No dia 1 de julho de 2022, o diretor de marketing da Nintendo Portugal, Jorge Vieira, fez uma publicação no Twitter a questionar por que razão sentimos que “a cultura parou”, apresentando as suas razões e lançando o desafio à comunidade portuguesa, para que, também ela, tente responder a essa pergunta.
Muita discussão tem sido gerada com base neste tema e, com essa mesma intenção em mente, desafiamos os nossos redatores, do departamento de videojogos do ptAnime, a opinar sobre o assunto.
Sob forma de artigo expomos algumas das opiniões que julgamos mais pertinentes.
Por que temos a Sensação que a Cultura parou?

Pedro Sanches
A estagnação cultural que afeta muitos formatos de entretenimento deve ser conectada a vários fatores, tanto do ponto de vista corporativo, como do consumidor. Contudo, a verdade é que todos eles acabam por afunilar numa motivação principal, responsável por fazer girar a roda do quão criativo uma obra se pode dar ao luxo de ser.
Colocando de parte o lado artístico de quem constrói as histórias e experiências, existe sempre a pressão de filtrar as ideias conforme o que funciona ou não, sendo o principal objetivo garantir o máximo de rentabilidade possível.
Essa filtragem passa por entender o mercado atual (géneros de entretenimento mais consumidos, discussões sociais do momento, influência do digital, etc.) e moldar o conteúdo em conformidade. Por outro lado, construir novas propriedades intelectuais seguindo esta análise mantém um risco de insucesso, ao qual muitas empresas preferem-se esquivar. Isto explica a invasão de remakes, remasters e sequelas de títulos que obtiveram sucesso crítico e comercial no passado.
O desenvolvimento destas novas versões dentro de uma franquia de sucesso têm maiores hipóteses de ser bem recebidas e o fator inovação contém um risco quase nulo de ser um problema no lançamento. Se funcionou antes, significa que existe procura por mais conteúdo, seja pelos fãs ou pelos curiosos que nunca tiveram oportunidade de viver a experiência anterior. Arriscar é perigoso e o conforto vende.
Afonso Rocha
Eu sempre defendi que prefiro uma obra má a uma obra medíocre, seja qual for os media. O pior cenário possível quando se experiencia um jogo é não sentir nada. Posto isto, prefiro mil vezes que o jogo seja mau por tomar um risco grande e falhado, do que um jogo seja bom em tudo o que faz simplesmente porque não se arriscou em fazer nada de novo, ou seja, uma obra artificial por ser demasiado “safe“.
Não atribuo a nota máxima a um jogo simplesmente por realizar tudo bem, se ele não tomou risco nenhum. A melhor forma de combater essa mediocridade é utilizar o risco tomado como critério. Infelizmente, esse tipo de obra ainda é bastante rentável às grandes empresas AAA. Visto que tudo segue um padrão, uma fórmula de sucesso garantido por mais que não exista inovação, desde que esteja bem-feito, o jogo vende.
Do meu ponto de vista, a indústria não está estagnada. A possibilidade de evolução está sempre lá. Trata-se de um media que transborda potencial desde sempre. Contudo, o progresso evolutivo dentro desses mesmo media atualmente é muito mais lento e não consigo pontuar nenhum jogo em particular como grande responsável pelo mesmo, mas sim um conjunto.
Nesta thread foram referidos os “big 4”, segundo a Internet: Bloodborne, Elden Ring, Breath of the Wild e The Last of Us. Apesar de todos os quatro serem obras excelentes, a meu ver, tudo o que fizeram aperfeiçoou princípios já pensados. Todos são fortemente derivados dos seus antecessores. Nenhum deles realmente “cria” os conceitos.
Talvez, daqui a uns anos, olho para trás e vejo todo o progresso que trouxeram… No entanto, por agora, penso que é muito cedo para assumir tal coisa. Sinto-me confiante em dizer isso quanto a determinados jogos de gerações anteriores, dado que já tivemos confirmação daquilo que nos trouxeram, ao longo dos anos (Super Mario 64, DOOM, etc.), mas não quanto aos que foram referidos aqui.
Em suma, de facto, tenho a sensação de que existem cada vez menos conceitos novos, praticamente tudo são derivações. No entanto, não acredito que seja impossível surgirem. Com o passar dos anos, a tendência foi a de haver maior produção de jogos em massa, diminuindo o tal lado da inovação. Esse lado não está morto e as possibilidades ainda estão lá.
Bruno Sales
Imagino-me no século XIV num banquete a ouvir nobres afirmarem que a arte parou, o estilo Gótico finalmente alcançou o seu esplendor e toda a arte não passa de derivações de algo já realizado anteriormente um pouco por toda a Europa.
Talvez em pleno século XXI estejamos nesse mesmo ponto onde a cultura Pop contemporânea alcançou também o seu esplendor e tudo parece apenas uma derivação de trabalhos e ideologias construídas entre o pós-segunda grande guerra e os anos 90…
Por outro lado, e embora note que as grandes franquias que hoje apreciamos sejam baseadas ou derivações de trabalhos anteriores, como estas são apresentadas acabou por sofrer uma inovação disruptiva gigante com alterações significativas de década para década.
Se voltasse ao início do milénio nunca pensaria que seria possível existir um videojogo baseado no livro Battle Royale tão inovador onde poderia lutar numa pequena ilha através da internet em tempo real contra 99 oponentes, ou até “entrar” em videojogos com a utilização de óculos VR e sensores, com gráficos tão realistas.
Outra grande inovação disruptiva que afetou toda a média é a facilidade de partilha de conteúdos online, sendo hoje mais fácil que nunca partilhar conteúdo muitas vezes único e inovador sem ser necessário a ajuda de grandes empresas.
Concluindo, não sinto que a cultura tenha realmente parado, apenas não conseguimos notar esta evolução constante que acontece gradualmente ao longo da nossa vida sem olharmos para trás e refletirmos sobre a mesma.
António Barreiro
Como sociedade temos sempre uma tendência preguiçosa de apenas observar o que é criado pelas grandes companhias e muitas vezes acabamos por nos esquecer que existe mais conteúdo para nós vindo daqueles que não tem o mesmo estatuto empresarial.
Devido à falta de recursos e de investimento, os estúdios independentes têm uma espécie de obrigação moral em tentar criar um conceito novo ou melhorar algo já existente, pois essa é a única forma que estes têm de se destacar para as grandes massas poderem saber do produto que tentam vender.
É nos momentos em que a criatividade se encontra limitada por um obstáculo, que as ideias mais inovadoras nascem e acabam por influenciar a cultura a nível mundial, um fator constante quando se é um estúdio que luta a anos por investimento.
Ao mesmo tempo, as grandes companhias criam sempre conteúdos repetitivos para tentar capitalizar nas mais recentes modas para entrarem na onda, mas aquilo que criam não é nada diferente do produto criado no início. É a mesma refeição, mas colocada num prato diferente.
Essa é a mentalidade de uma empresa cujo objetivo é fazer dinheiro independentemente se o produto é bom ou mau e, em vez de querer apresentar algo novo, ficam a drenar algo que foi inovado por outros levando as pessoas a ficarem saturadas com o novo conceito.
A cultura não se encontra parada. Ela esteve sempre em desenvolvimento apenas nos lugares onde a inovação é mais necessária e a sociedade é que muitas das vezes não sabe como procurar nos locais certos por conteúdo novo para consumir.
Estas são algumas das opiniões que os nossos redatores apresentaram sobre a potencial estagnação da cultura. E vocês, concordam com as nossas opiniões? Acreditam que a cultura se encontra parada atualmente?
Deixem as vossas opiniões nos comentários abaixo.