
Ano novo, vida nova! Ou pelo menos, artigos novos 😉
A 25 BANPO não parou e promete não abrandar em 2024. Com novos membros na equipa, este promete ser o primeiro de muitos artigos a serem partilhados por nós, aqui no ptANIME – tal e qual nos anos anteriores. Por isso, como sempre, a ponte permanece aberta…
E precisamente porque não paramos, entre os dias 1 e 4 de fevereiro, partilhamos convosco uma série de vídeos nas redes sociais intitulada “GRAMMYs vs K-pop”, com o objetivo de analisar a relação entre os GRAMMY Awards e o K-pop.
O tema é polémico e controverso, dentro e fora da comunidade do K-pop onde correm várias denúncias, desde as que acusam a Recording Academy – a empresa responsável pelos prémios – de manipular os processos de nomeação e de voto, aos problemas expostos por Deborah Dugan (ex-CEO da empresa) e artistas famosos, como Eminem, Nicki Minaj e The Weeknd, que sinalizam problemas como o racismo, elitismo, sexismos e favoritismo existentes dentro desta.
Esta primeira análise que fizemos naqueles 4 vídeos mostrou também, de forma resumida, o impacto que o K-pop tem tido mundialmente: seja em números, em recordes, tendências ou influência. E apesar de alguns artistas sul-coreanos terem já sido nomeados e agraciados com vitórias, tal sucesso não se estende ao K-pop e é notável a falta de representação do género nestas nomeações. Nenhum artista foi ainda indicado para as chamadas “Big Four” – “Música do Ano”, “Gravação do Ano”, “Álbum do Ano” e “Melhor Artista Revelação” – nem mesmo os BTS, o único grupo de K-pop nomeado até à data, noutras categorias. E não é por falta de tentativas – vários grupos até se inscreveram este ano em diversas categorias, entre eles membros a solo dos BTS, os Stray Kids, Seventeen e Aespa, mas nenhum acabou na lista de nomeados.
São esses os pontos que levantam ainda muitas questões relativamente à atitude dos GRAMMY Awards face ao K-pop, visto este ter vindo a elevar a sua presença e a dar provas do seu poder global.
Evolução do número de users norte-americanos e europeus que fazem streaming, desde 2016
Mas agora, em modo pós-cerimónia (que aconteceu na madrugada de 5 de fevereiro) partimos então para uma segunda e última análise, com números mais recentes, para ver se as questões levantadas são legítimas ou não:
Número de espectadores do Grammy Awards de 2000 a 2024 (em milhões)
A tendência geral dos últimos anos é que cerimónias de entrega de prémios tenham uma audiência cada vez menor. A imagem acima, retirada do site “statistica”, reflete essa mesma tendência ilustrando, em cada barra, o número de espectadores dos GRAMMY em milhões desde o ano 2000, inclusive. Onde, nomeadamente, também é possível ver que o melhor ano de audiências para os GRAMMY foi 2012.
Mesmo com uma audiência que este ano cresceu cerca de 30% face ao ano anterior (a maior desde a pandemia) esta continua a ser a terceira audiência mais baixa da cerimónia. Chegamos ao ponto em que reputadas agências, como a Forbes, dizem que “uma forma de aumentar as audiências mais jovens poderia ser promover apostas legais”, visto que os mais jovens deixaram de ver as cerimónias de entrega de prémios como “um, relevante, evento de cultura pop”.
Uma das razões apontadas para o aumento das audiências na cerimónia deste ano é a ausência de discursos políticos que, durante a administração de Trump, foram o “pão nosso de cada dia”. Além disso, as imensas atuações In Memoriam e aparições de artistas que já não vinham a público há bastante tempo, como Céline Dion, ou a primeira atuação nos GRAMMY da lendária Joni Mitchell, propiciaram também esse crescimento.
Já da “nossa” parte, interrogamo-nos: esta foi a maior audiência desde 2020, isto numa altura em que as audiências estavam já em declínio. Vocês recordam-se quem foi nomeado e atuou nesse ano? Pois, precisamente, os BTS.
