As Filipinas são um país do qual não se recebe muito conteúdo mediático. Felizmente, através da Netflix, que cada vez mais tenta cobrir a sua oferta audiovisual a países cujas indústrias passam mais despercebidas.
Trese, baseado na aclamada banda desenhada homónima, faz história enquanto primeira série de animação filipina a ter lugar na Netflix. É uma série de animação com seis episódios de 30 minutos cada, que dá passos delicados na linha fina que divide a fantasia urbana, o tropical gótico e o realismo mágico que tão especificamente encapsula a essência de Manila, a capital do país.
O enredo abre com o desgaste eminente da ponte frágil entre a humanidade e o oculto, deixando Manila à beira do domínio das forças das trevas. Os aswang da capital (termo dado aos seres sobrenaturais do folclore filipino) irritados pelas restrições existentes viram as costas ao seu babaylan (os xamãs filipinos) com o apelido de Trese, uma linhagem de seres humanos encarregados de serem veículos de mediação entre o mundo físico e espiritual.
A série, dobrada em inglês e filipino, segue Alexandra Trese, uma jovem mulher babaylan-mandirigma (uma xamã-guerreira), sexta filha do sexto filho da linhagem Trese, que nasceu com poderes únicos adquiridos pela família. A protagonista auxilia as forças políciais a resolver os crimes mais obscuros, enquanto batalha contra o complexo passado da sua família. Enquanto Alexandra confronta todo o tipo de criaturas, incluindo tikbalang (seres humanóides com cabeça e cascos de cavalo), e duwende (criaturas anãs que habitam os esgotos), Alexandra batalha também para provar que ela é uma babaylan tão talentosa como a figura muito respeitada do seu pai, Anton Trese.
1. Aswang
2. Tikbalang
3. Duwende
Tendo a frenética Manila como canvas, a série explora a questões milenares “Será que pode haver harmonia social e política entre as diferentes comunidades? E “Como forças como o tribalismo e a xenofobia serão capazes de desafiar a concretização de tal mundo harmonioso?”.
Os komiks de Trese têm mais de 15 anos de existência
Trese começou em 2005 como um projeto pessoal, quando Kajo Baldisimo falou com Budjette Tan sobre uma ideia para banda desenhada (komiks em tagalog). Alimentados pelo desejo de criar histórias para si (trabalhavam para agências de publicidade na época), os dois aguentaram firmemente com Trese no seu tempo livre.
Usaram o seu próprio orçamento para publicar 30 cópias e venderam-nas num quiosque local a um dólar cada exemplar. Os komiks esgotaram numa semana e Trese lentamente ganhou uma grande base de fãs.
Desde aí, Budjette e Kajo escreveram sete volumes. A série também ganhou três prémios Philippine National Book para Melhor Literatura Gráfica do Ano (2009, 2011, 2012).
A banda desenhada ainda não foi traduzida para português, mas pode-se aceder às versões inglesas nas respetivas lojas.
Alexandra Trese não era a heroína originalmente criada
“E se o protagonista fosse uma mulher?” era o conteúdo de uma mensagem enviada a Kajo por Budgette, como esta menciona em entrevista à Ricepaper, à qual Kajo respondeu “Isso torná-la-ia ainda mais espetacular!”
Alexandra Trese fora Anton Trese em esboços, no entanto, como ambos os criadores notaram uma falta de protagonistas femininas em histórias de detetives e na cultura popular do país, Anton acabou por se tornar no seu pai, do qual Alexandra tenta caminhar longe da sua sombra.
O que torna Alexandra Trese tão especial? Como a protagonista da animação fora originalmente escrita como uma personagem masculina, Alexandra retém certos elementos originais de Anton. O seu character design não só apresenta roupas sóbrias, mas o seu casaco é também inspirado pelo herói nacional das Filipinas, Jose Rizal, nomeadamente pelo sobretudo que este usava. Ela não confia em homens, exceto para auxiliá-la nas suas missões; ela lidera-os, na verdade. Possui o título de Lakan Babaylan da cidade de Manila – guardiã e curandeira da capital – , e é temida e respeitada por aqueles no mundo humano e no sobrenatural por consistentemente se esforçar para manter a paz. Os dois homens que Alexandra tem na sua equipa referem-se à jovem como sua chefe e fazem parte da família que lhe foi dada.
