86 Anime | A dualidade de uma guerra – Análise

por Beatriz Ribeiro
86 Anime | A dualidade de uma guerra - Análise
  • Título: 86 (Eighty-six)
  • Adaptação: Light Novel
  • Produtora: A-1 Pictures 
  • Temporada: Primavera 2021
  • Género / Demografia: Ação, Militar, Ficção Científica, Drama, Mecha

 

86 Anime | A dualidade de uma guerra – Análise

 

Bem vindos a mais uma análise!

Hoje vou-me debruçar sobre um anime de primavera que ficou assim meio esquecido no meio de tantos animes de qualidade. Na verdade, 86 passou tão despercebido que eu nem tinha dado conta dele. Contudo, o meu irmão teve a ótima ideia de o recomendar para as minhas visualizações de férias, e eu não podia estar mais grata pela sugestão.

Diga-se de passagem que as minhas expetativas não eram, no entanto, muito altas. Especialmente porque Mecas não é a minha praia, tal como disse na minha review de Suisei no Gargantia.  Mas as minhas expetativas não foram ultrapassadas… nem pensar. Elas foram completamente pela janela fora, e a única coisa que me espanta é “como é que as pessoas não falam deste anime?” que considero ser um dos meus favoritos, senão o favorito, da passada temporada de primavera.

 

Afinal vai-se a ver e… nada

Eu gosto de premissas em que as personagens descobrem que o mundo em que vivem é uma cambada de mentiras, ok? Em parte porque, no fundo da minha mente, acho que o que vemos na nossa sociedade não é bem o que aparenta ser, e há sempre muita marosca pelo meio.

Neste caso, é a República de San Magnolia que faz muita marosca. Constantemente atacada pelo império Giadan, e pelos horríveis mechas de combate autónomos Legion, esta República não tem a vida fácil. Contudo, a malta de Magnolia não está muito preocupada com uma guerra que, alegadamente, não tem “qualquer baixa humana”. Alegadamente, a República combate com mechas autónomos semelhantes aos da Legion, intitulados Juggernauts, e como apenas robôs lutam, ninguém morre… só que não.

 

 

Os 86, pessoas excluídas dos 85 distritos da República por serem considerados de “raça inferior” (numa lógica bem parecida com a do Hilter) acabam por ser balas para canhão, enquanto pilotam os supostos robôs “autónomos” (que de autónomos não têm nada). E isto acaba por ser extremamente conveniente, porque a malta da raça privilegiada que está no serviço militar apenas tem que sentar o rabinho na cadeira e comandar pessoas que não vêm, que são apenas pixéis num ecrã.

Apesar de tudo, digamos que temos, pelo menos, uma pessoa desta República com um pingo de noção: a nossa protagonista Lena. Mas o que poderá Lena fazer para ajudar os 86? Ela nunca os viu, e nem sabe os seus nomes. Quer Lena, quer os 86, vivem em mundos radicalmente diferentes, com vivências muito próprias e quase diametralmente opostas, barreiras estas brilhantemente representadas neste anime. 

 

 

86 Anime – Realidades alternadas

A forma como 86 apresenta a sua narrativa é incovencional e as escolhas de produção tornaram algo que tinha o risco de ser redundante, em algo emotivo. Refiro-me à estrutura dos episódios, cuja ending aparece muito mais cedo (assim uns bons 5 minutos antes do episódio supostamente acabar) do que na maior parte dos animes.

Fiquei espantada quando entendi que a ending, o fabuloso tema “Avid ” por SawanoHiroyuki[nZk]:mizuki, funciona como separador entre as duas realidades com as quais convivemos: a realidade de Lena, e a realidade das pessoas 86. O meu espanto adveio, em parte, de considerar que o mais intuitivo a fazer neste tipo de narrativa seria alternar os diálogos de Lena com os 86, mostrando as duas partes alternadamente em cada momento. Para exemplificar melhor este aspeto, pego no momento em que Theo, um dos 86, desata a insultar Lena. Em vez de vermos as expressões faciais de Lena alternadas com as de Theo durante o diálogo, apenas temos acesso à reação de Lena. Somente após a ending tocar e passarmos para o “mundo dos 86” é que temos acesso às expressões faciais de Theo, durante essa mesma cena.

