“Lágrimas no Mercado” é um memoir de Michelle Zauner, artista coreana-americana conhecida como Japanese Breakfast. Antes do seu sucesso musical, com apenas 25 anos, Michelle sofreu uma tragédia quando a sua mãe morreu de cancro. Com um pai americano e uma mãe coreana, Zauner que antes admirava esta sua identidade cultural de longe, apercebe-se da sua importância durante o seu processo de luto e após a morte da mãe.
Através desta coleção de memórias, Zauner retrata a esta relação com a mãe e como o seu afeto sempre foi demonstrado principalmente através do amor que partilhavam pela comida.
Lágrimas no Mercado – Análise

Durante o mês de agosto o 25 BANPO Book Club debruçou-se na leitura de “Lágrimas no Mercado”, de Michelle Zauner (vocalista e guitarrista da aclamada banda de indie pop Japanese Breakfast) . Este livro foi recentemente traduzido em português pela Aurora Editora, insere-se na categoria de “não-ficção”, e é um memoir que acompanha o diagnóstico, a luta, a morte e o luto pelo qual Michelle Zauner passou com a sua mãe.
Por tocar em tópicos sensíveis como a morte e doença, pedimos a vossa atenção antes de procederem com a leitura do livro e deste artigo, e avisar uma vez mais que este artigo pode conter spoilers.
Michelle Zauner nasceu na Coreia do Sul, mas mudou-se para o Oregon quando ainda não tinha um ano de idade. Filha de pai americano e mãe coreana, Zauner aprendeu desde cedo que teria de corresponder às expectativas que lhe eram impostas pela mãe: filha perfeita, estudante perfeita.
Durante a adolescência, apesar do grande companheirismo e amor pela cozinha coreana que partilhavam, a relação entre ambas azedou. Nesses primeiros capítulos do livro são até relatadas algumas das discussões acesas que aconteceram. Provavelmente desencadeadas pela idade, há uma passagem tão dolorosa, que é impossível não deixar qualquer um chocado e que mostra claramente esta altura:
“Fiz um aborto depois de ti porque tu eras uma criança tão terrível” (pág. 67).
Esta proximidade que parecia ter terminado, sempre foi visível desde cedo por todos que as rodeavam – incluindo pelo pai, que apesar de ausente, era dedicado. Mas a vida segue, e a relação das duas até melhorou graças ao amadurecimento emocional de ambas e à distância física que a vida lhes impôs.
Com um passado feliz, Michelle usufruiu também de viagens até à Coreia, conversas nostálgicas com esses familiares e muitas outras experiências. Tudo isto é descrito em grande detalhe ao longo do livro. E sem grandes surpresas, a constante como pano de fundo de tudo isto foi a comida partilhada, experienciada e vivida durante estes alegres momentos.
No entanto tudo mudou quando Michelle Zauner, já com 25 anos, descobre que a sua mãe foi diagnosticada com cancro no pâncreas.
Desde o primeiro dia do diagnóstico, Zauner deixa a sua vida e carreira em pausa e volta para casa para cuidar da mãe. O cancro foi doloroso e, infelizmente, demasiado rápido, acabando por a levar pouco tempo depois do diagnóstico. Ao longo deste relato tão cru, acompanhamos também a inevitável crise identitária pela qual Michelle Zauner atravessou.
Não sabendo falar coreano e não tendo crescido no país, a única coisa que a ligava a esta cultura era a sua mãe. E agora com esta perda, e tendo vivido toda a sua vida nos Estados Unidos da América, Zauner também sentiu que esta não fosse a dela. Principalmente porque os traços físicos que possuía e os costumes não ocidentais que a distinguiam dos demais, sempre foram demasiado óbvios e constantemente apontados, apesar de até então ter lutado para os esconder.
Porém, sendo esta cozinha o elemento que Michelle identifica como a linguagem de amor da sua mãe, fez de sua responsabilidade cozinhar para a sua mãe mãe alguns dos pratos que comeu ao longo da sua vida. Lê-se na pág. 97:
“(…) cozinhar a comida da minha mãe passara a representar uma absoluta reversão dos papéis, um papel que eu estava destinada a preencher. Que a comida era uma linguagem sem palavras entre nós, que passara a simbolizar o nosso regresso uma à outra, o nosso lado denominador comum”.
Mesmo após a morte da mãe, a comida continuou a ser o seu conforto. A própria diz que seguir os tutoriais de receitas ajudou a diminuir a dor que sentia.