Na verdade, Trese não mostra um único momento de misoginia, sexismo ou de menosprezo em relação à sua protagonista, devido ao seu género. Qualquer animosidade em relação a ela por parte de outras personagens é geralmente devido à sua idade e falta de experiência em comparação ao antigo Lakan Babaylan, o seu pai. A sua mãe também era vista como uma personagem crucial e fortíssima, e cujas lições eram tão importantes quanto as do seu pai. O papel de Trese como Lakan Babaylan foi conquistado por ela e somente ela e levou anos em isolamento para o ser feito.
Trese também não cai nos estereótipos de restrições emocionais às quais as personagens femininas são frequentemente subjugadas, lidando com o amor ou a luxúria, por exemplo. Enquanto que sim, existem terceiros que mostram esse tal interesse lascivo, a xamã faz questão de mostrar que a sua missão de manter vivos os acordos que garantem o equilíbrio entre o sobrenatural e o mundo físico tem prioridade sob qualquer outra coisa, até mesmo sob as suas horas de sono.
Ela vê o trabalho como a sua prioridade número um e é igualmente ou até mais respeitada do que os seus homólogos masculinos, desconsiderando quaisquer pensamentos sobre a identidade de género que a possa distrair dos seus objetivos finais.
É uma verdadeira inspiração poder testemunhar personagens femininas que lutam por si mesmas e que se respeitam a si mesmas e aos outros, em nível igualitário, “sancrossatizando” os seus princípios. Este tipo de características tem a capacidade de humanizar as personagens e o potencial de retratá-las como alguém com quem os espectadores possam genuinamente identificar-se, ajudando a criar padrões mais elevados para os seus homólogos masculinos e elevar a qualidade das narrativas.
O que é que Trese nos pode mostrar sobre as Filipinas?
A série segue a detetive do oculto Alexandra Trese, que vagueia pela cidade resolvendo crimes e combatendo todo o tipo de monstros. Mas Alexandra não luta apenas contra bestas do mundo espiritual, aquelas que vivem nos livros de histórias. Não, ela combate outros monstros, os do mundo moderno, cujas fábulas revelam as inúmeras faces da sociedade filipina.
Filipinas: paraíso das drogas e reino de terror
“None of you cops are saints. We’re not people to you, we’re just numbers, statistics.” Diz Raul Lazaro, um delinquente que tem o poder de ressuscitar os mortos e torná-los em zombies em vingança do seu irmão morto às mãos das autoridades.
Este episódio em especial coloca uma luz sobre a alegada guerra anti droga que ocorre no país, à qual a brutalidade policial é constantemente noticiada, mas raramente punida.
Há muitos paralelos entre as Filipinas de Trese e as Filipinas do mundo real: é inegável de que o país ficou conhecido mediaticamente pelas piores razões, nomeadamente pela enorme corrente de tráfico de drogas e o reino de sangue de Duterte com as suas políticas antidroga.
Em 2020, um relatório da UN divulgou o número colossal de 8663 pessoas assassinadas, entre elas pelo menos 122 crianças, às mãos da polícia, comandada pelo presidente filipino. Suspeita-se de que o número de mortes seja o triplo.
Rodrigo Duterte começou em 2016 uma pesada campanha contra as drogas, com o objetivo de “limpar” a sociedade do tráfico e da toxicodependência, autorizando publicamente as autoridades policiais a “atirar a matar”.