Em 2020, um ano em que os fãs de kpop – maioritariamente ARMY – correram até aos GRAMMY e nem assim conseguimos bater os recordes de audiência de 2012, tal põe em causa a suposta celebração sobre o aumento das audiências deste ano, uma vez que não supera as audiências de 2012 nem de 2020. Contudo, o período entre 2021 e 2023 apresentou o nível mais baixo de audiências, o mesmo período em que decorreram apresentações dos BTS (entre 2020 e 2021). Mas então, será que os GRAMMY não precisam do K-pop para ter audiências? Não exatamente.
É preciso ter em conta que esse período não decorreu em circunstâncias normais devido à pandemia da Covid-19 (que afetou não só os GRAMMY, mas muitas outras premiações) e, portanto, quando artistas de K-pop nem são incluídos em condições normais, não há forma de prever se teriam ou não melhores resultados.
Um outro ponto de que queremos falar é dos charts. Certas categorias dos GRAMMY, como a de Gravação do Ano, visam representar e premiar a excelência musical sem olhar a vendas ou posições dos tops de venda. No entanto, não é estranho ver que apenas três dos oito nomeados estão no chart “Billboard 200” de 2023? Nomeadamente as músicas “Worship” de Jon Batiste, “On My Mama” de Victoria Monét e “Not Strong Enough” de Boygenius?
E isto leva-nos então a outra questão sobre os charts em si. Será que, efetivamente, os nomeados e, acima de tudo os vencedores, são mesmo os favoritos do público? Vejamos então os nomeados e respetivos vencedores das “Big Four”:
Artista Revelação:
A vencedora desta edição foi Victoria Monét que não se estreou nos charts da Billboard pela primeira vez em 2022/2023 (foi em 2019), e nem foi este o ano em que estabeleceu a sua identidade pública (um dos principais fatores em conta para obter esta nomeação).
E apesar de Artista Revelação ser a nossa tradução para esta categoria, a verdade é que a mesma chama-se literalmente Melhor Novo Artista, o que é uma das grandes críticas apontadas a esta categoria em particular.
Mas, interpretações à parte, aqui apenas dois dos nomeados são efetivamente novatos nas paradas de 2022/23 e entraram nos tops de melhores novos artistas.
Nenhum deles no top 3, nem nenhum deles o vencedor. Será que tal tendência se mantém nas restantes categorias?
Música do ano:
Também uma das categorias favoritas e que mostram poder de influência, teve como vencedora este ano a música “What Was I Made For?”, de Billie Eilish.
No entanto, as nomeadas “A&W” de Lana Del Rey e “Butterfly” de Jon Batiste, mais uma vez, nem fazem parte do top 100. Mas, numa categoria que procura premiar também a excelência e qualidade da produção e escrita de uma música, fará sentido algo não tão popular?
Gravação do ano:
Nesta categoria a vencedora foi Miley Cyrus com “Flowers” mas, honestamente, mesmo para os de nós, tal vitória surpreende alguém? “Flowers” esteve, literalmente, em todo o lado e ninguém lhe ficou indiferente.
Esta música de Miley foi, efetivamente, um dos lançamentos do ano e, desde estações de rádios a trends, creio que ninguém conseguiu ouvi-la apenas uma vez. Adorando ou odiando, esta música realmente percorreu o mundo e ficou no ouvido de muita gente.
Álbum do ano:
Por fim, a categoria de álbum do ano viu Taylor Swift quebrar mais um recorde na sua carreira. A artista é agora a única a ter 4 GRAMMYs para Álbum do Ano, estando atualmente à frente de artistas como Frank Sinatra, Stevie Wonder e Paul Simon.
Por outro lado, bem entregue ou não, quem somos nós para argumentar com a revista TIME, certo? Ora não fosse ela selecionada como a Personalidade do Ano, de 2023.
