Este artigo trata-se da tradução de uma entrevista realizada pelo website Sora News. Como apaixonada por este subgénero, senti-me incumbida de traduzir e divulgar aqui no ptAnime. Trata-se de uma entrevista a uma editora (pessoa não empresa), alguém especialista no subgénero o que por si só já nos ajuda a compreender muito melhor os meandros da produção deste conjunto de séries (que atualmente saem todas as temporadas) e o porquê de:
- existirem cada vez mais obras sobre reencarnações;
- na maioria das vezes, as mulheres reencarnam enquanto “vilãs”;
- o que é o sub-subgénero Akuyaku Reijo;
- o que é o estilo Zamaa.

Porque existem tantos Anime de Romance com Reencarnações?
Entrevistámos um profissional da indústria e ficámos a saber também o que é o manga ““zamaa-style”“.
Isekai, ou histórias de mundos alternativos, tornou-se um dos géneros de anime/manga mais populares, de tal forma que existem agora vários subgéneros isekai reconhecidos.
Sub-subgéneros de anime Tensei
Por exemplo, há o género tensei (“reencarnação”), em que alguém do nosso mundo não é simplesmente levado para outro, mas morre e renasce lá como uma pessoa diferente, com as suas memórias do mundo real intactas.
Há também a categoria akuyaku reijo (“jovem vilã de alta classe”), um subgénero de tensei, em que a personagem principal renasce como uma figura poderosa no mundo alternativo, que normalmente seria o antagonista de uma história isekai.
Por capricho, a nossa repórter de língua japonesa Mariko Ohanabatake decidiu colocar “tensei” na função de pesquisa do Manga Okoku, um popular sítio de publicação digital de manga no Japão. A resposta foi…
1.771 resultados! Fez o mesmo para “akuyaku reijo” e obteve mais 365!
Mas porque é que as histórias de reencarnação e de vilãs são tão populares?
Para descobrir, Mariko sentou-se com uma editora de manga, a veterana Y-san (não é o seu nome verdadeiro). Y-san trabalha como editora de manga numa grande editora há mais de 10 anos, editando séries que arrecadam prémios e adaptações para anime.
Mariko: Há algum título específico que tenha dado início ao atual boom do tensei?
Y-san: Acho que o facto de That Time I Got Reincarnated as a Slime se ter tornado um êxito foi um grande ponto de viragem. A série começou como uma web novel no site Shosetsuka ni Narou (“Let’s Become Novelists”) e, quando tornou-se popular, foi transformada num manga. Há muitas histórias de reencarnação nesse website, tantas que algumas pessoas referem-se às histórias tensei como “histórias Narou“.
Na indústria, costumávamos ter muitas histórias de viagens no tempo, ou histórias teni (“transferência”), em que alguém ia para um tempo ou lugar diferente, mantendo a sua aparência e identidade originais (nota RC: por exemplo InuYasha). Mas as histórias tensei que estão agora em voga são diferentes, na medida em que a personagem principal morre no nosso mundo e depois acorda num mundo diferente como uma pessoa diferente, mas com as suas memórias do mundo real intactas.
Porque o passado dos protagonistas reencarnados não é explorado?
Mariko: Nas histórias tensei, quando chegam ao mundo alternativo, têm um aspeto diferente e um estilo de vida completamente novo, não é?
Y-san: Penso que a razão para isso é apelar aos leitores que querem tornar-se uma pessoa diferente da atual e refazer a sua vida. É uma caraterística frequente das histórias tensei que o passado da personagem principal no mundo real e o tipo de pessoa que era antes de vir para o mundo alternativo não sejam tratados como sendo muito importantes.
Mariko: Sim, já reparei que não aprofundam muito esse tipo de coisas.
Y-san: Normalmente, há apenas algumas páginas rápidas no início do primeiro capítulo sobre a vida da personagem principal no nosso mundo, depois morrem e começamos a história no mundo alternativo. Não é dada muita importância ao tipo de pessoa que era ou ao tipo de educação e experiências que teve no nosso mundo. Acho que eles só querem estabelecer, o mais rapidamente possível,
“Ok, aqui está esta pessoa… agora está morta… e agora está a começar uma nova vida”.
Às vezes, fico surpreendida com o pouco que a história precisa de ter para que os leitores simpatizem com a personagem principal enquanto ela ainda está no mundo real.
O que é o sub-género akuyaku reijo?
