Aggretsuko – Análise

A mascote é uma figura ubíqua na infância dos habitantes do mundo desenvolvido. Desde o Mickey Mouse e o Bugs Bunny de tempos passados para os mais contemporâneos Mário e Sonic. Entretanto, o oriente também desenvolveu as suas mascotes que, apesar de presentes no ocidente, não deixam de nos ser alienígenas. Refiro-me especificamente ao estábulo variado de personagens Sanrio.

Do seu elenco destaca-se Hello Kitty que, apesar de estarmos familiarizados com a sua aparência, existe num mundo à parte. Isto para não falar dos seus inúmeros colegas que muito provavelmente também já foram experienciados, nem que seja de passagem.

Tendo vivido em Macau, consigo dizer com confiança que se trata de um autêntico monólito. A influência da Hello Kitty, e por extensão a Sanrio, é nada menos que monumental. Uma companhia cuja pegada cultural contemporânea rivaliza a Disney.

 

Aggretsuko – Análise

 

Porém, uma exploração deste domínio de icóns culturais revela um império que é estranhamente destituído de substância.

A Hello Kitty e seus colegas foram criados para transmitir emoções e estados de espírito tanto fáceis como confortáveis. Um fator que se estende a todas as mascotes e um ponto fulcral do seu sucesso vertical nas sociedades asiáticas. Mas por mais simplista que o Mickey e seus amigos aparentem ser, não é difícil procurar algo de mais substancial.

Até as aventuras anárquicas de Bugs Bunny destacam-se ao dar margem de manobra para a discussão de fluidez de género. Por mais que fosse exposto às obras Sanrio, nunca encontrei algo desse género. Mesmo duas décadas depois quando tentei pesquisar melhor o assunto. Daí me vi surpreendido quando dei uma hipótese a este recente anime da Netflix. Um que tem como protagonista um dos mais recentes êxitos Sanrio.

Aggretsuko trata-se de um anime de 10 episódios baseado na mascote Retsuko, uma Panda Vermelha. Tem como realizador e guionista Rarecho, é animada pela Fanworks e está disponível para streaming legal na Netflix em Portugal.

 

Aggretsuko – História

Retsuko é uma jovem de 25 anos presa num aparente infindável purgatório.

Trabalhando no mesmo posto de contabilidade desde o término do seu curso, integra-se num ambiente laboral infernal. É subordinada de Ton, um literal porco, diretor de contabilidade, que perpetuamente demonstra comportamentos sexistas e impõe horários laborais injustos. É constantemente acompanhado de Komiya, um suricata que é seu dedicado sicofanta.

Além disso, é também interminavelmente atormentada por Tsubone, uma dragão de komodo que é sua superior. Entretanto, vive rodeada de um elenco excêntrico.

 

 

Aggretsuko – Personagens

A sua melhor amiga, a Fenneko, é uma raposa-do-deserto de discernimento inescapável. É detentora de um conhecimento enciclopédico de redes sociais.

Também tem um amigo, a hiena Haida, cuja relação ele espera poder florescer em romance mas tem dificuldade em transmitir.

Retsuko e os amigos olham com admiração para a gorila Gori, diretora de marketing, e a ave-secretária Washimi, secretária do presidente da companhia e vizir in imperium da instituição. Ambas são mulheres de alta patente e representantes do ideal de felicidade ao qual os assalariados aspiram.

 

 

Na periferia tem uma colega, a hipopótama Kabae, que é a fofoqueira do escritório. Esta nunca resiste em partilhar e desenvolver essa sua paixão.

Além disso, também conhece uma gazela, a Tsunoda. Tem uma atitude e personalidade cintilante que lhe permite navegar a política do escritório e manipular o ego de Ton.

Retsuko, todos os dias, carrega às costas titânicas quantidades de stress. Ela alivia-se através de uma prática secreta que é a sua maior paixão e expressão de alma. Quando sai do trabalho, reserva uma sala privada num bar de karaoke e aí desabafa e liberta as emoções através de Death Metal.

