Com o recente sucesso de Star Wars (SW) Episode VII: The Force Awakens (TFA), tem voltado a discussão à volta desta franquia, desta vez em relação ao balanço entre inovação e a expectativa da audiência. A quantidade monumental de dinheiro que este filme gerou parece dar razão à ideia de que mais vale a pena jogar pelo seguro em vez de evoluir um conceito para novas paragens. Em paralelo com isto, gostaria de fazer o argumento que o seu congénere asiático, Mobile Suit Gundam (MSG), num timeframe semelhante fez mais e melhor com o seu futuro através de novas ideias e reinterpretações.
O Despertar da Força e a Busca pela Caixa de Laplace

Começando pelo mais óbvio, o maior argumento contra a inovação dentro de SW reside na indelével influência (sobretudo negativa) que a trilogia de prequelas tem sobre a filosofia criativa deste. A expansão dos Jedi de ermitas espirituais numa organização semelhante aos templários foi vista com maus olhos porque é uma traição das suas raízes budistas. Outro exemplo observa-se na queda da Velha República, que entediou audiências ao residir num conjunto de fatores socioeconómicos e corrupção burocrática em vez de uma simples derrota dos virtuosos face a uma invasão implacável das forças do mal. E claro que a história da origem de um dos mais famosos vilões da história do cinema alienou os fãs devido a uma combinação de decisões de produção que pôs em questão a mística desta personagem.
Tudo isto e mais criou o ambiente prevalente dentro da comunidade que a prequela é um esforço fútil, nascendo a filosofia de que simplesmente não saber e deixar a audiência fazer a sua própria história é o melhor que alguma vez poderá ser feito com a ideia. Este argumento, na minha opinião pessoal, restringe artificialmente o potencial de uma ideia além de matar histórias no berço através de um trauma muito específico que deu nascimento a um dogma dracónico.
Se formos a ver no caso de MSG, observa-se o oposto. Além do facto que esta franquia nunca teve problemas em voltar atrás e desenvolver melhor alguns dos seus conflitos (o exemplo mais popular sendo a One Year War), uma das mais excelentes obras na Universal Century (UC) na atualidade, quiçá em toda a sua história, reside num OVA (Mobile Suit Gundam: The Origin) que ilustra e visualiza em grande pormenor os eventos que culminaram na guerra catastrófica entre Zeon e a Federação, utilizando intriga política, dramas pessoais e crítica socioeconómica para ilustrar esse contexto importante em vez de duelos espaciais.
Utilizando o argumento anteriormente referido, teria que supor automaticamente que ninguém estaria interessado em saber acerca das complexidades políticas que levaram à transição da República de Zeon para o Principado encabeçado pela família Zabi, preferindo que os pilotos a conduzir os fatos móveis simplesmente aludissem a esse passado, e que a sua realização só iria resultar numa diluição da importância monumental que este backstory tem para o legado histórico da série original de 1979. Porém, a realidade demonstrou que o ignorar desta convenção resultou numa das melhores histórias que este franchise alguma vez produziu, uma prova de que não basta apenas mostrar a tragédia de guerra no campo de batalha mas também nas circunstâncias que nela resultam e o perigo das suas consequências quando não sabemos reconhecê-las e remediá-las.
Em seguimento da anterior convenção que SW exemplifica, o filme TFA também é pioneiro da ideia de que a melhor maneira de fazer uma sequela para uma franquia popular é simplesmente reciclar filmes anteriores com pequenas variações no enredo e personagens. Embora goste muito deste filme, a verdade é que, se este for um barómetro do que iremos esperar do futuro, então será uma pálida imitação do que veio antes e uma perda de tempo e dinheiro. Porém esta lógica tem um fundamento mais pragmático por detrás.
As pessoas em geral têm medo de coisas novas, ainda para mais quando se trata de algo visto sagrado que invoca tempos de felicidade. Como tal, de forma a fazer o filme que mais apela às pessoas e causa menos controvérsia, a coisa lógica a fazer é utilizar as ideias que funcionaram no passado cobertas na ilusão de algo de novo. Juntamente com isto, é feito o esforço de distanciar um bocado de eventos passados e a maior narrativa ocorrida anteriormente de forma a não alienar gente nova. Isto advém da ideia que o público em geral não está disposto a voltar para trás de forma a saber mais acerca do filme que está a ver para além de apreciar algo que seja mais digerível e fácil de compreender.
