
Estamos em Abril e, nesta altura, as ruas de Tóquio estão decoradas pela natureza da maneira mais simples e bela – as sakura, ou cerejeiras, começam a florir. Com delicados tons de branco e rosa, as sakura são uma das imagens mais icónicas do país do Sol Nascente. Falamos aqui sobre a tradição do hanami (“ver as flores”) e do seu significado e importância na cultura nipónica.
A imagem de um templo, com o Monte Fuji como pano de fundo e cerejeiras em flor no primeiro plano remete-nos inequivocamente para o Japão. Toda esta representação é algo que o próprio país “exporta” como sua própria imagem de marca, e simboliza a chegada da Primavera ao país. Mas esta não é feita de maneira uniforme: mais a sul, e com um clima mais quente, as ilhas de Okinawa são as primeiras a receber as sakura, logo em Janeiro. Progressivamente, o florescimento das sakura vai “subindo”, chegando a finalmente a Hokkaido em meados de Maio.
Assim que despontam as cerejeiras, é obrigatório um piquenique para as poder apreciar em todo o seu esplendor. Deste modo, pelos parques de todo o Japão nesta época do ano espalham-se toalhas azuis, nas quais se juntam famílias, amigos ou colegas de trabalho. O hanami é um acontecimento que serve não só para admirar a natureza, como também tem a finalidade de estreitar laços de amizade entre os seus participantes, sendo considerado um exercício de “team-building” para muitas empresas, que reúnem os seus trabalhadores para assistirem a este evento e reforçar o espírito de equipa. Algo que não pode faltar no hanami é comida (para partilhar, claro) e bastante bebida. Não é raro ver pessoas “alegres” nestes eventos, o que acaba por reforçar o ambiente de diversão e boa-disposição.
Mas, infelizmente, o espetáculo não perdura durante muito tempo. As sakura são o exemplo perfeito do conceito japonês de mono no aware, que se pode traduzir como a “perceção do efémero”. Quer isto dizer que o belo não dura sempre, e por isso há sempre um sentimento de tristeza implícito associado à beleza. Daí termos de admirar e fazer o máximo proveito do acontecimento no momento presente, pois é algo irrepetível. Este é um sentimento que se pode dizer como intrinsecamente nipónico, devido à estreita ligação que a sua população tem com a natureza, que é sempre impermanente. Tão depressa como chegam, as sakura subitamente se desvanecem: quase de um momento para o outro, as flores caem e as suas pétalas espalham-se pelas ruas, que são varridas pelo vento e desaparecem. O hanami é, então, um acontecimento a ser aproveitado sem reservas, na melhor companhia possível.
No Japão não faltam sítios onde fazer o hanami perfeito. O castelo de Himeji na prefeitura de Hyogo é talvez o sítio mais icónico para observar as cerejeiras. Também os castelos de Osaka e de Hirosaki são locais famosos para o hanami. O parque Ueno, em Tóquio, recebe uma multidão de visitantes, o que serve como razão para organizar um pequeno matsuri, ou festival, onde não faltam as típicas comidas de rua japonesas, como takoyaki ou yakisoba.
Mais do que um símbolo da natureza do Japão, as sakura são também a imagética da cultura e sociedade nipónicas, com a sua delicadeza e excelência não-ofuscante a encapsular perfeitamente o espírito japonês.