Talvez por a nossa primeira interacção com a cultura artística japonesa ser, geralmente, com anime, exista a ânsia ou desejo de vermos os mangas que vamos lendo e adorando serem adaptados. É um pensamento que só me ocorre a mim? Não? Espero que faça sentido porque esta análise à adaptação anime de Runway de Waratte vai ter esta ideia como base.
Runway de Waratte ou Correndo na Passerelle? – Análise

Mas, dado que esta análise terá bastantes paralelismos ao manga original e, quiçá, spoilar alguma coisa não retratada no anime, vou começar por fazer uma pequena apreciação da série independente da sua origem e destinada a todos aqueles interessados puramente em assistir.
∴ Anime no Vácuo
Isolando a adaptação das suas origens o que posso dizer é: recomendo a visualização se és fã ou tens curiosidade pelo mundo da moda e gostavas de ver como tal conceito pode ser explorado em anime.
Outra lupa pela qual poderá ser interessante ver a série, será através do “rótulo” demografia shounen. Tal não quer dizer que se destine propriamente para jovens rapazes na adolescência, mas pode indicar a presença de certos elementos que são característicos de obras assim “carimbadas” – p.e. tournament arc, momentos de treino, escalar do fundo até ao topo, etc.
Acho este filtro de análise interessante porque, segundo sei, o foco no tema moda não abunda no mundo anime e a única outra opção que conheço e recomendo dentro do género é Paradise Kiss. Contudo, por força da sua criadora, da forma como trata a narrativa e pelo seu “rótulo” josei, a obra é fundamentalmente diferente apesar de partilhar o mesmo tema central. Ainda assim, é uma obra que recomendo vivamente, ainda que, em termos de acessibilidade, Runway de Waratte ganhe.
Ganha pela sua simplicidade narrativa – muita dela causada pelo anime – que facilita aos curiosos e fãs do meio saciar um pouco da sua fome por moda em anime. Torcer pelo sucesso “altamente improvável” da Chiyuki e do Ikuto é algo que nos é natural. Um grande motivo para isso, deve-se aos próprios elementos narrativos, os quais nos empurram para esse fervor pelo sucesso dos protagonistas.
Os problemas que falarei mais abaixo continuam a verificar-se mesmo sob esta lente, mas são esbatidos pela falta de ponto de comparação ou pelo propósito que incita a experiência de visualização.
Se querem começar pelo anime, comecem! Mas depois vão ler o manga. Não se vão arrepender e vão entender que a adaptação esconde um mundo ainda mais maravilhoso do que esta brochura de 12 episódios deixa vislumbrar.
∴ Runway de Waratte: “Depressa e bem, não há quem!”
Ecoando o que disse aquando das minhas “Primeiras Impressões“:
[…] o anime parece ter pressa de chegar a certos momentos específicos, tipo mini-clímax, como acontece com a “estreia do combo Chiyuki/Ikuto” na passerelle no episódio 3.
[…]
Se todos, ou a maioria dos episódios, pudessem ter o ritmo do terceiro, poderíamos retirar ainda mais “sumo” desta história pelo fashion world, algo que me pareceu mais presente no manga.
É com pena que digo que não melhorou. Depois do episódio #3, voltamos a “entrar no Shinkansen“ e, excluindo uma pequena paragem nos episódios #6 e #7, seguimos a toda a velocidade para o clímax do anime nos episódios finais.
Quem sofre? Sobretudo as personagens e, consequentemente, nós. Não quero entrar em excruciante detalhe sobre tudo o que foi comprimido, diluído ou simplesmente ignorado sobre certas personagens e o seu percurso, porque tenho a esperança de levar alguns de vocês a lerem o manga e não quero estragar nada.
Mas é bem verdade que, em serviço dos protagonistas, Chiyuki e Ikuto, várias personagens secundárias são “amputadas” e usadas como meros cones de sinalização para que eles sejam encaminhados para os plot points da narrativa.
Mas vamos a dois exemplos concretos no caso do Ikuto e a um exemplo mais soft no caso da Chiyuki.
Exemplo #1 – A família do Ikuto, mais concretamente a mãe:
A forma como o anime encadeou as cenas familiares do lar Tsumura, dá a sensação de que todos esses elementos só servem para caracterizar o Ikuto. Um irmão mais velho que, sem os pais em casa, tem que cuidar das irmãs e fá-lo tudo sempre com amor e um sorriso. Esta frase resume basicamente tudo o que concerne a este ponto.
Em traços gerais, este enquadramento não é mentira, mas isto deveria ser apenas a base, tal como o manga faz. Em essência, deviríamos ter mais a sensação de que esta é uma família real e não apenas “vistos” numa lista de elementos para fazer do nosso protagonista o maior “coitadinho”.