Eu não vou ser a pessoa que irá dizer que MSG está acima disto, afinal de contas é este a franquia que é pai da maioria dos clichés do género mecha e famosa por certas autorreferências constantes (a máquina principal de nome Gundam, o rival criado no molde de Char Aznable, etc..) e centrar-se à volta de temas recorrentes. Porém, a execução mostra que muitas vezes alguns dos seus clichés mais famosos acabam por servir de marcos característicos (como a assinatura de um pintor) que justificam o nome na caixa, pois MSG têm uma história rica em reinterpretações variadas das suas histórias, querem sejam remakes (Gundam SEED), readaptações modernas (Gundam 00) ou completas mudanças de género (G-Gundam).
Mesmo na altura de escrita deste artigo temos o melhor de dois mundos, tanto com séries passadas no timeline clássico (Mobile Suit Gundam Unicorn RE:0096 [Unicorn]) como num universo alternativo (Mobile Suit Gundam: Iron-Blooded Orphans [IBO]), tendo ambos bastante sucesso e sendo bem vistas pela comunidade em geral. Pegando nestes exemplos, Unicorn não tem medo de, além de prestar homenagem a mais de 30 anos de Gundam e orgulhar-se da rica história sobre o qual se apoia, explorar novas ideias e temas em volta da interminável guerra central a este universo que advêm de um legado marcado por eventos catastróficos e traumáticos para os seus participantes.
Entretanto, IBO procura reimaginar MSG num panorama diferente, chegando até mesmo a contorcer alguns dos seus clichés mais famosos. Este procura explorar temas e consequências à volta da tragédia de guerra que se vê no mundo da atualidade e não necessariamente a influência da Segunda Guerra Mundial anteriormente vista. Daí que vemos um ênfase em Neo-Colonialismo, os efeitos devastadores de gaps económicos criminalmente desproporcionais e o uso de crianças-soldado.
Tanto um como outro ainda oferecem versões radicalmente diferentes do titular Gundam. Unicorn opta por uma imagem para o futuro e, por extensão, a tecnologia mais avançada da UC, que ilustra incrivelmente o conflito entre as fações opostas a um nível visual quando contrastado com os seus oponentes. Por outro lado, IBO recorre a uma imagem bruta e agressiva de forma a complementar o seu mundo imperdoável, o papel do fato móvel dentro deste contexto bélico e a alma de seu piloto.
Tanto um como outro estão dispostos a reinterpretar a sua imagem mais icónica de forma a transmitir uma mensagem clara à audiência acerca do que estão a ver. Também demonstra que o clássico RX-78 é uma máquina intemporal que nunca perde a sua identidade e imagem independentemente da mudança de nome e aparência. Quando voltamos a dar uma olhadela a TFA, chega a ser considerado pecado fazer alguma alteração aos designs dos seus veículos mais icónicos, exemplificado pelo facto que, depois de 30 anos de avanço tecnológico, os X-Wings e TIE Fighters continuam exatamente iguais.
O que MSG mostra que, infelizmente, SW evita é uma diversificação de conteúdo e ideias debaixo da desculpa de consistência de marca e preservação da dignidade desta que mais cedo irá resultar em estagnação e perda de interesse do que um impacto intemporal, pois o que fez o SW original tão importante e monumental foi a coragem de realizar uma visão diferente e única além de prestar homenagem a uma variedade eclética de influências, também elas bizarras e obscuras.
Embora eu possa dizer que G-Gundam trata-se de uma traição das ideias e legado histórico que a franquia tem para o género mecha, muito facilmente se encontra gente que adora esta série pela sua energia contagiante e designs hilariantes e memoráveis. Esta diversificação de gostos e ideias dentro do seio de uma mesma franquia acaba por ser infinitamente mais beneficiável e saudável porque mostra que uma ideia ou história é maleável, flexível e intemporal o suficiente que se pode adaptar à mudança dos tempos e acompanhar tanto a sua audiência como os criadores que foram influenciados de forma a manter-se relevante no futuro.
Naturalmente que é preciso um meio termo de forma a não se perder a identidade e essência de uma história ou ideia, mas nunca dracónico o suficiente que não se possa explorar e expandir tanto o futuro como o seu passado. Como tal, cabe a nós como audiência ter a mente aberta e aceitar um bocado mais de criatividade e heterogeneidade nas nossas propriedades favoritas de forma a dar o exemplo tanto entre nós como para o futuro que mais cedo queremos ver tentativas falhadas do que estagnação triunfante.