Yu-Gi-Oh! Duel Monsters – Análise

Yu-Gi-Oh| Duel Monsters foi uma das séries que mais me acompanhou (e ao meu pequeno  almoço) nos anos 2000, antes de ir para a escola. No entanto, foi uma produção cuja visualização na íntegra sempre me escapou. Como tal, só recentemente me dediquei a esta longa jornada de 224 episódios. E fi-lo por vários motivos: curiosidade, grande interesse pelo TCG (Trading Card Game), e com vista a escrever esta análise. Terminada a longa jornada de visualização, gravei vários momentos bons, mas também recordo alguns que deixaram a desejar. Tudo isto somado, reflecte aquilo que me pareceu ser o grande problema da série: consistência. Mas, antes de falar disso, uma sinopse do anime.

 

Yu-Gi-Oh! Duel Monsters – Sinopse

Depois de conseguir montar o Millennium Puzzle, um poderoso artefacto egípcio, o jovem Yugi Mutou divide agora o seu espírito com o de um antigo Faraó Egipcío. Com o passar do tempo, os dois estabelecem uma profunda amizade, e é o antigo Faraó quem toma conta do corpo de Yugi, sempre que este se vê em situações perigosas, quer na sua vida diária, quer nos duelos de Duel Monsters (TCG). Assim, em termos de protagonismo, o Trading Card Game divide o palco com a demanda dos dois Yugis na procura pelas memórias do antigo Faraó, cujo espírito reside no Millenium Puzzle. É em torno destes dois temas que se desenvolve toda a trama, pelo que vou falar de ambos já de seguida.

 

 

Duel Monsters – O jogo de cartas (TCG)

Mais do que o manga (criado por Kazuki Takahashi) que está na origem desta adaptação anime, o jogo de cartas Duel Monsters (também da autoria do mangaka) será um grande chamariz para, ainda hoje, haver gente com interesse em espreitar esta série.

Infelizmente, e esta é a minha convicção após a visualização da obra, a produção não se mostra capaz de corresponder às prováveis expectativas elevadas de quem aqui chega por essa via. O mesmo resultado será provável a quem chegar por outros caminhos. E digo isto com bastante tristeza, tendo em conta que o TCG de Yu-Gi-Oh sempre foi o que mais me fascinou, especialmente pelo design das cartas.

A meu ver, o problema está muito para lá da parte estética das cartas, ou mesmo de possíveis desiquilíbrios nos duelos que as cartas denominadas “Egyptian Gods” possam causar. A cada episódio que passa, sai reforçada a ideia que o TCG desenvolvido não é explorado da melhor maneira. Com um leque bastante alargado de cartas, é uma pena constatar que algumas dessas cartas são usadas por demasiadas vezes e por mais do que um protagonista, num curto espaço de transmissão, cortando por completo com a diversidade que a trama poderia apresentar nos duelos. Indirectamente, isto também contribui para outro problema do género: a repetição das mecânicas. Combinados, estes dois aspectos tornam alguns duelos pouco interessantes e aborrecidos, pois o espectador, mais tarde ou mais cedo, tem noção de que o potencial existente não está a ser aproveitado.

Afinal, convém ter em conta que esta é uma história antecipadamente criada e não um duelo imprevísivel entre dois jogadores de TCG. Como tal, no anime é possível criar os duelos antecipadamente. Sabendo isto, e embora hajam alguns duelos muito interessantes ao longo da série, a maioria deles acaba por conferir uma redundância à trama que não é muito positiva.

 

 

O Passado do Faraó

Para lá das atenções nos jogos de Duel Monsters entre personagens, a descoberta do nome e do passado do Faraó, que agora habita junto do espírito do pequeno Yugi Mutou, é o outro parâmetro de relevo do enredo. A meu ver, esta parte da história fica-se pelo satisfatório, uma vez que, à excepção do seu final, ela revela lacunas e dificuldades desde muito cedo.

Primeiro, porque nota-se a dificuldade do criador em interligar este “enigma histórico” com a parte dos duelos. Nota-se um esforço em tentar que isso aconteça. Mas os dois aspectos nunca chegam a “dar as mãos” de forma natural. Quando um se desenvolve, o outro fica numa espécie de hiato, pelo que não existe aquela suavidade e subtileza que se verifica noutras histórias que desenvolvem acontecimentos paralelos quase sem o espectador ter de pensar nisso.

Para lá desta dificuldade na ligação entre as duas partes, a própria saga dedicada ao passado do Faraó apresenta alguns acontecimentos também um pouco forçados. Não os vou mencionar a fim de evitar spoilers, mas algumas cenas são um pouco forçadas, das quais depende o avanço da história. Apesar de tudo isto, de mencionar que a parte dos artefactos egípcios está bastante bem concebida. Na verdade, até me parece uma pena que os Millennium Items tenham sido tão pouco explorados. Creio que alguns deles podiam ter tido mais tempo de antena, à semelhança do que acontece, logo no início, com o que está na posse de Pegasus, e claro, o do próprio Yugi.

 

 

As Personagens

De igual modo, as personagens também são de alguma forma desconexas quando se trata de comparar umas com as outras, em termos de crescimento e complexidade, ao longo da série. O que quero dizer é que me parece bastante descabido o facto de algumas personagens mudarem o seu estado de espírito com facilidade, enquanto outras continuam limitadas ao seu perfil quase inicial, mesmo após vivenciarem experiências marcantes (quiçá traumáticas) nas suas vidas. O caso mais “gritante” é o de Seto Kaiba. Com o avançar da trama, aumenta também o número de experiências históricas e ocultas que, de forma evidente, envolvem esta personagem. Apesar de tudo isso, ela continua imperturbável em relação a este assunto, o que não faz qualquer sentido. Contudo, mesmo detentor desta lacuna, Kaiba consegue ser uma das personagens mais interessantes da história.