O seu talento é veículo para livrar-se das dificuldades da vida, enquanto que, simultaneamente, deseja uma vida melhor. Objetivo que lhe levará a confrontar as dificuldades, alegrias e infelicidades que se deparam perante a trabalhadora contemporânea.

 

 

Aggretsuko – Um retrato da atualidade

A história que é contada nesta primeira temporada é algo que seria digno de fado. Retsuko é daquelas protagonistas cujo conflito é ao mesmo tempo desinteressantemente mundano e agonizantemente sisífico.

Como consumidor de ficção, vi-me sempre despegado e insensível perante obras que procuram transmitir os obstáculos da vida real. Se calhar é uma falha de carácter minha, mas apenas me vejo a preocupar quando obras desse género integraram em si um certo elemento dramático ou então de realité accrue que reforça a mensagem de tal obra e daí magnifica o seu impacto.

Porém, primeiro que vejo algo como Aggretsuko, de repente, algo de tão mundano como as repercussões de o patrão saber que ela está a pensar despedir-se me deixa com o coração nas mãos. É algo que parece só acontecer entre mim e anime, pelo que noto o mesmo no domínio do romance.

Esta obra, juntamente com o Zootopia, fielmente traduz o intuito artístico e o propósito sociológico da fábula esopiana. Nomeadamente, trazer esse espírito e criatividade para o mundo contemporâneo e apelar a faixas etárias mais avançadas.

Em paralelo à obra animada referida anteriormente, o objeto de Aggretsuko é algo de mais pessoal e imediatamente relevante a nós em Portugal (não que queira dizer que o racismo deixou de ser tema de preocupação para nós como, infelizmente, se tornou evidente nos últimos tempos).

Esta é uma obra cuja temática e narrativa está apontada especificamente aos jovens trabalhadores cujas dificuldades crescentemente aumentam em inversa proporção à preocupação daqueles que, convencionalmente, teriam o poder de as melhorar, senão mesmo do público em geral.

 

 

Aggretsuko – Uma crítica à sociedade Japonesa

Como já tem sido extensivamente dissecado e analisado, Aggretsuko aponta o olhar crítico ao ambiente de trabalho corporativo japonês. Um que constantemente produz histórias de terror para nós aqui no ocidente, desde taxas de natalidade em declínio para suicídios frequentes. Um cenário de pesadelo de condições laborais, frequentemente apontado como desumano, apesar de nós próprios não fazermos muito para seguir o exemplo reverso.

Porém, apesar da especificidade cultural da obra, a natureza globalizante daquilo que são as multinacionais significa que as angústias de um assalariado corporativo aqui em Portugal não deixará de encontrar significado em Aggretsuko. Até mais, qualquer pessoa que partilha do mercado de trabalho contemporâneo conseguirá ver-se a si próprio/própria em Retsuko.

 

 

O facto desta ser mulher aumenta o leque de crítica e comentário social ao demonstrar a frequente injustiça que é apontado a estas no mundo de trabalho. As situações com a qual ela tem que se deparar inspiram a mais profunda fúria.

A natureza privada da sua expressão de emoção relembra como a mulher ainda é artificialmente restringida na sua atitude. Entretanto eu, como espetador e homem, posso-o fazer livremente. Cria aí um contraponto interessante e relembra os privilégios que a uns falta e a outros é dado e natural.

Cada canção é o culminar de uma situação que ninguém diria ser nem justificável ou respeitante da dignidade humana. Contudo, da mesma forma que Retsuko não pode trazer os seus versos da sala de karaoke para o escritório, nós passamos desta narrativa para um mundo real que mais cedo se contenta com a injustiça do que reforma.

 

 

Fugindo às ideias mais políticas da obra, tenho que apontar para o infindável charme do mundo e das personagens. Apesar do elemento de antropomorfização omnipresente no elenco, não existe momento algum que retire o espetador da mentalidade de que está num mundo familiar. Entretanto, as personagens são todas imediatamente memoráveis, além de que também bem representadas e caracterizadas.

Embora possa haver um certo reducionismo quanto à sua identificação imediata, não deixamos de sentir que são gente. Gente que o comum dos mortais conheça e interaja frequentemente. Além de reforçar os elementos feministas da sua temática, a predominância de personagens femininas no elenco principal só adiciona à forma como a obra se destaca.

