Já vimos no artigo anterior como se deu a chegada dos portugueses ao Japão em 1543 e as primeiras impressões, no âmbito dos Descobrimentos. Agora analisamos em maior pormenor um dos aspetos da influência ocidental em território nipónico – a religião.
Esta era de expansão marítima trazia consigo uma enorme carga de propaganda cristã, e foi assim que em 1549 chegam ao Japão S. Francisco Xavier e outros missionários jesuítas. A presença de membros do clero neste território incentivava os mercadores europeus a lá fazer negócio, e cerca de vinte anos depois da chegada dos missionários foi fundado (1) o porto de Nagasaki para uso exclusivo dos portugueses, com a autorização do daimyō local, Ōmura Sumitada, que se tinha convertido a esta nova religião.

Claro está, a entrada de uma religião estranha e completamente diferente do que se estava habituado não foi um processo pacífico. O Budismo e Xintoísmo estavam intrinsecamente ligados à sociedade e quotidiano nipónicos, e em vários aspetos o Cristianismo entrava em conflito com valores que desde sempre fizeram parte da vida dos japoneses. Os missionários tinham que desenvolver e adaptar estratégias que permitissem uma maior eficácia na divulgação desta religião, apesar das fortes desavenças com as diversas seitas budistas. Para este fim, os jesuítas envolveram-se na árdua tarefa da aprendizagem da língua japonesa, e aprenderam a viver e respeitar a cultura local, misturando-se nela, num processo chamado de aculturação (2). Aqui se destacam alguns missionários portugueses que tiveram bastante relevância neste campo, e ajudaram à compreensão mútua entre as duas culturas. Vamos focar-nos em três personalidades, apesar de outros nomes poderem ser justamente mencionados.
Luís Fróis é considerado como o primeiro japonólogo, tendo sido pioneiro dos estudos comparados entre os costumes europeus e japoneses. Ao contrário de outros missionários, que residiam em Nagasaki, Fróis vivia na capital Miyako (Quioto), o que o forçou a aculturar-se na sociedade nipónica de maneira mais “agravada” que outros. Isto contudo não foi tarefa desagradável para Fróis, que adorava a cultura japonesa. Terá chegado mesmo a travar amizade com Oda Nobunaga, o famoso senhor da guerra do Sengoku Jidai (período do “país em guerra”). A obra mais influente por ele escrita foi a História de Japam [Japão], na qual conta os acontecimentos passados no Japão a partir de 1549 em grande detalhe. Também foi autor do famoso Tratado das Contradições, onde coloca lado a lado as diferenças entre a sociedade europeia e nipónica. Um exemplo: “A gente da Europa se deleita com peixe assado e cozido; os japões [japoneses] folgam muito mais de o comer cru.”
Outro missionário português de bastante importância é João Rodrigues “Tçuzzu”, um grande linguista também conhecido como “O Intérprete”. Ele compilou a primeira gramática da língua japonesa, conhecida como Arte da Língua de Japão, e o seu extenso conhecimento do Japonês levou a que fosse frequentemente requisitado para, na sua qualidade de intérprete, ajudar a resolver disputas e negociações entre mercadores estrangeiros e governadores locais. Chegou a servir como agente comercial de Tokugawa Ieyasu em Nagasaki.
Por último, Luís Almeida teve um grande impacto na sociedade japonesa, mas num grau diferente dos missionários referidos anteriormente. A sua especialidade era a Medicina, tendo estabelecido misericórdias e hospitais para tratamento de todos os enfermos, sem cobrar pagamento. Isto foi um importante fator na propagação do cristianismo pela população mais pobre, frequentemente ignorada pela elite associada ao Budismo, seduzindo esta fação menos favorecida da sociedade à conversão a este “novo” Deus. Ainda hoje existe em Oita (região de Kyuushuu, no sul do Japão) um hospital com o nome deste missionário, honrando o papel que este teve sobre a população.
O Cristianismo gozou de bastante popularidade também nos escalões mais elevados da sociedade nipónica. Muitos daimyō se converteram à nova religião, o que lhes conferia um estatuto de algum prestígio e, claro, maior facilidade para trocas comerciais com os nanbanjin nos seus territórios, reforçando a sua riqueza. Em 1582 partiu de Nagasaki uma embaixada constituída por quatro meninos japoneses cristãos rumo a vários pontos da Europa. Esta missão, que durou 8 anos, tinha dois principais objetivos a nível social: mostrar aos ocidentais o fruto da missão jesuíta no outro extremo do planeta, e mostrar a estes japoneses como era a cultura e sociedade europeia. Este acontecimento ficou conhecido como Embaixada Tenshō, nome da época histórica em que decorreu.
Claro está que o impacto do ocidente e Japão não se ficou por aqui, estendendo-se a outras áreas da cultura. Mas isso é matéria para o próximo artigo; fiquem atentos!
Notas:
Tendo em conta a pertinência de um comentário feito abaixo, venho retificar alguns pontos:
(1) O porto de Nagasaki não foi fundado, mas sim cedido nesse ano aos Portugueses. Apesar de ter sido esta cedência que o transformou no entreposto comercial internacional de que hoje se tem conhecimento, o facto é que já lá estava antes da chegada dos ocidentais. O surgimento e desenvolvimento da cidade de Nagasaki é que sim, teve uma “mãozinha” mais direta dos nossos antepassados.
(2) Aqui o termo correto a usar é o de “acomodação“, e não aculturação como referido no texto. O primeiro diz respeito a esta adaptação dos jesuítas ao meio envolvente, em vez de forçarem os locais a adoptar as suas práticas, numa tentativa de dominância (como aconteceu com, por exemplo, o Brasil e países de África aquando deste processo de Expansão Marítima). Já o último representa o fenómeno das mudanças culturais e sociais causadas pelo “choque” de duas civilizações, o que acabou de facto por acontecer, mas não é referente a este contexto específico.
Por estas imprecisões que podem ter levado o leitor a fazer uma apreciação errada dos factos, peço as mais sinceras desculpas.
– A autora.