A série não discute apenas a questão da brutalidade policial, mas também a corrupção política. O Mayor Santamaria é um político “sujo”, que faz pactos com os aswang, sobretráfico de humanos oriundos das favelas, em troca de poder e influência. Enquanto homem sedento por poder, este torna-se uma personagem crucial e vilão no decorrer da série.
O Catolicismo e o oculto
Há um episódio em particular na série em que seguimos um tiyanak, uma criatura vampiresca que toma a forma de um recém-nascido. Quando embalada pela sua vítima, a besta mostra a sua verdadeira forma.
Na série o tiyanak é retratado como um bebé que fora abortado pela sua mãe e que depois regressa para assombrá-la. Mas este tiyanak é mais do que um bebé vingativo – é alguém abandonado pela sua mãe, voltando para poder sentir algum tipo de amor.
A interrupção voluntária da gravidez ainda é tópico delicado na única nação cristã da Ásia, onde mais de 80% da sua população se identifica como católica.
O aborto é ilegal e altamente desaprovado nas Filipinas, cujas legislações proíbem o aborto em quaisquer circunstâncias, mesmo caso a mãe seja violada. No entanto, os relatórios dizem que milhares de mulheres realizam abortos clandestinos todos os anos.
Apesar de a nação ser pesadamente influenciada pelo Catolicismo que, por acaso, é um dos maiores lares da religião, a sociedade ainda tem profundas raízes no sobrenatural.
No caso do tiyanak, consegue ver-se o cruzamento entre a mitologia e as ideias católicas. Havia crenças indígenas sobre a existências dos tais aswang – de quando os espanhóis chegaram ao país, trazendo consigo a fé em Deus – resultando neste tipo de catolicismo, onde existe a crença, mas também a abertura ao mundo sobrenatural. Aliás, grande parte da população não vê grande dilema em ser cristão e prestar tributos a outras entidades sobrenaturais, tributos esses que são realizados desde o tempo pré-colonial. Há quem diga, por exemplo, que as aswang originais eram na verdade, babaylan – mulheres-xamã que se recusaram a converter à fé católica.
Um pequeno guia sobre a mitologia filipina
O universo de Trese é conhecido pela inclusão de elementos de folclore filipino, tanto nos komiks como na série animada.
No primeiro episódio, Alexandra Trese procura por pistas relativas ao desaparecimento de passageiros de um comboio urbano e o aparecimento de um cadáver de um fantasma – a senhora de branco, usada como sacrifício.
Esta aventura leva Alexandra a encontrar-se com Nuno, um duwende que vive nos esgotos e com o líder de um clã de aswang, onde ambos apontam o nome de um polícia corrupto envolvido no contrabando de ossos de sereia.
A senhora de branco é talvez o habitante sobrenatural mais popular do universo de Trese. Quase todos os países têm no seu lore a lenda urbana de uma mulher-fantasma vestida de branco. Nas Filipinas, trata-se da mulher de “Balete Drive” (aqui em Portugal, a lenda mais parecida será o mito da mulher fantasma da estrada de Sintra). Numa noite fatídica, no cruzamento de Balete, em Manila, uma adolescente foi morta num acidente rodoviário e desde aí que o seu espírito vagueia pelo cruzamento à procura do seu assassino, atormentando todos os taxistas que por lá passam. Há testemunhas que dizem que é possível ver o fantasma a partir do espelho retrovisor interno do carro onde conduzem, apenas à noite.
Ainda neste episódio, temos a aparição de Ibu, a deusa da morte e do submundo.
Sob o reino de Ibu, todas as almas levam uma vida igual à qual tinham no mundo físico: comem, trabalham e até constituem matrimónio. Em Trese, Ibu manifesta-se através da sua emissária, um anjo-guia que escolta as almas até ao reino dos mortos. Um facto muito peculiar é o meio de transporte que a emissária usa para levar as almas: via MRT, um sistema de transito rápido de massas, usado em Singapura e países vizinhos – ou seja, de comboio. Uma homóloga mais leve, comparada com o nosso Caronte, o barqueiro do submundo da mitologia grega.
