Depois de vermos como se deu a chegada dos Portugueses no Japão pela primeira vez e como o Cristianismo afetou a sociedade japonesa, tocamos agora noutro aspeto cultural que foi influenciado por este intercâmbio: a Arte.
Esta começou por ser usada primeiramente como instrumento de evangelização: os missionários traziam consigo pinturas de cariz cristão, que ajudavam a melhor explicar os conceitos desta nova religião, dado à barreira linguística. Em termos de técnica (e como qualquer um pode constatar), a pintura renascentista é bastante diferente da tradicional japonesa, especialmente no que diz respeito ao uso da perspetiva, e também o uso de cores mais “garridas”, nomeadamente o dourado. Estes aspetos acabaram por ser introduzidos na pintura japonesa, numa época em que a “moda do estrangeiro” se espalhava e ganhava grande popularidade, uma autêntica “Nanban fever”!

O maior exemplo são sem dúvida os biombos da Escola Kanō. As obras dos artistas desta escola retratam várias temáticas, entre as quais a chegada da Nau do Trato a portos japoneses e o contato com os europeus e os nativos. Estes biombos nanban, pelo seu incrível detalhe, não são apenas peças de arte, são também importantes registos históricos que chegam até o presente e nos permitem ter uma melhor noção dos acontecimentos da época.
Mas não só de pintura se fazia esta “nossa” Arte Nanban (南蛮美術 – nanban bijutsu). Outro tipo de elementos representativos desta são os lacados. O uso do urushi (laca) no Japão é uma tradição milenar, servindo para revestir objetos do dia-a-dia e torná-los mais resistentes. Juntando uma refinada decoração, obtém-se um produto que é tanto belo como prático: desde caixas bentō a escrivaninhas, de estantes missais a altares portáteis, de capacetes a estribos para cavalo, qualquer objeto podia ser transformado numa obra de arte. Estes lacados eram também muito apreciados pelos europeus, pelas suas belíssimas e refinadas decorações em madrepérola, culminando num aumento da sua produção para fins de exportação para o Ocidente.
Claro está que nenhuma destas peças seria de fácil acesso para qualquer um… A posse destes objetos era também um símbolo da “importância” de uma pessoa, nomeadamente de daimyō, que assim decoravam as suas casas numa demonstração do seu poder e reforçando o seu estatuto social.
Algumas destas peças estão em exposição no Museu do Oriente e no Museu de Arte Antiga em Lisboa, e recomenda-se vivamente uma visita (em especial atenção a estes objetos nanban) enquanto se espera o novo artigo desta série!