamente de pista para a resolução do puzzle.
Inicialmente pura e cristalina, a água torna-se progressivamente mais escura, tépida, suja. A impossibilidade de ver o fundo coberto pela água entorpe-nos os sentidos, impedindo-nos de ver com clareza. Um sinal claro de que tudo caminha para o descalabro, a confusão, e sobretudo a cegueira. A analogia não fica por aqui, talvez um pouco influenciada por todo o clima, atrevo-me a dizer que as diferenças climatéricas serviram igualmente o mesmo propósito. O sol luminoso e refrescante e a chuva intensa, para além de nos proporcionarem uma verdadeira experiência visual e sensitiva, criam o engodo fulcral para potenciar toda a carga emotiva, adensando toda a nossa neblina.
O som da água é uma constante em toda a obra. Desde o som de submersão, ao da chuva, a produção fez questão de evidenciar e amplificar, nos momentos certos, a melodia naturalmente trágica e calmante, da água. A banda sonora é igualmente rica. À base de sons de orquestra clássica, primam pelo dramatismo, surgindo na obra para intensificar a carga dramática, mesclando sons fortes e pesados com melodias simples e singelas de piano, trazendo a serenidade necessária para o espetador se entranhar ainda mais em todo o dilema e sofrimento exposto em cada acorde.
Potencial
Uma verdadeira obra prima cinematográfica é-nos exposta em pouco mais de 1h. Toda ela é construída de forma a captar a atenção e promover envolvência do espetador, é produzida com tal genialidade que somente no final compreendemos o real sentido de tudo o que acabamos de assistir, como se do primeiro minuto ao último minuto ocorresse um salto temporal que nos fizesse viver e não apenas visualizar a história de vida de Hal e Kurumi.
A obra trata-se, sem dúvida alguma, de uma verdadeira experiência cinematográfica e emocional digna de ser vivida, pelo que aconselho esta obra a todos os amantes de animação. Sem nenhum desleixo ou defeito visual, com uma primazia e desenvolvimentos dignos do estúdio em questão, não há nada que me faça criticar ou opor a esta obra, apenas claro, a carga emotiva da mesma. Sendo um romance dramático, a emoção é trabalhada de forma, quase que demasiado envolvente, pelo que corações mais frágeis ou simplesmente menos ligados a este tipo de narrativas não deverão assistir de animo leve.
Ainda assim, aconselho a verem! A obra é esplêndida e sem dúvida um “must see” da indústria cinematográfica, a arte a expor e transmitir a emoção da forma mais pura e singela que é possível, onde somos embriagados por um jogo de cores, som e imagem impossível de renegar. A todos, um bom serão de Hal!
Análises
Hal
Uma de arte obra única, um emaranhado complexo e ainda assim perfeito entre enredo e ambiente que culminam numa verdadeira experiência cinematográfica.