Nuno, o informante idoso da xamã, é uma personagem constante na série. Nuno é inspirado no mito de Nuno sa Punso, um espírito da terra que toma a forma de um homem idoso e que geralmente habita na sujidade. Na série, a criatura chama-se Nuno sa Manhole, visto que vive debaixo das tampas de esgoto.
O episódio 2 abre com um flashback de uma cena de investigação com Anton Trese e uma muito jovem Alexandra. Os polícias que seguem o babaylan são sigbins, criaturas que mudam a sua aparência, obedecendo às ordens do seu mestre. Em algumas regiões do país, as versões destes seres mudam: a série adotou a versão de que estes seres tomam a forma de grandes cães.
Mais tarde, Alexandra chega ao local de um acidente rodoviário muito peculiar. Na sua busca pelo culpado, a detetive procura a ajuda do “Señor Armanaz”, uma figura metade cavalo metade homem. Esta espécie de tikbalang é conhecida por desorientar os que viajam. Os tikbalang preferem viver em florestas e montanhas remotas – em Trese, Alexandra visita-o no seu lar, numa estufa que aparenta ser uma selva urbana.
O episódio 4 abre com mais flashbacks, com Anton e a sua filha Alexandra a defrontar Datu Talagbusao, que fora convocado, através de um ritual de sangue.
Data Talagbusao é uma criatura mítica, imortal, com aparência humana, capaz de se transformar na imagem de outros. Talagbusao é um mito pagão oriundo da província sulista de Bukidnon, e representa o Deus da Guerra.
No mesmo episódio, o capitão da polícia Guerrero é salvo de uma catástrofe através da ajuda de Santelmo, uma cabeça flamejante, uma gigante bola de fogo que Alexandra convoca através de um telemóvel. Santelmo é a versão curta da expressão em tagalog “Apoy ni San Elmo” – “O Fogo de Santelmo”. O fogo de santelmo existe e é um fenómeno meteorológico, visto com frequência nos mastros dos barcos durante as descargas elétricas no mar. Este fenómeno também aparece n’Os Lusíadas, no canto V, durante viagem a caminho da Índia, perto da Baía de Santa Helena, já depois da passagem pelo Equador, na costa ocidental do continente africano. Diz-se que os Santelmos são as almas das pessoas que se perderam no mar, em rios ou durante o tempo das cheias. Outras lendas referem que um Santelmo é criado a partir da luz do sol que entra em contacto com sangue humano derramado. Em Trese, Santelmo é o espírito do Grande Incêndio de Binondo, que aconteceu nos anos 50.
No mesmo episódio temos também um olhar mais profundo sobre os aswang, que são talvez os seres mágicos mais populares da cultura filipina. Aliás, grande parte do enredo de Trese revolve à volta das tribos aswang. O termo aswang é um “guarda-chuva” que pode representar variados tipos de seres ao longo do país, desde vampiros a bruxas. Na série, Alexandra Trese enfrenta gangues de aswang que habitam na epiderme de Manila, fazem pactos obscuros com a polícia corrupta e alimentam-se do tráfico humano.
Trese balança momentos de leveza narrativa com sequências de violência apropriadas, sem nunca recorrer a estereótipos; desvenda muito do folclore filipino com integridade e apresenta-se como uma oportunidade para os espectadores filipinos de olhar para as histórias com que cresceram de outra maneira, ao mesmo tempo que permite a espectadores que desconhecem esta realidade visitar outras tradições sobrenaturais. Uma mensagem importante que a série transmite é que nem todo o mal vem de um outro mundo.
Trese, da distribuidora Netflix, pode ter os seus problemas, mas é portador de um mundo que eu nunca pensei em experienciar numa plataforma tão reconhecida. E é um mundo tão fascinante.
Como o futuro da série ainda permanece incerta, os fãs podem sempre nos komiks se eles quiserem continuar a seguir as aventuras de Alexandra.
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