Isto é mais gritante na gestão da mãe! Só para terem uma noção, vou dar ligeiros, ligeirinhos spoilers. No manga, apesar de haver conhecimento prévio de que o Ikuto tem três irmãs, este dedica três capítulos (#14, #15 e #16) a apresentar a família, a sua situação e como isso está directamente relacionado à decisão de tornar-se designer, como o primeiro acto de algum “bom egoísmo” da parte dele.
A revelação de que a mãe está no hospital e porquê, é até o cliffhanger de um dos capítulos. Passando estes três capítulos, o lar Tsumura parece algo bem mais vivo e real, levando a que “socos no estômago” que acontecem posteriormente, tenham mais impacto.
No anime, as irmãs, e pior, a mãe, só aparecem para servir um propósito qualquer da plot e, repetidamente, sem qualquer tempo para respirar, já que esses supostos grandes expoentes narrativos são resolvidos num episódio apenas… Bem, às vezes, até em meio episódio!
Exemplo #2 – Hazime Yanagida:
Por onde começar com o Yanagida. O papel do sensei deve ser dos mais espectáveis em manga, sobretudo nesta demografia. O sensei relutante, mais especificamente, também está longe de ser uma raridade.
Bom, mais do que sensei, o que a história pretende com o Yanagida é ilustrar um indivíduo profissional, com uma visão e um foco próprios, que quer singrar num mundo de tubarões sedentos e que vê num promissor mas altamente “verde” Ikuto, um vislumbre de um Yanagida mais jovem no começo da sua jornada.
Isto é mais evidente, bem cedo no manga (a partir do capítulo #4), porque desde que o Ikuto começa a trabalhar no atelier do Yanagida, todas as cenas que lá decorrem têm importância. Não apenas porque são cenas que introduzem muitos conceitos sobre moda, como também são momentos que ajudam a moldar a personalidade das personagens que nele entram. Isto vai desde o designer chefe, aos ajudantes que colapsam (sim, a moça do nariz a sangrar do anime, no manga tem um papel um “bocadinho” mais interessante e relevante), ao Ikuto, à Kokoro e até ao Toh.
O anime tem tanta pressa em chegar ao clímax do episódio #3 na Tokyo Fashion Week, que descora completamente o pré-evento caótico que inclui a introdução do Ikuto ao atelier e às suas interacções com os que lá trabalham. O anime “toca” em pontos “chave”, mas é “sempre a bolir”.
Se lerem o manga, vão ver que o Yanigida é uma personagem bem mais completa e que, sim, embora preencha o papel de sensei, o seu mundo gira em torno de si e não em torno do Ikuto.
Exemplo #3 – (o soft) Kokoro Hasegawa:
Ainda bem que uma boa parte da jornada da Kokoro-chan, até onde o anime adaptou, está “de mãos dadas” com o trajecto de Chiyuki. Por algum motivo, no que toca aos elementos da Chiyuki, o anime conseguiu ser um bocado mais focado e competente. Cenas com o Ikuto à parte, ela tem highlights, bem necessários, com a Shizuku, com a Igarashi, até com personagens terciárias e, mais pertinente para este ponto, com a Kokoro.
Não vou esconder que, até onde li no manga, a Kokoro-chan ainda deve ser a minha personagem favorita, e portanto a minha apreciação poda ser parcial. Contudo, acho que isso também joga a meu favor neste caso. A história dela está q.b. bem retratada no anime e muito se deve ao que a direcção fez com a Chiyuki. Eles foram “forçados” a dar relevância no anime à Kokoro-chan, porque o caminho dela permite que se atinjam os pontos-chave da narrativa da Chiyuki que o anime estava clara e ardentemente a empurrar a acção para.
Mas então, porque está este exemplo aqui? Por causa dos momentos com o Ikuto. No manga, esses momentos são tão ou mais relevantes que os com a Chiyuki, mas no anime… Digamos assim, os momentos do Ikuto com a Kokoro-chan deviam dizer mais sobre ela e sobre a forma como ela o vê, do que sobre ele.
Ele aparece um pouco como o “cavaleiro” que ela precisava para finalmente “começar a viver”. Mas ele inspira-a a lutar por si, mais do que fazer o papel de herói. No manga, eu tinha pena da Kokoro e queria que ela se visse livre daquela situação opressiva. No anime, o enquadramento dá demasiada “luz” ao Ikuto, fazendo parecer que é ele, por si só, que a vai arrancar de lá.
O que salva isto é mesmo a parte com a Chiyuki, que volta a passar o papel personagem activa à Kokoro. Espero que tenha conseguido explicar um pouco sem spoilar nada.
Existem mais exemplos pontuais, mas estes foram, para mim os mais gritantes.