Mariko: E as histórias de reencarnação de vilãs? Ultimamente, tenho reparado que em muita banda desenhada destinada a mulheres, cuja personagem principal era uma pessoa tímida no mundo real, esta reencarna em alguém de estatuto elevado. Consigo compreender o desejo de renascer como uma pessoa mais poderosa, mas porquê uma vilã?
Y-san: Bem, durante muito tempo, o padrão no manga shoujo tem sido que a personagem principal acaba por ser recompensada por ser pura e sincera. Mas com o avanço das redes sociais, penso que as emoções e o romance mais confusos e realistas tornaram-se mais populares e que algumas pessoas estão cansadas de personagens principais tão puras.
Mariko: Acho que não há muitas pessoas que consigam viver as suas vidas como uma heroína shoujo, pura e sincera.
Y-san: Mas, por outro lado, uma vilã poderosa pode ser corajosa e dizer mal das pessoas de quem não gosta. Acho que isso é algo que as pessoas acham atrativo. As histórias em que a vilã rompe um noivado também são populares. Pode ser o resultado da empatia com esse desejo de libertar-se do controlo de um homem.
Mariko: Oh, já percebi! Uma vilã rica e poderosa pode fazer o que quiser e não tem de se preocupar em falar com personagens masculinas. Ela é basicamente imparável.
Y-san: Já agora, há também um novo género, muitas vezes destinado a leitores masculinos, com algumas semelhanças com o tensei, que se chama estilo zamaa.
Porque existem tantos Anime de Romance com Reencarnações?
O que é o estilo Zamaa?
Mariko: Estilo Zamaa? O que é que é isso?
Y-san: Vem de ‘zamaa miro‘ [japonês para “serve-te bem”]. A personagem principal não reencarnou, mas é alguém que foi expulso de um grupo de heróis que não o considerava suficientemente bom. Depois, o personagem principal junta-se a outro grupo e encontra o sucesso, enquanto as coisas se desmoronam para o grupo de heróis em que costumava estar. É semelhante a uma história de vingança.
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Publicar Isekais pode ser um risco para o artista
Mariko: Alguma vez foste editor de uma série de manga tensei?
Y-san: Não uma tensei especificamente, mas estive envolvida no planeamento de uma série isekai. Mas há algo nelas que… bem, se for direta e o disser, pergunto-me se fazer uma série isekai foi uma boa decisão para o futuro desse artista de manga. Mesmo que as pessoas leiam a série, não vale a pena para o artista se esse sucesso não puder ser ligado à sua próxima série. As séries Tensei têm muitas semelhanças entre si, por isso é difícil para um artista individual desenvolver uma base de fãs para si próprio através de uma delas. Os leitores geralmente não reagem com:
“Agora vou ver os outros trabalhos deles também“.
Mariko: Acho que é verdade que, se não conseguirmos distinguir uma série de outra do mesmo género, provavelmente também não nos lembraremos do nome do artista.
Y-san: Mas, por outro lado, como é um género popular, é mais fácil para os novos artistas conseguirem que as suas propostas sejam aprovadas e há um grande benefício financeiro para o artista, devido ao facto de as vendas serem mais elevadas por a série pertencer a um género popular. O ideal é conseguir que os leitores se tornem fãs da série e do artista ao mesmo tempo.
Mariko: Antes de terminarmos, tem alguma recomendação pessoal de tensei para nós, leitores de manga?
Y-san: Claro! My Next Life as a Villainess: All Routes Lead to Doom! (arte de Nami Hidaka, história de Satoru Yamaguchi) tem uma história interessante e um elenco de personagens apelativo. E, tecnicamente, é uma história teni, mas The Screwed-up Potions Turned to Be Soy Sauce, So I Cooked with Them [Hazure Poshon ga Shoyu Datta no de Ryori Suru Koto ni Shimashita] (arte de Risuno, história de Fuji Tomato e conceitos de personagens de Yuichi Murakami) é outra que estou a gostar muito de ler. Tem um conceito muito original: uma dona de casa é transferida para outro mundo e apercebe-se de que as suas poções de cura defeituosas são, na verdade, molho de soja, pelo que usa-as para cozinhar.
Misturar alquimia de fantasia e cozinha japonesa? É algo que não teríamos imaginado sozinhos e um sinal de que, mesmo com tantas séries isekai semelhantes como as que existem, ainda há algumas ideias originais e interessantes dentro do género, se soubermos onde procurar.
Fonte: Sora News 24
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