A Manglobe é conhecida pelos seus trabalhos irreverentes, incomuns e com êxito inexorável. Samurai Champloo, The World Only God Knows, Ergo Proxy, Deadman Wonderland, são alguns dos títulos que melhor servem para representar este estúdio de produção. Seja pelas suas narrativas incomuns, pelos seus ambientes estranhos, ou até mesmo pela sua arte agradavelmente incomum.
A má notícia é que o número de artistas envolvidos em Samurai Flamenco, daqueles que trabalharam nos títulos a cima citados, é praticamente nulo. Ainda assim, o núcleo da equipa era relativamente bom, com Omori Takahiro a diretor (Baccano! e Durarara!!), e as personagens ao encargo de Yamashita Yoshimitsu que por norma trabalha como animador e não como desenhista. Samurai Flamenco surge na temporada de outono de 2013, com a promessa de vincar e de se sobressair na temporada.
A História
Um modelo chamado Hazama Masayoshi guarda secretamente e longe das câmaras o seu maior hobbie, que reside nos Super-Heróis. Além de os colecionar compulsivamente, sempre que não está a trabalhar como modelo, aproveita o tempo livre para acompanhar ou rever as melhores série de heróis. Prezando tanto o conceito de herói, e tendo noção do estado atual do mundo a nível criminal, Masayoshi questiona-se: “como é que ainda ninguém tentou ser um?”. Apesar de não ter o dinheiro, super-poderes ou a tecnologia necessária para criar armas ou um poderoso fato de combate, mergulha na tentativa pioneira de se tornar alguém que sempre vangloriou. Deste modo, Masayoshi torna-se Samurai Flamenco e começa a sua jornada na luta contra o crime.
Num acaso, Hidenori Goto, policia japonês, descobre a verdadeira identidade de Samurai Flamenco, acabando por se unir a ele. Samurai Flamenco e Goto, iniciam a sua jornada contra o crime organizado e as suas adversidades.
Ambiente e Enredo
Comecemos por ser claros, a maioria do público que começou a ver Samurai Flamenco não terminou. Aqueles que conseguiram prosseguir com a sua visualização dividem-se em dois grupos: ou acharam a obra mediana, embora carregada de um determinado valor, ou odiaram e arrependeram-se de a assistir. Porquê opiniões tão distintas, e mesmo até algumas desistências pelo caminho?
Samurai Flamenco inicia-se com uma premissa bastante interessante, mais conhecida por terras ocidentais do que por terras orientais. Um protagonista que nasceu rodeado de histórias de heróis, acabando por se tornar um grande entusiasta no assunto. Em 2008, algo com o mesmo ponto de partida teve génese por estas terras: “Kick Ass”. O paralelismo entre as obras é notória, no entanto, Kick Ass surge pelos heróis de banda desenhada, enquanto que Samurai Flamenco surge com mais incidência a partir de grandes obras nipónicas, mais conhecidos pelos géneros e subgéneros: Sentai ou Tokusatsu (Power Rangers).
Quanto à narrativa em si, é brutalmente inconstante e ao mesmo tempo com uma linha coesa de início ao fim. O enredo como um todo em termos narrativos é algo com um resultado paradoxal. O primeiro e grande problema da obra surge por volta do episódio 7 quando, de uma forma bruta, as leis físicas e reais que foram sendo criadas e transmitidas ao espetador sofrem uma rutura. A realidade do universo é estabelecida sobre um ser-humano relativamente normal, apenas com uma fixação a mais por heróis, e que por sua vez decide tentar tornar-se um.
É visível que os parâmetros definidos vão de encontro a algo igual ao nosso mundo, onde não existe super-poderes, onde não existem elementos fora do comum, nem elementos que estejam fora do formato do conceito de planeta Terra, como aquele que temos atualmente. No entanto, esta consistência é bruscamente quebrada na introdução de um híbrido gorila humano, com forças e proporções completamente fora do padrão anteriormente estabelecido. Isto, em termos narrativos, cria uma confusão estranha na mente do espetador, uma vez que durante algum tempo tudo era criado através de normas reais, e de repente surge um gorila brutalmente forte, que por sua vez não assusta nem admira muito os personagens envolvidos.
Voltando ao primeiro ponto: “a narrativa é inconstantemente coesa”. Este exemplo acontece ao longo da obra de forma repetida e nas mais diversas formas, sejam eles mutantes ou seres provenientes do espaço. Em contrapartida, estes acontecimentos aleatórios construídos a partir de bases irrealistas, de acordo com universo inicialmente estabelecido, dão resultado a uma linha constante para o personagem principal. Apesar dos diferentes arcos narrativos que Samurai Flamenco atravessa, ele mantém-se extremamente fiel àquilo que era no início. A personagem sofre o desenvolvimento adequado, é certo, mas enquanto ser-humano os seus desejos, sonhos, emoções, mantêm-se verdadeiros ao que foi inicialmente delineado.
O traço do character design é agradável e relativamente bem constituído, principalmente no que diz respeito a todo e qualquer fato presente na série, que por sua vez são detalhadamente apelativos. No entanto, aquando em animação o design perde-se por completo, tornando-se num aspeto mais artificial. Se quiserem ter uma verdadeira noção do traço mais puro das personagens, sugiro que visitem algumas páginas da manga para ficarem com uma melhor noção daquilo que falo. Os cenários são muito raramente trabalhados, prezam essencialmente por simplismo vazio de baixa qualidade, e quando são um pouco mais preenchidos nota-se claramente que não se debruçaram muito sobre os mesmos.