∴ Runway de Waratte: “Quando a vida tem mais cor a preto e branco”:
Pondo, “finalmente”, a narrativa de lado, vamos falar da outra grande fatia que é relevante em anime: a arte. Sem surpresas, eu não sou um animador e toda e qualquer tentativa de parecer que entendo do assunto intrinsecamente, fariam de mim o pior treinador de bancada da história.
Ainda assim, após ter visto arte de vários anime, cartoons, manga, comics, e até de incontáveis exemplos live-action, acho que consigo discernir quando algo me é apelativo e porquê, ou se adaptou bem a arte que lhe deu origem.
Tendo isto em conta [hipérbole a caminho]… a arte em movimento do anime de Runway de Waratte deixa muito a desejar. Em breves instâncias, consegue momentos de grande inspiração que mostram que capacidade e talento não faltavam naquela equipa técnica. Mas esses instantes servem igualmente para criar um contraste ainda maior com o resto da animação. É mais uma evidência de toda a “correria” da adaptação.
Quando escrevi sobre as minhas primeiras impressões, elogiei o look que os elementos do staff conseguiram conferir ao anime, sobretudo no que toca ao design de personagens. E isso mantém-se. O design está um mimo e captura bem as personagens do manga. Mas, tirando algumas frames pausadas no momento certo, esse fulgor chega para pouco.
E, se estamos a falar de imagens estáticas, então está na altura de comparar a arte do anime com a arte do manga. A diferença no detalhe é impressionante e a luta não é nada renhida. Cor e movimento não são melhores só por existirem!
É uma história sobre o mundo da moda e, enquanto Kotoba Inoya expressa essa a sua intensa paixão pelo fashion world sempre que pode, empregando toda a sua habilidade nos mais magníficos detalhes, o anime contenta-se em retratar uma “história” de personagens que por acaso querem viver do mundo da moda.
Sem mais demoras, aqui vai o duelo!
(só escolhi casos pontuais, e que o anime tentou transpor, ou o artigo não acabava)
∴ Desfile da Kaoru no Festival Geika
Mais do que vítima do ritmo da adaptação, uma vítima de um crime contra a arte!
∴ Desfile do Ikuto no Festival Geika
Aqui ainda tentaram, talvez por ser protagonista, mas não chegou…
∴ Desfile da Kokoro/Chiyuki no Festival Geika
Não era justo colocar da parte da Chiyuki, porque notou-se um esforço evidente para ela ter sempre os pontos altos. Mas ainda assim, a designer dos seus vestidos não teve tanta sorte!
∴ Ayano Toh a mostrar um pouco do seu talento
Este é um “falso duelo”. Serve para ilustrar que, embora o look do manga esteja melhor, havia realmente vontade de fazer o melhor possível no anime!
Como diz a já muito gasta expressão: Uma imagem vale mais que mil palavras. E eu acabei de apresentar várias imagens das duas realidades de Runway de Waratte.
A sério, leiam o manga! A história vale bem a pena, mas vale ainda mais quando rendilhada com estes magníficos painéis que exsudam um verdadeiro amor pelo mundo a ser retratado. Isto especialmente no que à moda concerne, já que em termos de personagens o anime mostrou que tinha capacidade.
∴ Pensamentos Finais
Não gosto nada do tom geral de negatividade com que ficou esta análise à adaptação anime de Runway de Waratte. Contudo, era inevitável. Jamais conseguirei ser objectivo e pôr de parte o meu coração no que toca às várias formas de arte. Se algo me toca particularmente ou me causa desilusão e tristeza, a minha escrita vai sem dúvida reflectir isso.
O anime decepcionou-me na mesma proporção da minha expectativa para ele. Estava (e ainda estou) a adorar tanto o manga, que quando a adaptação foi anunciada não consegui conter a minha felicidade e hype. E o que saiu foi uma adaptação que tinha em mente “correr os 100 metros” e que em 12 episódios, sem possibilidade de continuação, galgou 74 capítulos de um manga realmente bom. A severidade com que analisei o anime prende-se com isso.
Ainda assim, consegui pôr de lado um pouco das minhas mágoas no ponto “∴ Anime no Vácuo“. Se querem dar uma chance ao anime, é nesse ponto que se devem focar. Tudo o resto, serve como aviso para os seus “fossos no meio da estrada” e como promoção desenvergonhada do manga original.
Apesar de tudo espero que tenham gostado. Até breve!
Análises
Runway de Waratte
Um tema central pouco usual, sobretudo com os alicerces deste. Um twist na abordagem ao conceito de protagonista, parecia ser o prenúncio de algo especial... Só que não! Que raios aconteceu?
Os Pros
- Design de personagens: tanto em momentos normais, como em momentos de destaque (no geral)
- Actuação vocal
Os Contras
- Organização narrativa e tratamento das personagens (temos o destino, não importa como lá chegar)
- Ritmo dos episódios (não respira)
- Arte no que à moda em concreto diz respeito (que devia ser essencial)