Ao contrário de Seto, Yugi e o Faraó revelam uma progressão mais coerente em termos gerais. Chegado o final da obra, é fácil de perceber que ambos cresceram, quer por intermédio dos jogos, das provações que passaram juntos, e até mesmo dos diálogos que tiveram entre si. Este último aspecto merece grande destaque em Yu-Gi-Oh! Duel Monsters, uma vez que em muitas das conversas sobressaem frases interessantes e enigmáticas, capazes de deixarem o espectador a reflectir sobre elas durante algum tempo.

 

 

A Mensagem da Amizade

No meio de todo este envolvimento que reúne os duelos de Duel Monsters com os acontecimentos relacionados com o Egipto e as memórias do Faraó (que Yugi transporta consigo), a força da amizade é a mensagem que a produção vinca com mais frequência, por intermédio de Yugi e do seu restrito grupo de amigos. De uma maneira geral, esta ideia está bem concebida e faz até mais sentido que o célebre “acreditar no coração das cartas”. Ainda que esta última, para efeitos de suspense e curiosidade, também me pareceu bem empregue na maioria das situações, embelezando de alguma forma esses duelos (com um belo contributo da banda sonora).

Numa perspectiva mais negativa, recordo os duelos que colocam em risco a vida das personagens, muitas vezes de forma rídicula. Não creio que os jogos mortais que envolvem serras eléctricas, afogamentos, quedas de prédios muito altos, ou contentores a caírem em cima de pessoas tenham algum tipo de utilidade ou interesse para a história vincar a força da amizade. Em relação os “Shadow Games“, inseridos numa vertente mística e fantástica com que se pauta a trama, encaixam melhor no enredo e, em certos casos, revelam-se essenciais para o progresso do mesmo.

 

 

A Banda Sonora

Finalmente, é possível encontrar consistência no meio dos vários tópicos aqui em análise. A banda sonora tem melodias adequadas aos vários momentos que compõem a obra, integrando-se de forma fácil e subtil no seio da mesma.

Relativamente aos endings (e estou a falar dos originais), eles, regra geral, mantém a mesma discrição com que se pauta a banda sonora, o que de certa forma é típico nos endings de anime e assenta bem.

Por outro lado, creio que os openings revelam uma tendência de crescimento de qualidade, à medida que os episódios vão passando. O primeiro vídeo de abertura é satisfatório, mas os outros apresentam claras melhorias, quer na música, quer na parte visual que os compõem.

 

 

Arte e Animação

Sobre a arte e a animação, para a época e a temática da obra em questão, ambas apresentam uma qualidade muito boa. O desenho, quer das personagens humanas, que dos monstros das cartas, é bastante agradável. De facto, aqui a série só perde quando decidem colocar Jonouchi a fazer umas caretas todas estranguladas e fora do contexto que, entretanto, até foram muito aproveitadas para memes, no passado recente.

Em termos de animação, a exigência maior está concentrada nos duelos, onde é dada uma excelente resposta por parte dos seus responsáveis. Em termos gerais, quer os duelos mais simples, quer os mais complexos – onde entram os monstros mais míticos e as realidades alternativas – , ou até mesmo quando se trata de dar vida à Cultura Egípcia, os resultados são acima da média.

 

 

Yu-Gi-Oh! Duel Monsters – Conclusão

Em jeito de conclusão, e como dei a entender desde cedo neste artigo, Yu-Gi-Oh! Duel Monsters revela-se uma produção muito inconstante em todos os seus principais parâmetros. Isto é, apresenta coisas boas em todas elas, mas também várias que deixam a desejar. E isto, a meu ver, só acontece porque a obra possui um jogo de cartas muito atraente e apresenta expressões e diálogos interessantes ao longo dos seus 224 episódios. Tudo isto, suportado por uma civilização altamente curiosa: a Egípcia. Todavia, quando se trata de juntar todos estes elementos, o resultado final fica aquém do potencial estimado.

Como tal, esta não me parece ser uma série para qualquer um, ainda que os seus momentos altos valham bem a pena. Infelizmente, e tratando-se de uma produção tão longa, as múltiplas ocasiões de pouco interesse – quer pelos acontecimentos em si, quer pela previsivilidade dos desfechos – criam um risco elevado do espectador, seja ele fã das cartas ou apenas de anime, abandonar este barco e regressar à terra a nado, tantas são as alturas de maré baixa. A existência de duas sagas de fillers torna esta situação ainda mais dramática.

Portanto, e apesar da pontuação positiva – por força dos seus melhores momentos e dos aspectos mais técnicos – penso que os envolvidos numa onda de nostalgia de Yu-Gi-Oh!, ou que tenham uma paixão por Duel Monsters, podem tirar proveito da série, quanto mais não seja, a título de curiosidade. De uma outra perspectiva, quem procura um projecto exemplar em termos de qualidade e consistência de enredo, deve procurar noutras paragens.

 

Yu-Gi-Oh! Duel Monsters – Opening 1 (Versão Original)

 

 

Yu-Gi-Oh! Duel Monsters – Opening 1 (Versão Ocidental)

 

 

 

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