Talvez a partir daqui devemos indicar que pode ler alguns spoilers, mas temos que mencionar pessoas que surgiram durante esta leitura.
Uma delas é o esposo de Michelle Zauner! De presença constante nesta jornada, não só foi um apoio muito importante para a autora, como também aceitou subitamente mudar a sua vida e casar, para que a sogra visse a sua filha casada antes de falecer. O esforço constante ao tentar tornar esta fase da vida da sua (então) namorada o mais cómoda possível foi claro, e esta é apenas uma das várias atitudes que merecem a nossa simpatia.
Já no oposto do espectro, temos duas “personagens” que nos fizeram respirar fundo várias vezes pelos sentimentos que nos passaram: o pai de Michelle e a Kye.
Esta última fez-nos nutrir uma irritação particular. Passamos a explicar: após o diagnóstico, um sistema de apoio foi criado à volta desta família, e uma das pessoas que se voluntariou para ajudar foi uma amiga de longa data da mãe, Kye – que era um dos poucos contatos coreanos que a mãe tinha nos Estados Unidos. Uma vez na casa destes, ela tentou controlar tudo com a desculpa de que queria ajudar, e acabou por ficar encarregue principalmente das refeições da doente. Aqui começamos a sentir um aumento drástico do desconforto da Michelle, quando esta amiga deixou assim claro que por muita paixão que nutria pela cultura e culinária coreana, ela não tinha os conhecimentos necessários para confecionar pratos de fácil ingestão para alguém que estava a sofrer das sequelas de quimioterapia. E por causa disto, assistimos a autora a questionar o seu papel de filha, cuidadora e até uma possível perda de identidade, por se sentir ainda mais perdida e afastada da sua mãe.
Já o pai, muito desorientado com o diagnóstico da mulher, procurou refúgio no trabalho e mostrou-se demasiado sensível e pessimista para a filha. Estas características mostraram-se revoltantes para a autora: não só não os ajudavam a enfrentar esta fase difícil, como evidenciou ainda mais para Zauner a perda da mãe para a doença, ao mostrar que o pai era o oposto da personalidade forte e prática da sua mulher.
Este livro foi, sem dúvida, muito difícil de ler pelos temas que aborda. A ausência definitiva de um familiar é difícil, mas perder uma mãe é certamente uma dor inimaginável. E acompanhar todo o este processo enquanto ela tentava equilibrar a sua vida pessoal, a sua carreira e a estabilidade emocional de todos à sua volta, não foi fácil, mas Michelle Zauner foi sem dúvida a “cola” que manteve a família sã durante esta “tempestade”.
Agora, caso decidam ler esta obra, tentamos ao máximo com que esta análise não estragasse a vossa experiência. Alguns spoilers foram dados, é certo, mas podes ter a certeza que tens ainda por ler e vários episódios vão doer de tal forma, que uma pausa na leitura é sempre necessária para processarmos tudo.
Se já leste – no nosso clube de leitura, ou não – e/ou porventura estejas a passar por uma situação idêntica, esperamos que encontrem neste livro algum conforto e ajuda, para enfrentar este momento incontornável das nossas vidas. É daquelas leituras que deveria estar na lista “livros para ler antes de morrer”, e por isso tem o carimbo de aprovação 25 BANPO!
Junta-te a nós para o próximo desafio. O livro escolhido foi “Almond” de Won-Pyung Sohn. Iniciamos a leitura no início deste mês, mas estás sempre a tempo aderir ao nosso grupo no Goodreads, e de acompanhar os updates semanais ao fim de semana no nosso Instagram!
Artigos Relacionados:
Reunificação das Coreias – Sonho ou Realidade?
Conhece os Mestres por trás de KEP1ER e TXT – STUDIO K-POP
Análises
Este livro foi, sem dúvida, muito difícil de ler pelos temas que aborda. A ausência definitiva de um familiar é difícil, mas perder uma mãe é certamente uma dor inimaginável. E acompanhar todo o este processo enquanto ela tentava equilibrar a sua vida pessoal, a sua carreira e a estabilidade emocional de todos à sua volta, não foi fácil, mas Michelle Zauner foi sem dúvida a “cola” que manteve a família sã durante esta “tempestade”.
Os Pros
- Visão avassaladora de como uma doença e como esta pode reatar laços que se pensavam estar quebrados.
- A resiliência em momentos difíceis.
- O sentimento positivo nutrido pela comida como sinónimo de amor, conforto e saudade.
Os Contras
- Os temas abordados (como o cancro e a morte) podem ser gatilho.