A animação e o desenho no primeiro arco do anime, são interessantes com uma qualidade mediana e, acima de tudo, mantêm a sua consistência. Contudo, nos arcos que se seguem e até ao fim, mostra-se desleixada, sendo que este ponto negativo destaca-se mais nos momentos de cenas com maior ação. O desenho das personagens deforma-se com alguma frequência, criando uma grande inconsistência em toda a sua estrutura visual. As lutas sofrem de coreografias horríveis, repetitivas e sem qualquer tipo de inovação.
A banda sonora é na sua maioria interessante, adequada e com certas referências aos grandes épicos, que dificilmente passarão despercebidas ao público em geral.
As Personagens
Não existe nenhuma personagem que se destaque, seja ela de forma positiva ou negativa. Existe um número bastante elevado de personagens, o que tendo em conta a longevidade relativamente curta do anime, não deixa muito espaço para as desenvolver. Contudo, no meio do aglomerado infinito de inimigos, alguns surgem com determinadas caraterísticas originais, enquanto outros chegam a ser pretensiosos em demasia, possuindo elementos físicos e psicológicos que roçam o ridículo.
Hazama Masayoshi, como personagem principal não acrescenta muito à típica personagem que o próprio representa. Em contrapartida, a linha coesa que referi anteriormente é aqui que a vão encontrar. O desenvolvimento de Masayoshi, como humano e como herói é extremamente boa e agradável de se assistir. Começa como um jovem apaixonado por heróis de ficção, que toma a inconsciente e perigosa decisão de se tornar um. Como seria de prever, isto não lhe corre nada bem no início. Todas as adversidades que encontra na sua complicada e arriscada jornada obrigam-no a crescer rapidamente como humano de forma a conseguir acompanhar o herói no qual ele se quer tornar. É este pequena e suave linha de enredo que se mantém constante ao longo de toda a confusão de alto e baixos narrativos.
A grande ajuda de Masayoshi é o seu fiel e grande amigo: Hidenori Gotou. Começa como polícia comum de rua no Japão. Gotou levava um vida extraordinariamente pacífica, o que muda radicalmente com a entrada de Samurai Flamenco na sua vida. Gotou, mesmo sem saber a verdadeira identidade do famoso herói vestido com roupas estranhas, prezou a coragem do jovem vigilante. Depois de Gotou estabelecer contato com Masayoshi na sua verdadeira identidade, tentou fazer o papel de adulto responsável, avisando-lhe que aquilo eram atos irresponsáveis e que não iriam surtir efeito algum na sociedade. No entanto, apesar desta palavras, Gotou acreditou sempre na determinação e valores que o jovem Flamenco possuía.
Outra influência muito forte na jornada de Samurai Flamenco é Jouji Kaname. Este é a representação máxima da figura do herói das narrativas nipónicas. Sendo que Kaname é um ator em Red Axe, uma das grande inspirações para formação de Samurai Flamenco. Kaname é confiante, experiente e a cima de tudo tem conhecimento nas mais variadas artes marciais. Um elemento crucial que faltava para evoluir a falta de experiência que este possuía. Após várias tentativas, Flamenco consegue finalmente ser treinado pelo colossal Red Axe, fazendo com isto se torne não só num dos maiores simbolismo de toda a série, mas também algo que formou numa maioritária parte, a personagem de Samurai Flamenco.
Juízo Final
O enredo mostra-se ambíguo, desconstruído ao longo do seu desenvolvimento, mas constante relativamente às personagens que o suportam, o que de certa forma é algo positivo, pois vai acabar sempre por agradar uma maior parte dos espetadores. Através de clichés inovadores, Samurai Flamenco navega por uma confusão de acontecimentos que possuem os seus picos de qualidade. Possui referências de excelência aos heróis de infância, essencialmente aos Power Rangers. A narrativa confronta algumas vezes o espetador com moralismos, éticas e até a “circulação do Karma”, o que se tornam pormenores bastante cativantes, criando uma afinidade e iteração com o público bastante forte. Infelizmente, estas boas cargas positivas que a narrativa nos entrega são rapidamente destruídas e esquecidas pelos altos e baixos que já vos referi inúmeras vezes.
O visual, o ambiente, a animação e o desenho das personagens possuem uma linha qualitativa com um grande paralelismo à linha narrativa: escassa e esporádica. Sendo que estes atingem o seu ponto alto no primeiro arco e, por fim, apenas no último.
Com tanta confusão na escrita e na criação do visual, fica a pergunta, a que nicho de pessoas vai esta obra interessar?
Ora, Samurai Flamenco destina-se aos amantes de heróis, principalmente aos entusiastas das obras de velha-guarda. Destina-se a quem procura observar os conflitos de um herói e de um vilão, as razões de cada um agir como age. Afinal quem decide quem é o vilão quem é o herói, quando muito provavelmente os dois lados lutam por razões semelhantes? Será herói/vilão uma relação de perspetiva de quem os vê de fora? Ou será também definido por aquilo que lhes fornece a determinação, aquilo que define os seus objetivos finais? Se procuram uma história que define o herói e o vilão, criando e vasculhando os seus conceitos com uma leve comédia que raramente é despropositada, e se têm paciência para os longos e chatos altos e baixos que persistem ao longo do desenvolvimento, então Samurai Flamenco é aquilo que procuram.
Trailer
Análises
Samurai Flamenco
Se procuram uma história que define o herói e o vilão, criando e vasculhando os seus conceitos com uma leve comédia que raramente é despropositada, e se têm paciência para os longos e chatos altos e baixos que persistem ao longo do desenvolvimento, então Samurai Flamenco é aquilo que procuram.
Os Pros
- Conceito
- Recomendado para fãs de Super Sentai
Os Contras
- História de altos e baixos
- Produção visual