 

Aggretsuko – Ambiente

Esta é a secção na qual tenho muito pouco a observar. Uma vista de olhos passageira revela de imediato que não se trata de uma obra particularmente preocupada com sakuga.

As suas forças residem em criar designs de personagens imediatamente distintos e memoráveis ao mesmo tempo que constrói um mundo tanto aproximável como familiar. O ambiente caricaturesco, simples e colorido cria um contraste violento com o canto da Retsuko. Uma metáfora visual perfeitamente adequada aos nossos dias.

Por mais que o mundo à nossa volta se constrói como limpo e descomplicado, apenas oculta um restante iceberg de problemática sociológica. Conforto barato a vendar uma cama de pregos.

 

 

O anime preocupa-se mais do que outra coisa qualquer a transmitir toda a gama de emoções que as personagens sentem. Apesar de terem feições Funko Pops!, não deixam de ser imensamente expressivos e transmitirem uma mirabolante humanidade que os torna imediatamente aproximáveis. O conforto que estas personagens oferecem é um tão profundamente melancólico.

Seria fácil pressupor que esta seria mais uma variação dos placards do filme They Live, mas o sofrimento e catarse que o acompanhar destas personagens oferece tem em si um elemento de confusão e tristeza que trai uma alma tão caracteristicamente humana. É testemunho que, apesar da sua origem e sinergia visual com o restante estilo Sanrio, o contexto na qual se insere permite que os designs de Aggretsuko transcendam para algo mais significante.

 

Aggretsuko – Conclusão

Analisar e discutir esta obra acaba por ser algo de relativa facilidade. No que diz respeito a compreender a sua mensagem, o intuito artístico é evidente e a narrativa não sugere o contrário. Como foi tão eloquentemente explicitado num anterior vídeo acerca desta mesma obra, Aggretsuko trata-se de uma personagem cuja história, emoção e caracterização diretamente apela à base consumidora que tanto ajudou a tornar as personagens Sanrio populares e omnipresentes fora dos mais novos.

Enquanto que Gudetama reflete diretamente o ennui que tanto os jovens e adultos sentem nas sociedades atuais, Retsuko é o seu complemento mais emocional e concreto. Não, o que mais me interessa é, dado a relevância que Aggretsuko tem para a nossa sociedade, contemplar o seu inevitável falhanço aqui em Portugal.

 

 

Apesar de celebrações públicas de anime terem sido primeiras no ambiente de cultura popular portuguesa, não significa que seja algo de mainstream. Mais cedo A Única Mulher terá um impacto cultural observável no nosso país. Muito mais do que uma obra que discute as dificuldade de uma mulher no mundo de trabalho. O que interessa responder é porquê.

Que é esta nossa cultura que descartará e ignorará a angústia de Retsuko. Será que é porque é animada e um animal ou porque estamos indispostos a discutir tais temas difíceis? Mesmo naqueles que se proferem campeões destes temas e assuntos não tenho confiança que a reconheçam. Muito francamente, ver o Bloco ou o PCP a utilizar a Retsuko e seus colegas como totens e iconografia não seria tão descabido quanto isso, por mais impossível que fosse.

Podia concluir a análise a fazer o que tantos outros fazem e celebrar tudo o que Aggretsuko tão virtuosamente explora e critica. E fazem muito bem, porque algo deste género merece esse tipo de celebração até ao mítico dia que a injustiça no trabalho seja apenas memória. Mas tenho olhos nalgo de mais imediato e relevante para a terra lusa.

 

 

É a permanente angústia de ver mais uma obra, rica em temática e mensagem, cair para o poço do esquecimento. Um exemplo para todos os que perseguem a via artística e para nós, a audiência, que precisa da visão e berro da arte para nos mover para um mundo melhor. Temos de nos confrontar com a realidade de que, por mais que perseguimos, discutimos e promulgamos os estandartes dos assuntos importantes, vivemos numa sociedade que fará sempre ouvidos de mercador.

 

 

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