 

Não sei quanto a vocês, mas eu achei este aspeto um golpe de mestre, do qual eu nunca me lembraria nem numa segunda vida. Assim, não só esta estrutura original evita transições constantes que podiam ser confusas, como também acentua, para o espetador, as verdadeiras barreiras comunicacionais entre Lena e os seus soldados.

 

Vais chorar e não é pouco

Este anime não deixa a malta poupar lágrimas. Eu já estava pronta para não me importar com personagens secundárias desinteressantes mas… mas não. Todos os 86 que conhecemos são pessoas com personalidades distintas, vincadas e com vida própria e, por isso, sempre que alguém morre, é impossível não ficar emocionado. Mas pondo isso de lado (para o bem do meu coração), queria agora focar-me mais nos nossos protagonistas: Lena e Shin aka Undertaker.

 

 

Lena é uma personagem muito likable, a típica idealista inocente que acredita poder salvar o mundo, mesmo que isso signifique correr contra a maré tentar impedir a todo o custo. Apesar disso, Lena é uma mulher de armas e também sabe jogar sujo, fazendo uns evil acts que dão uns plot twists mesmo apetitosos. Já Shin, com o code name de Undertaker, é o misterioso emo boy e capitão do esquadrão, muito forte e nobre. Felizmente, para bem de uma boa caracterização, Shin acrescenta à sua genialidade tática várias camadas de insanidade e trauma que o tornam muito mais creepy. Mas não se preocupem, o Shin lá para a frente na história vai ter uma sessão de terapia… nada mau.

 

 

A animação 3D, meu amor

Termino a minha análise com uma enumeração de elogios à animação desta série. Não só manteve-se coerente ao longo de todos os episódios, como demonstrou ser de grande qualidade. E quando digo de qualidade, refiro-me quer à animação 2D tradicional, mas especialmente à animação 3D.

 

 

Eu tinha tanto medo que não fosse nada de jeito e… afinal é uma das melhores que eu já vi. Dá para ver que a equipa de animação dedicou imenso tempo a animar os robôs, tendo em conta a complexidade dos seus designs. A animação 3D bem feita é algo que valorizo muito, tendo em conta os atentados visuais que eu já vi. Por isso, quando me deparo com uma animação 3D consistente que se enquadra bem com a animação 2D envolvente, até me vêm as lágrimas aos olhos.

 

86 Anime – Análise

Juízo Final

86 Anime | A dualidade de uma guerra - Análise

 

86 é um tesouro da temporada de primavera. A sua animação, banda sonora e originalidade narrativa são de uma qualidade exímia que me surpreendeu sem precedentes. Com uma forte componente de ação, mas com uma atenção cuidada a debates ideológicos que abraçam a política e os direitos humanos, 86 é um anime que cativa desde o primeiro minuto. Apesar de ser uma série com uma componente mecha, o seu lado puramente humano e comunicacional torna o frenesim visual significativo e interessante, podendo até mesmo agradar aos fãs de slice of life que procurem um drama menos parado.

Agora, apenas nos resta esperar pela segunda temporada, que irá estrear em outubro. Mal posso esperar para ver a continuação deste projeto, cuja dedicação está visível em cada frame de animação que se apresenta à nossa frente. Desta vez, com espetativas muito mais altas, espero voltar para elogiar o drama político e humano de 86, tão fictício mas tão real nos seus fundamentos.

 

 

1 comentário


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1 comentário

Leandro santos 16 Agosto, 2021 - 20:24

concordo .. se não é o melhor anime da primavera está lá bem perto

tambem adorei esse promenor do ending nao acabar o episódio. foi muito bom o que eles fazem ao distinguir as duas realidades
adorei os protagonistas e até os secundarios conseguem despertar interesse.
a história é rica , e ver estas atrocidades deixa qualquer um com um nó no estomago.

a animação está simplesmente deliciosa e nem o 3d dos mechs retira brilho há animação.

que venha de lá a segunda parte, e que seja tao boa como a primeira

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