No final, esta 66ª edição foi considerada “previsível” por alguns dos sites de notícias, tecendo comentários como “Houve poucos erros, explosões emotivas, ou discursos cheios de bipes durante a emissão (…). As performances (…) correram sem dificuldades. O anfitrião pela quarta vez Trevor Noah tinha a sua rotina de apresentador tão assente que o imprevisível comediante provou-se previsível. Como esperado, a Taylor Swift ganhou álbum do ano – outra vez.”
Apesar de tudo isto, a pergunta permanece, pois ao observar as tabelas globais, é possível ver que, pelo menos a nível de grupos de K-pop, estes estão presentes em peso nas principais tabelas reconhecidas internacionalmente. Vejam, a título de exemplo, alguns dos charts de final de ano da Billboard.
Global Artists – Billboard
Top Artists Duo/Group – Billboard
A possibilidade de nos ter passado algum grupo ou música ao lado é grande, portanto, e uma vez mais, sendo que em vários charts as posições dos artistas coreanos e das suas músicas são ainda mais altas do que alguns dos nomeados e vencedores, porque não houveram nomeações para o K-pop?
Mas nem tudo são factos. O que têm a dizer os fãs? Através dos vídeos publicados foi possível perceber que, apesar de tudo, o impacto que o K-pop tem nos seus fãs “vale muito mais do que qualquer premiação ocidental” por ser algo que “realmente nos conecta”. E tal claramente se espelha nos vários fan meetings que se realizam pelo mundo, inclusive aqui em Portugal, onde diariamente um grande número de pessoas se junta e cultiva a K-culture pelo país.
[Exemplos de eventos: 25 BANPO]
[Fan Meetings: jhopeportugal e attention.kpopzine]
No entanto, não deixam de ser expostas algumas críticas a estas premiações, sobretudo em relação à prometida inclusão e diversidade de artistas. A verdade é que continuam a surgir novas categorias ao longo dos anos, que procuram responder a essa promessa, mas será esta uma verdadeira forma de inclusão? Ou será a nossa forma de inclusão diferente da deles?
É cada vez mais comum encontrar categorias de “Best K-pop” ou “Best K-pop Act” em várias galas de premiação, por exemplo, que distancia o pop “convencional” do pop Coreano e, por sua vez, se afasta do conceito de “inclusão”. E consequentemente, torna este um tema ainda mais polémico, uma vez que esta distinção tem sido criticada pelo facto de ambos se tratarem do mesmo género – o pop.
A satirização chega a ser impossível de evitar, quando ao vermos esta criação destas “sub-categorias”, para incluir diferentes artistas, perguntamo-nos: «Porque é que a categoria principal não se chama “Best English Act”?».
Pois quando o público comenta sobre a necessidade de incluir diferentes géneros e artistas, é com o propósito de os fazer também brilhar, e não de colocá-los em categorias que a generalidade das pessoas não procura ver.
[Categorias que incluem grupos de K-pop: MTV VMAs e GRAMMY Awards]
Jay-Z foi uma das figuras da gala deste ano, embora não só pelo facto de ter levado um prémio para casa, mas por ter feito duras críticas à academia. Durante o seu discurso, comenta que mesmo seguindo os padrões da academia, “a coisa não funciona”. Desta forma, a dúvida que se mantém é: afinal, quais são os verdadeiros critérios seguidos pela Recording Academy nos processos de nomeação e de voto?
Ainda persistem várias questões, muitas das quais não podemos responder sem algum nível de especulação e ironia. Mas se este é um tema do teu interesse, partilha connosco a tua opinião e ajuda-nos neste debate tão polémico.
E caso ainda não tenhas visto os nossos vídeos, podes procurá-los no nosso Instagram e no TikTok, onde continuamos a ser “a tua ponte entre Portugal e a Coreia do Sul”, com cobertura diária de K-pop, cinema, TV, política, tecnologia e muito mais no 25 BANPO!