Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões – Análise

por Clarisse Silva
Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões pelo Cineclube da Guarda

Filme: Manbiki kazoku | Shoplifters
Diretor: Hirokazu Koreeda
Escritores: Hirokazu Koreeda (história original), Hirokazu Koreeda (guião)
Produtores: Takashi Ishihara, Hirokazu Koreeda, Yu Kumagai, Kaoru Matsuzaki, Yasuhito Nakae, Satomi Odake, Megumi Osawa, Hijiri Taguchi, Tom Yoda, Akihiko Yose
Cinematografia: Ryûto Kondô
Data de estreia: 22 de novembro de 2018
Duração: 2h 1 minutos
País: Japão

 

Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões – Análise

No passado dia 24 de novembro de 2018 tive a sorte de poder ir ao cinema da Trindade no Porto assistir o filme Shoplifters realizado e escrito por Hirokazu Koreeda. Foi a minha primeira vez a assistir um filme oriental num cinema português.

 

Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões - Análise

 

Sendo um filme japonês, é incrível o modo como as filmagens e a passagem das mensagens é tão bem feito! Gostei da forma calma como este nos começa por apresentar e mostrar o estilo de vida das personagens principais. O modo instantâneo e natural dos acontecimentos a ocorrer. O modo simples, e ao mesmo tempo extravagante, como uma família japonesa de pobres come na mesma divisão da casa e no meio da confusão de roupas.

 

Filmagem das cenas do filme

Inicialmente, enquanto a família está reunida a jantar, as conversas intercaladas são constantes e não se chega a perceber muito bem quem está a falar. O mais impressionante foi o posicionamento da câmara de filmar neste momento do filme.

Um posicionamento afastado, entre duas portas, longe do ponto de situação, escondendo os rostos de alguns atores. A necessidade que tive de ver os seus rostos! Uma coisa rara que não costuma acontecer nos filmes que costumamos ver usualmente nos cinemas comuns. E a piada que achei a esta cena do filme… como se fossemos nós espectadores, estarmos sentados na peça ao lado a apreciar aquele momento. É incrível como Koreeda conseguiu fazer com que as pessoas assistissem o filme de um ponto de vista diferente.

 

Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões - Análise

 

Para além disso o realizador deu-nos uma visão diferente do povo japonês que estamos acostumados a ver na televisão e na internet. Mostrou-nos que mesmo nas cidades desenvolvidas há pessoas que vivem em dificuldades, tanto financeiras como familiares.

As pessoas costumam ter uma visão positiva sobre o povo japonês. Veem-nos como um povo estável e trabalhador. Mas na realidade, muitas das vezes, são os mais ricos que vivem mais infelizes e que têm mais problemas nas suas relações pessoais e interpessoais. De uma forma irónica o filme dá-nos a conhecer uma família pobre que vive a vida roubando alimentos de supermercados e que mesmo tendo em conta esse facto vivem uma vida simples, feliz, compartilhando amor entre os membros da família. Infelizmente no Japão, essas famílias são acusadas mais facilmente por cometer um crime, do que uma família rica que omite os abusos físicos aos seus filhos.

 

Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões - Análise

 

Ser mãe (um dos temas abordados)

Shoplifters também conseguiu abordar vários temas, para além das diferenças sociais e do crime. Irei referir um tema que me tocou imenso no filme: ser mãe.

 

Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões - Análise

 

O filme transmite várias mensagens acerca de vários temas, mas a que mais me surpreendeu foi mesmo o facto de demonstrarem que muitas vezes as verdadeiras mães não são aquelas que dão à luz o filho, mas sim aquelas que cuidam, se preocupam e partilham amor, mesmo não sendo do mesmo sangue! Porque a verdadeira questão imposta ao espectador foi: “É preciso engravidar para nos tornarmos mães?!”. Admirei a coragem com que abordaram o tema, porque se destaca ao longo do filme, a partir de diferentes situações. Não é um tema que se aborde muito nos filmes habituais, muito menos nos filmes portugueses.

 

Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões - Análise

 

Cultura e estilo de vida japonês

Também gostei muito do modo explícito como mostram situações menos conhecidas da cultura japonesa ou empregos pouco vulgares adotados por adolescentes.

Fiquei realmente surpreendida com o facto de terem mostrado tão explicitamente o caso de jovens raparigas que são trabalhadoras sexuais profissionais. O caso é abordado a partir de uma das personagens principais, Aki(Mayu Matsuoka). O que me afetou mais foi o facto de a rapariga trabalhar nesse campo, começar a importar-se com o seu cliente habitual, mas no entanto estar a sofrer ao trabalhar como uma escrava sexual para poder ganhar algum dinheiro.

 

Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões - Análise

 

Este exemplo trata-se de uma situação comum no Japão e aos quais os japoneses estão habituados a aceitar, visto que muitos optam por essa via muitas vezes para se satisfazerem. Pelo contrário, como não é comum na nossa sociedade este tipo de profissão, o espectador poderá ficar chocado se não conhecer os costumes peculiares do povo japonês.

 

Cultura e mentalidades diferentes

O filme mostra muito a diferença de culturas e de mentalidades, quando comparámos o Japão com Portugal. As pessoas ao verem filmes deste tipo ficam geralmente espantadas ou revoltadas com algumas situações. Esse foi o caso no final do filme, quando a minha mãe comentou comigo e criticou alguns pontos. Isso deve-se ao facto de Hirokazu Koreeda mostrar uma realidade crua e sensível, sem disfarçar ou omitir. Porque só assim é que se consegue fazer uma pessoa pensar! Porque não estamos habituados a lidar com a verdade, por detrás de muitas situações que se passam na sociedade.

 

Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões - Análise

 

Este filme apela à curiosidade, ao sentido crítico do espectador. Faz-nos refletir! E muito! Para além disso, é uma história cheia de emoções, de mensagens, de nostalgia, de intriga, de dúvidas, de drama, mas principalmente de amor!!!

 

 

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